Entretenimento

A história por trás da gangue de traficantes mais brutal de Nova York

Embora bem menor, a SMM continua um tipo de divindade distorcida do folclore criminal americano.
Max Daly
London, GB
MS
Traduzido por Marina Schnoor
Esquerda: Um jogo de futebol no dia de Ação de Graças de 1997 no Bronx acabou em terror e banho de sangue quando um atirador abriu fogo contra cinco jogadores, matando dois no que a polícia chamou de um ataque possivelmente relacionado com gangues. (Foto po Ken Murray/NY Daily News Archive via Getty Images). Direita: cartaz da polícia depois da condenação de "Pistol Pete" Rollock.

Violência armada em Nova York, nos EUA, hoje é relativamente moderada em comparação ao banho de sangue que bateu recordes no começo dos anos 1990. Foi uma era brutal onde a taxa anual de assassinatos da cidade excedeu 2 mil graças em grande parte à proliferação de gangues violentas lutando por território para vender drogas. Entre elas estava a Sex Money Murder (SMM), um das gangues de traficantes mais notórias da cidade, com membros que acabaram fundando os Bloods na costa leste.

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Liderada por “Pistol” Pete Rollock, que se tornou meio que uma divindade do folclore criminal americano, a SMM usou a epidemia do crack, caos e morte para expandir sua marca da cultura gângster do conjunto habitacional Soundview do Bronx para além dos limites estaduais. O cerne da gangue implodiu numa tempestade de balas e traição, mas a SMM continua operando hoje em cidades maiores e menores da costa leste, de fortalezas como Newark, Nova Jersey até a Georgia.

Até agora, relativamente pouco era conhecido sobre os sistemas internos do grupo que se tornou a base para a cena moderna de gangues de rua da costa leste. Mas no livro que sai em breve Sex Money Murder: A Story of Crack, Blood, and Betrayal mostra vislumbres exclusivos das origens da gangue, oferecendo uma perspectiva nova da violência de rua nos EUA moderno – e a batalha para acabar com ela. Falei com o autor do livro, o jornalista investigativo britânico Jonathan Grenn, sobre os homens por trás da SMM e a evolução das gangues na maior cidade dos EUA.

VICE: O que faz a SMM se destacar no mundo das gangues de rua de Nova York?

Jonathan Green: Eles estabeleceram um novo marco de violência. A violência cercando a epidemia de crack dos anos 80 em Nova York deu luz a um surto de homicídios na cidade. Disso surgiram grupos realmente violentos, nascidos e criados nesses bairros extremamente perigosos e pobres. O conjunto habitacional Soundview no Bronx era um dos mais notórios, junto de lugares como Brownsville no Brooklyn. Então os caras da SMM cresceram com tiroteios e assassinatos desde pequenos.

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Pipe, um dos dois ex-tenentes da SMM com quem falei para o livro, tinha só 11 anos quando participou de seu primeiro tiroteio. Ele passou um tempo em missões em favelas no Brasil e em campos da morte na Colômbia, e é incrível que esses garotos de Nova York tenham nascido numa vida que era igualmente perigosa.

…gangues de rua como a SMM eram mais perigosas que a máfia de certa maneira, porque eram muito mais rápidas para apertar o gatilho.

O que também era incomum sobre a SMM era seu líder. “Pistol Pete” Rollock. Geralmente a violência era delegada, mas ele não se importava de se envolver pessoalmente na ação. Então a reputação dele se espalhou em clubes e por meio da música. As pessoas o viam como esse cara impetuoso encabeçando um grupo extremamente violento.

Quando a United Blood Nation foi formada na Costa Leste no meio dos anos 90, a SMM era considerada tão incrível e notória que os fundadores do Bloods queriam esses caras envolvidos porque isso dava à organização deles uma faceta muito mais violenta.

Como a SMM se encaixa com outros grupos criminosos em Nova York, como as gangues old school?

