reportagem

É extremamente perigoso ser jornalista nas Filipinas de Rodrigo Duterte

Ainda assim, há pessoas corajosas que trabalham arduamente para manter uma imprensa independente no país.

Por Gianna Toboni
15 Novembro 2018, 4:16pm

Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte. Foto via Ted Aljibe/Getty Images.

Este artigo foi originalmente publicado na edição de Junho da Revista VICE nos EUA.

Quando Rodrigo Duterte assumiu a presidência das Filipinas, a 30 de Junho de 2016, colocou imediatamente em marcha a sua maior promessa de campanha: uma guerra às drogas. Desde então, homens mascarados, que muitos acreditam serem agentes da polícia, já terão matado entre sete a nove mil pessoas. Muitas das vítimas são pequenos traficantes ou consumidores e há também várias famílias que insistem que os seus entes queridos não tinham nenhuma ligação com drogas.

Por outro lado, antes de ser empossado como presidente eleito, Duterte deixou uma mensagem sombria numa conferência de imprensa: “Só porque és jornalista, não te livra de seres morto se fores um filho da puta”. Assim, sem meias medidas, disse ainda: “A liberdade de expressão não te vai salvar, querido”. Discussões sobre a opressão a jornalistas centram-se, geralmente, na Rússia, China, Turquia, Síria e México. O que muita gente não sabe é que, fora de zonas de guerra, o lugar mais mortal para ser jornalista é as Filipinas.


Vê o primeiro episódio de "Terror"


Apesar de ser a democracia mais antiga do Sudeste Asiático e ter uma imprensa livre e independente, o jornalismo nas Filipinas tem também uma história sangrenta. A versão resumida dessa história é que a imprensa livre nasceu da colonização espanhola e chegou à sua era dourada depois da libertação do controlo japonês, no final da Segunda Guerra Mundial. “Historicamente, foi a imprensa revolucionária que obrigou os filipinos a expressarem a sua insatisfação para com os poderes coloniais”, explica Melinda Quintos de Jesus, jornalista filipina veterana e directora executiva do Centro de Liberdade e Responsabilidade dos Media, numa conversa que decorreu no seu escritório, em Manila, em Janeiro último. E acrescenta: “Portanto, acho que o papel histórico está profundamente incorporado no nosso senso próprio enquanto comunidade democrática”.

Em 1972, o presidente Ferdinand Marcos declarou lei marcial, iniciando um período em que todos os meios de comunicação social eram severamente controlados. Cory Aquino, a esposa de um líder da oposição assassinado, derrubou Marcos em 1986 e as protecções constitucionais para jornalistas foram restabelecidas. Desde então, os jornalistas conseguem, geralmente, fazer o seu trabalho - apesar de algumas vezes colocarem as próprias vidas em risco para o conseguirem.

Em 2009, todavia, outra ronda eleitoral resultou no evento mais mortal para jornalistas na história do mundo em Mindanau, uma ilha no sul das Filipinas. Um grupo de repórteres que estava a cobrir a campanha de Esmael Mangudadatu, líder do partido de oposição da então presidente, Gloria Macapagal Arroyo, viajava com a mulher do candidato para a Comissão Eleitoral, onde Mangudadatu faria a inscrição da sua candidatura. Antes do comboio chegar ao destino, um grupo de homens armados sequestrou e matou o grupo de 58 pessoas, que incluía mais de 30 membros dos media. Os corpos foram largados numa vala comum e, apesar de haver provas contra os perpetradores, ninguém até hoje foi condenado pelo crime. Mesmo com esse histórico nacional, as Filipinas nunca viram um presidente como Duterte, que ascendeu ao poder em 2016 e parece estar a surfar a actual onda de movimentos nacionalistas que grassam pelo Mundo.

A abordagem de Duterte para lidar com o público pode parecer familiar: quando tomou posse, só permitiu que a comunicação social estatal cobrisse o evento; repórteres independentes foram obrigados a ficar de fora. Em toda a campanha, usou as redes sociais para divulgar a sua agenda e assediar qualquer um que apoiasse o seu opositor.

“A sua equipa de comunicação é muito inteligente - usam as redes sociais, manipulação da mensagem”, explica de Jesus. Muitos suspeitam que a administração de Duterte contratou centenas de milhares de trolls para promover e assediar por ele. Os jornalistas que desafiam o presidente enfrentam uma torrente de abusos, acrescenta de Jesus: “Podem esperar uma tempestade de respostas horríveis, incluindo ameaças, insultos, ser chamado de 'vendido' e de ser parte da 'imprenstituta'. Mas o pior é quando, basicamente, dizem 'Sabemos onde moras. Sabemos o teu número de telefone. Sabemos a escola que os teus filhos frequentam. Sabemos onde está a tua família'.” De Jesus continua: “Sabes que estás a ser observado, não só por pessoas comuns que te odeiam, mas por pessoas com poder para te investigarem e rastrearem".

Duterte vende-se como um anti-elitista, o candidato do povo que não tem medo de dizer o que pensa em público. Conseguiu apoio através do seu discurso ofensivo. Respondendo a um jornalista que lhe perguntou sobre a saúde, Duterte disse: “Como vai a vagina da tua esposa? Fede, não é? Passa-me um relatório".

