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Deixa os cabelos do Neymar em paz, rapaz

Estar na estica faz parte do visual do boleiro desde sempre, então deixa o garoto brincar e para de ser chato, colega.
22.6.18
Foto: Pedro Martins / MoWA Press

Cuidar da aparência, meter um estilo chavoso e ser jogador de futebol não é algo relativamente novo. Lá nas décadas de 70 e 80, o Zenon já exibia aquele belo bigode, que cultiva até hoje enquanto tira um lazer em Campinas, e o Biro-Biro já andava bem na estica. De lá pra cá, vários nomes servem de exemplo. Quem não se lembra daquele corte do Cascão do Ronaldo em 2002, das madeixas do Valderrama, o moicaninho do David Beckham, que ganhou muitos corações em 2002, da estileira bem foda do Taribo West ou do Djibril Cissé de cabelo e barba loira em 2004? Pois é, essa não é uma fita nova, e bem, a maioria dos jogadores citados rendeu bastante em suas carreiras, o que leva à questão: por que encher o saco do menino Ney?

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Rola no país uma sensação que me incomoda. O futebol mudou e talvez o Brasil tenha perdido aquele posto de lugar no mundo de onde saem os melhores jogadores deste esporte. Aí que alguém teve a genial ideia de dizer que isso é culpa de quem se preocupa mais com o cabelo, a tatuagem ou com a cor da chuteira. De onde veio isso? Juro, não sei, mas vamos lá. O time do São Paulo no fim dos anos 80 era uma máquina, quem viu aquilo diz que foi uma das melhores gerações do clube paulista: Muller, Silas, Pita e Careca, só pra citar alguns. Todos com suas madeixas perfeitamente cuidadas, no maior estilo "Não Se Reprima" e, dentro de campo, só espetáculo.

Indo um pouco mais pra frente, Valderrama se destacou em uma das melhores gerações do futebol colombiano não apenas pelo seu cabelo, mas por causa do seu futebol: era um meia conhecido por sua exímia habilidade com a pelota nos pés. Quem não se lembra, ou não ouviu falar, do Caniggia e seu cabelo loiro e liso, que parecia ter saído de um comercial de shampoo? Aproximando a história do leitor jovem, em 98 toda a seleção da Romênia descoloriu os fios, e por mais que por lá o pessoal ache que a culpa daquela derrota pra Croácia foi do visual, isso é uma mentira. Os próprios jogadores chegaram na Copa com uma razoável soberba por terem ido bem em 94, guiados quase sempre pela genialidade do capitão Gheorghe Hagi e ganhar os dois primeiros jogos da fase de grupo foi o estopim pro pessoal achar que era a nova Laranja Mecânica.

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O primeiro cabelo polêmico da Copa. Foto: Pedro Martins / MoWA Press

E aí você pode sentar e ficar apontando dedos para meu texto para dizer que estou dando exemplos distantes e que até agora ninguém levou nenhum título da Copa, mas use um pouquinho a cabeça e lembre-se de um desacreditado Ronaldo que jogou a semi e a final da Copa de 2002 com o cabelo do Cascão. Resultado: o penta veio em uma seleção com Vampeta, Edilson e Kleberson. Ele foi o artilheiro do campeonato, igualou a marca do Pelé em número de gols na competição internacional e de brinde foi eleito o melhor jogador do mundo daquele mesmo ano. Em 98, no melhor estilo máquina 0, a seleção se fodeu bonito pra França, o Ronaldão se machucou no jogo da final e quase arrebentou sua carreira.

Hoje, a Copa não tem apenas o Neymar metendo aquela estileira. Mané, Bruno Alves, Elneny, Herrera, Honda, Fellaini, Batshuayi e vários outros manos estão preocupados com sua aparência e a forma que seus cabelos aparecerão para o mundo no maior evento futebolístico do planeta. Isso sem a gente falar do Cristiano Ronaldo, que sempre parece estar posando pra uma foto antes de fazer qualquer coisa e tá aí o cara levando a seleção portuguesa quase que nas costas e ganhando a bola de ouro todo santo ano. E bom, tem o Messi também, mas do jeito que a Argentina tá indo nesse mundial, seria a mesma coisa que citar o David Luiz e aí não tem texto que se sustente.

O segundo cabelo. Foto: André Mourão / MoWA Press

Um país que entrou pra história ao ser a primeira seleção pentacampeã da Copa e que teve seu artilheiro usando o cabelo do Cascão, o Ronaldinho Gaúcho sempre na estica, o Zenon com seu bigode sempre brilhando, um time com dois dos maiores atacantes da história do país (Careca e Muller) chamado de Menudos do Morumbi, um jogador assumidamente metrossexual, o Marcelinho Paraíba que levou seu cabelo pra fazer sucesso na Alemanha — que sabe-se lá porquê vem achando que tem moral pra nos zoar por causa disso — não pode cair na ideia idiota que a culpa do Neymar não estar muito bem é do seu cabelo.

Neymar, te apoiamos, use o corte que quiser, leve sim seus cabeleireiros de confiança para a Rússia. E outra, não precisa cair no bullying e se render ao sistema. Lembre-se sempre que você é brasileiro e ser estiloso é a nossa marca registrada. Mas ó: tenho que falar, por mais que eu não ligue pro seu cabelo e que você tenha feito o segundo gol contra a Costa Rica e desabado no choro (por causa desse pessoal que ficou falando do seu cabelo, inclusive): passa a bola, fominha, porque nisso aí não dá pra te defender.

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