A SMM se modelou no exemplo da máfia italiana, apesar de você não poder comparar os poderes deles. Gangues de rua e suas disputas são muito diferentes de grandes grupos de crime organizado, e os Bloods não chegam nem perto de serem tão poderosos quanto a máfia, apesar de serem mais predominantes. Mas Pistol Pete e outros tinham uma fascinação pelo crime organizado italiano. Eles viam isso como algo muito glamouroso, mas também um dedo no olho das autoridades. Ainda assim, gangues como a SMM eram mais perigosas que a máfia de certa maneira porque eram muito mais rápidas para apertar o gatilho. Desavenças pessoais acabavam em assassinato. Se a máfia quer se livrar de alguém, geralmente é por causa de dinheiro ou negócios. Com a SMM podia ser por qualquer coisa.

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A SMM foi realmente uma das primeiras gangues a montar linhas sofisticadas de tráfico de drogas para fora de Nova York?

Eles eram uma das únicas gangues do Bronx saindo da cidade para vender drogas. Outros grupos ficavam em seus bairros. Pipe e Pistol Pete iam para lugares como Kingston, Nova York, para montar esquemas lá. Quando foram presos, eles voltaram para o Bronx e começaram a mandar os membros mais jovens. Ele ficaram fora do radar procurando novos lugares para abrir franquias. Quanto mais longe de Nova York eles iam, mais as drogas valiam e menos violência entre gangues encontravam. Esses grupos podiam fazer muito dinheiro com o mínimo de problemas – eles foram descendo a costa leste para Virginia e Carolina do Norte, entre outros lugares. As pessoas ouviam falar da SMM por meio música e adotavam o nome como uma franquia.

O que é interessante é que quando eles começaram a ir para lugares como Buffalo em Nova York ou Springfield em Massachusetts, eles não só exportavam drogas, mas também a cultura de gangue dos Bloods. Em 2013, Newburgh, uma cidadezinha do interior de Nova York, foi um dos trechos mais sangrentos dos EUA por um tempo porque os Bloods tinham chegado lá para vender crack e a cultura de gangues pegou. Foi assim que pequenas cidades de todos os EUA começaram a ter problemas com gangues.

Para o livro, você passou cinco anos conversando com dois dos ex-tenentes principais da SMM, Pipe e Suge. Eram dois homens extremamente violentos que eram temidos no Bronx nos anos 90. Como foi isso?

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Muitas vezes a gente se encontrava e eu não perguntava nada, só ficava lá com eles, ouvindo música e conversando sobre coisas que não tinham relação com o livro. Pipe era muito fechado. Ele é um grande OG, não o tipo de cara acostumado a confiar em qualquer um. Ele me lembra um velho chefão da máfia. Suge era muito volúvel, ele falava a milhões de quilômetros por minuto, e era extremamente volátil. Ele vai te fazer rir, mas se alguma coisa passar pela mente dele, as coisas podem virar rápido. Se você encontra ele num bar, tenho certeza que você vai ficar um pouco nervoso. Eles eram do alto escalão de uma grande gangue e agiam de acordo.

Capa do livro cortesia da W.W. Norton.

Você mencionou música mais de uma vez. Como a SMM estava ou está envolvida na cena musical de Nova York?

No começo dos anos 90, o hip hop da costa leste ainda estava [relativamente] na infância, enquanto gangues famosas como a SMM estavam ascendendo, e os dois mundos se misturavam e alimentavam um ao outro. Os rappers Lord Tariq e Peter Gunz, que cresceram no Bronx, costumavam explorar a gangue para criar sua música, e Pistol Pete é mencionado em uma das músicas do Nas. Se você era um cara jovem na cena naquela época, você frequentava a Mecca, a maior festa de hip hop de Nova York, onde todo mundo, gângsteres, músicos como Sean Combs e modelos se encontravam.

Qual a relação entre a SMM e a comunidade local em Soudview? Parece algo muito oito ou oitenta.