Quando a União Europeia lhe disse que deveria acabar com a guerra às drogas, num discurso transmitido pela televisão, ele respondeu: "Li as condenações da União Europeia. E digo 'Que se fodam'". Depois de o presidente Obama demonstrar preocupação com a violência da guerra às drogas, o presidente filipino chamou Obama de “filho de uma prostituta”, numa conferência de imprensa. Quando o Papa Francisco visitou o país católico, Duterte reclamou: “Quero dizer: 'Papa, seu filho da puta, volta para casa. Não nos visites nunca mais'".

Embora esta retórica possa parecer insana para um chefe de estado, a verdade é que está a funcionar. No ano passado, a taxa de aprovação de Duterte era de 86 por cento. Ele conseguiu intimidar grande parte da imprensa e, efectivamente, fazer a sua mensagem chegar ao público.

Durante a minha visita a Manila, participei naquilo que achei que seria uma conferência de imprensa em que o chefe de polícia faria uma declaração sobre os esforços anti-drogas no país. Mas, na verdade, a cena foi mais parecida com um festival de música. Milhares de pessoas com pulseiras fluorescentes tiraram fotos às suas estrelas pop favoritos que se apresentaram em palco.

Minutos depois de chegar, ouvi gritos empolgados seguidos de uma debandada de polícias, que protegiam alguém que achei que seria a Beyoncé filipina. Em vez disso, apresentaram: “Dêem as boas-vindas ao chefe de polícia Ronald 'Bato' dela Rosa!”. E começaram os gritos e os flashes dos telemóveis. Execuções extrajudiciais, como as milhares que aconteceram nos últimos sete meses, estavam provavelmente a acontecer na mesma noite em que milhares de adolescentes aplaudiam dela Rosa, a mente por detrás da guerra às drogas de Duterte.

Tonou-se imediatamente óbvio que aquele homem rechonchudo, de uniforme policial largo, estava ali para se apresentar. Acompanhado por uma melodia parecida com uma música romântica dos anos 90, cantou “Se precisas de progresso, se precisas de alguém com quem simpatizar, estarei aqui, estarei aqui". No final da sua balada, dela Rosa falou com a multidão. “Espero que apoiem a guerra às drogas. O presidente Rodrigo Duterte não tem outra intenção que não seja a de limpar as Filipinas”, exclamou, enquanto a multidão explodia em gritos de “Duterte! Duterte! Duterte!”.

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A senadora filipina Leila de Lima, numa conferência de imprensa no Senado. De Lima manifestou-se contra o suposto uso de esquadrões da morte pelo presidente Rodrigo Duterte, apesar das ameaças contra si. Foto via Ted Aljibe/Getty Images

A senadora filipina, Leila de Lima, tem sido uma das poucas vozes a desafiar publicamente o presidente. Quando Duterte era presidente da Câmara de Dávao, de Lima, então secretária da Justiça, criticou-o publicamente e investigou-o pelo suposto recurso a esquadrões da morte. No mesmo dia que Duterte assumiu a presidência, de Lima foi eleita senadora e, 13 dias depois, ela introduziu uma resolução no Senado para investigar as já desenfreadas execuções extrajudiciais. Como resultado, dois meses depois de assumir o posto, Duterte pediu a sua deposição como presidente da Comissão de Justiça e Direitos Humanos do Senado. À frente da imprensa, ele disse que de Lima se devia enforcar.

Sobre a campanha de sucesso de Duterte, a senadora salienta: "É uma questão de propaganda. São muito bons nisso. Estão a condicionar, moldar e influenciar as mentes das pessoas, fazendo-as aceitar o que é inaceitável".

Durante a nossa entrevista, o telefone dela tocou e, ao ver um número desconhecido, disse: “Tenho recebido muitas mensagens de ódio e também ameaças de morte desde que a Câmara de Representantes divulgou os meus números de telefone e até a minha morada”. Duterte tem atacado de Lima implacavelmente. Recentemente, disse que ela comandava uma operação de drogas e fez uma acusação formal. Durante a nossa entrevista, de Lima disse que sabia que Duterte podia realmente silenciá-la, seja por prisão ou morte. “Bem, eles dizem que me vão destruir no espaço de um ano”, sublinha. E conclui: “Portanto. digo-lhes, se vou cair, vou cair a lutar”.

A 23 de Fevereiro, um mês depois de a entrevistar, de Lima foi presa por acusações de tráfico de drogas e está presa desde então. Com a voz mais forte da dissidência atrás das grades e a campanha para massacrar milhares de pessoas a pleno vapor, nunca houve uma época mais importante para se ser jornalista nas Filipinas.



Aie Balagtas See é uma repórter policial em Manila, que investiga os assassinatos registados todas as noites entre 22h00 e as cinco da madrugada. Estranhamente, o seu escritório fica dentro de uma esquadra. Na parede há uma frase que diz a quem passa que, naquele pequeno mundo, "os homens sabem como morrer". Tudo indica que este é o slogan oficial do Departamento de Polícia de Manila.

