Resgato pessoas no Mediterrâneo e é diferente do que vês na televisão
Um resgate na costa da Líbia, a 16 de Dezembro de 2017. REUTERS / Darrin.
Relato

Resgato pessoas no Mediterrâneo e é diferente do que vês na televisão

Assim é o meu dia-a-dia num barco de resgate de migrantes e refugiados.
26.6.18

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Chamo-me Anabel Montes e sou a responsável da missão de salvamento da "Proactiva Open Arms". Comecei a trabalhar como socorrista quando tinha 17 anos. De quando em vez, fazia voluntariados de resgate. Apaixonava-me tudo aquilo, mas, devido ao clima que temos em Espanha no geral e nas Astúrias em particular, que é de onde sou, tinha que procurar outros trabalhos no Inverno para ganhar a vida. Após oito anos nas Astúrias fui para Barcelona e trabalhei nas praias durante quatro anos.

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Em 2015, durante umas férias, descobri que a "Proactiva Open Arms" tinha acabado de ser criada. Uma ONG cujo fim era - e é - resgatar do mar os refugiados que chegam à Europa em fuga de conflitos bélicos, de perseguições ou da pobreza. Ofereci-me como voluntária. Era o trabalho que já estava a fazer, mas noutro contexto, num sítio onde havia verdadeiramente a necessidade. Fui para Lesbos 15 dias, que acabaram por se converter num mês e senti que me estava a dar conta de como é, verdadeiramente, o Mundo.


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Liguei para Barcelona e deixei o meu emprego. Passava a maior parte do tempo num barco de resgate rápido. Estávamos em 2015. Em finais de Dezembro de 2016 deu-se início à operação do Mediterrâneo central e passei a formar parte dela até agora.

A 17 de Março deste ano, o nosso barco foi retido depois de atracar no porto de Pozzallo, em Itália, para desembarcar 216 migrantes. Acusavam-nos de favorecer a imigração ilegal e o tráfico de pessoas. Também de sermos uma organização criminosa. Já há algum tempo que, no terreno, víamos que as coisas estavam a mudar. Que, desde 2017, tinha havido uma mudança de atitude por parte das instituições e havia mais hostilidade e agressividade para connosco. Mas, não houve nenhuma notificação oficial, nenhuma alteração legislativa, nada que nos fizesse imaginar o que iria ocorrer.

O barco foi libertado a 16 de Abril. A sensação era de frustração, de impotência. De não entender o que se estava a passar, nem como era possível que acontecesse uma coisa assim por fazermos o que consideramos ser o correcto: não deixar morrer os refugiados e migrantes. Porque é que nos perseguem por fazermos o trabalho do qual as instituições não se ocupam, essa é a pergunta que fazemos há muito tempo e que fizemos publicamente várias vezes. Nós estamos a resgatar pessoas do Mediterrâneo, porque os organismos que deviam fazê-lo não se encarregam totalmente da situação.

O trabalho que levamos a cabo é muito mais cru, mais difícil e muito mais dramático que o que se vê na televisão ou nas fotografias. Partimos do pressuposto que estamos um pouco anestesiados perante o dilúvio de fotografias e informação. Para além disso, temos uma visão muito "tendenciosa" da imigração. Achamos que são pessoas pobres, sem educação. Quando estás em contacto com elas, dás-te conta de que é algo tão grande e tão diverso que acaba por te aniquilar essas ideias preconcebidas. Apercebes-te de que podias perfeitamente ser tu a chegar num barco. E que, ainda que o negues, tens dentro de ti, enraizado, um certo conservadorismo

REUTERS/Darrin Zammit Lupi

O processo habitual é, assim que temos as pessoas resgatadas a bordo, dar-lhes o que precisam. Comida, bebida, mantas, roupa se estão molhados… Mas, também temos que dar-lhes o direito a poderem descansar. A sentirem-se seguros durante todo o tempo que estiverem a bordo. Estamos a falar de que muitos deles não estão seguros há muito tempo, provavelmente há meses ou até anos. Depois, dependendo das circunstâncias, levamo-los a terra firme ou passamo-los para outro barco.

Os problemas mais comuns com os que chegam são a desnutrição e a desidratação, que são generalizados. Também há muitas pessoas agredidas sexualmente. Talvez pareça uma sfrase muito alarmista, mas dir-te-ia que todas as mulheres e alguns homens dos que chegam sofreram abusos sexuais. Também há o que não está à vista: o trauma psicológico derivado desta série de abusos e maus-tratos.

A bordo vivem-se momentos muito difíceis. Eu digo sempre que há níveis diferentes de dureza. Há a parte mais traumática, que é quando tens que tirar corpos da água, mas sinceramente considero também muito duro o que se vive com as pessoas que ficam a bordo, com os vivos. As suas histórias. Por vezes nem sequer faz falta que as contem. Lêem-se nos seus corpos, nas suas cicatrizes, nos seus olhares. E também a sensação de os olhar e saber que, quando chegarem a terra, o sofrimento não vai acabar - mas sim que os espera uma nova luta, provavelmente muito mais longa. Talvez menos violenta fisicamente em comparação com o que viveram, mas mais traumática psicologicamente. Esse é, provavelmente, o momento mais duro. Quando vês que eles se sentem a salvo, mas sabes que não é bem assim.

Mas, a bordo também se vivem momentos de alegria absoluta. Continua a impactar-me e continuo a gostar muito quando as pessoas resgatadas já levam umas quantas horas a bordo e se sentem um pouco mais descansadas e a salvo. Então, algumas começam a cantar e a dançar, vês que sorriem. Nós pomos música dos seus países e culturas a tocar através de uma coluna enorme. Antes fazíamo-lo com pequenas colunas bluetooth.

É uma loucura como dançam, como cantam. Como se dão conta de que estão vivos. Isso é uma injecção de alegria tremendo e, também, uma lição de vida tremenda. Relativizas o que é importante, relativizas as coisas que te preocupavam, das que te queixaste… Acho que vê-lo te torna muito mais consciente da realidade, por muito mal que te faça sentir. Faz-te conhecer o verdadeiro valor das coisas. Faz-te ser mais feliz em certo sentido, porque as coisas que te fazem feliz nestas situações são reais. Não são materiais, não são banais.

Por isso é que o resgate do Aquarius é importante. É um gesto humanitário que tem grande valor, tendo em conta que o nosso [Espanha] foi o primeiro país que, voluntariamente, se ofereceu a fazer algo assim perante este cenário. Mas, também há que ter em conta que, pelo menos desde onde nós estamos, desde o mar, as coisas se vivem de maneira diferente. É um tema muito complicado em que entram questões de direito internacional, de direito marítimo, de relações institucionais e diplomáticas… No entanto, para além disso, acho que o importante é recordar que há uma série de leis internacionais, de acordos marítimos e de direitos humanos que há que respeitar. Que há que reclamar para que se respeitem.


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