Em Janeiro, acompanhei See durante o seu expediente como "abutre". Quando os telefonemas começam a chegar, os repórteres correm para as suas carrinhas e aceleram para a cena de um tiroteio. Os condutores passam sinais vermelhos e ultrapassam camiões enormes, sabendo que, se não chegarem ao local em 30 minutos, a polícia vai remover os corpos e todas as provas, deixando pouco para os jornalistas investigarem.

Quando chegámos a uma cena de crime, a polícia já tinha colocado a fita e o corpo estava a uns 15 metros de distância. O porta-voz da polícia falou com a imprensa, explicando que o morto era um traficante armado, que teria disparado sobre os agentes antes de ser baleado. Os repórteres locais chamam a isto de “narrativa padrão”, sugerindo que a polícia usa uma história já pronta em cada cena de crime. Os jornalistas não puderam aproximar-se do corpo, portanto não podiam corroborar a declaração da polícia, mas havia uma arma junto à mão da vítima.

Depois de alguns minutos, uma fotógrafa sussurrou algo a See sobre as testemunhas da esquina, cujos quintais ficavam de frente para a cena do crime. Essas testemunhas disseram-lhe que, antes de os detectives aparecerem, não havia nenhuma arma perto da mão da vítima. Depois de a polícia rodear o corpo, a arma apareceu. As testemunhas tinham fotos de antes e depois do corpo. Antes sem a arma e depois com ela - suficientemente claras para a Human Rights Watch as publicar num relatório sobre as execuções extrajudiciais em Março último. No fim de contas, See escolheu não publicar o que as testemunhas alegavam; não achou que as imagens fossem suficientemente claras.



"Tenho um enorme respeito pelos jornalistas filipinos. Fazem auto-censura porque estão com medo... Não querem ser as próximas vítimas", diz Peter Bouckaert, director de emergências da Human Rights Watch. E acrescenta: "Quando o presidente diz 'Só porque és jornalista, isso não te protege de seres assassinado', está a falar a sério".

See diz que não teme pela sua vida, mas entende a ameaça e, ainda assim, acredita que o risco vale a pena. “Agora, somos historiadores diários”, salienta. E realça: "Como historiador, és um espelho. Colocas um espelho diante do rosto da sociedade e dizes 'Olhem, é isto que está a acontecer no nosso país, gostam? E, se não gostam, o que é que vão fazer a respeito?'".

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A jornalista Aie Balagtas See, tenta chegar às cenas de crime o mais rápido possível para as poder fotografar. Foto por Michael Lopez

Noutros países, as ameaças contra a imprensa nem sempre são tão descaradas. Nos EUA, o presidente Trump já assediou jornalistas individualmente, em público e particular, chamando a imprensa de “inimiga” e impedindo organizações de notícias consolidadas de cobrirem conferências de imprensa - acções de intimidação mais "leves". Depois de publicar no Twitter que a imprensa de “fake news” - onde incluiu os “fracassados” New York Times, NBC News, ABC News, CBS News e CNN - é a inimiga do povo americano, o senador John McCain disse: "Se queremos preservar a democracia como a conhecemos, temos que ter uma comunicação social livre e muitas vezes adversária e, sem isso, temo que, com o tempo, vamos perder muitas das nossas liberdades individuais. É assim que as ditaduras começam".

Os EUA sempre foram o padrão de ouro do jornalismo mundial e defensores da liberdade de imprensa em países opressores usavam-no para pressionar os seus líderes. Em muitos casos, como resultado, as lideranças mudaram. Sem os EUA como exemplo, a situação para jornalistas locais por todo o Mundo só vai, provavelmente, piorar.

Dois meses depois de ter deixado as Filipinas, homens armados em motos mataram Joaquin Briones, um colunista de um jornal. A task force Presidencial de Segurança dos Media está a investigar e disse já que presume que a morte teve relação com o seu trabalho. Até agora, ninguém foi formalmente acusado. Segundo o Centro de Liberdade e Responsabilidade dos Media, só dois perpetradores de violência contra jornalistas foram condenados na história das Filipinas.

O Comité para a Protecção dos Jornalistas, uma organização global que defende casos de liberdade de imprensa, respondeu à situação: "Condenamos o assassinato descarado de Joaquin Briones e pedimos às autoridades para identificarem e levarem os responsáveis à justiça. O presidente Rodrigo Duterte deve mandar uma mensagem clara de que a sua administração não vai tolerar o assassinato de jornalistas".

“Uma sociedade democrática precisa de uma imprensa livre para funcionar”, disse-me Balagtas See quando nos conhecemos. E acrescentou: “Se não tens um corpo independente - gosto de pensar que os jornalistas são o corpo independente que cobrem o que se passa no governo -, como é que as pessoas vão realmente saber o que está a acontecer por detrás de portas fechadas?”.

Gianna Toboni é jornalista da série televisiva VICE on HBO. Alyse Walsh, Rica Concepcion, Emma Moley e Hendrik Hinzel contribuíram para este artigo.


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