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Era uma relação complicada. Em primeiro lugar, a maioria das pessoas do bairro tinham medo deles, então não queriam falar mal desses caras, já que poderia haver retaliação. Como eles forneciam todas as drogas do bairro, e muita gente em Soundview usava drogas na época, eles eram dependentes da gangue. A SMM era enorme, eles tinham muitos membros, especialmente quando Pipe estava no comando, então, de certa maneira, eles eram a comunidade. Quando os tiroteios começaram e crianças acabaram atingidas no fogo cruzado, as pessoas decidiram tomar uma posição.

O grande momento de guinada foi os assassinatos de dois membros da SMM num jogo de futebol de Ação de Graças no Bronx em 1997, a mando de Pistol Pete. Todo mundo estava assistindo ao jogo com os filhos e balas começaram a voar. Foi a gota d'água. As pessoas sentiram que a SMM tinha se voltado contra seu próprio bairro. Então aquelas conspirações de silêncio para não contar nada para a polícia acabaram desmoronando.

Em 2017, Nova York teve o menor número de homicídios em décadas. Como a polícia conseguiu lidar com gangues como a SMM?

O NYPD inundou essas áreas. No Bronx, o investigador federal John O'Malley, Pete Forcelli do NYPD e a promotora federal Liz Glazer tiraram tanta gente dessas gangues violentas das ruas e mandaram tantos chefes para longe – que isso obviamente ajudou a trazer alguma paz. Isso foi ajudado por tendências em usos de drogas: as pessoas não fumavam tanto crack quando nos anos 90. A SMM foi formada em 1991 e a polícia levou dez anos para tirar a maioria dos líderes das ruas. Não tem como algo assim acontecer agora porque o NYPD tem o controle da cidade. Agora, a maioria dos grupos criminosos são pegos em um ou dois anos.

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As gangues mudaram ou se adaptaram?

A principal coisa entre as gangues agora é que elas estão entregando uma à outra. Na SMM nos anos 90, apesar de todo mundo estar no jogo por interesses próprios e dinheiro, havia pelo menos algum senso de código de lealdade entre os grupos. Levou um tempo para Pistol Pete ordenar os assassinatos de Ação de Graça, acabar entregando seus próprios caras e outras pessoas começarem a falar. Mas agora ouço falar sobre grupos do Bloods entregando uns aos outros o tempo todo, e mesmo matando pessoas dentro de sua própria gangue. Não há lealdade. Você ouve falar sobre o código de omerta e sobre não dedurar ninguém – mas é um mito. O fato é que eles estão se dedurando o tempo todo. Quando estão encarando uma sentença de 40 anos sem chance de condicional, esses caras abrem o bico.

Há uma lenda gângster moderna em Nova York como Pistol Pete?

Acho que não, porque agora as gangues de tráfico têm uma vida tão curta que não há tempo para construir uma reputação antes de você acabar algemado. Além disso, achei interessante ver como as pessoas ainda celebram a máfia, e ainda assim grupos como a SMM têm pouco romantismo para o mundo exterior – eles são vistos apenas como uma ameaça para a sociedade. Talvez do mesmo jeito que O Poderoso Chefão ainda é grande, mas New Jack City nunca cruzou fronteiras culturais assim. Ocasionalmente você ouve sobre caras no Bronx que conseguiram durar alguns anos – eles andam com rappers menores e são mencionados em uma música. Mas agora a polícia observa as redes sociais e raps também, quem está falando sobre o quê, se eles estão procurando publicidade; e eles vão atrás de você. Essa foi a ruína de Pistol Pete. Ele adorava os holofotes, ele era um cara muito carismático, você entende por que esses caras o seguiam. No final, ele também acabou assassinado, mas muito conhecido.

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Você já cobriu violência antes. O que te chocou escrevendo esse livro?

O nível de violência e a falta de respeito com a vida humana. Pensando agora, o quão perto esse mundo era de onde eu morava em Nova York na época: a apenas 1,5 quilômetro de onde as pessoas estavam sentadas no Starbucks, aquela violência insana de gangues estava rolando, borbulhando sob a superfície todo dia. Tudo acontecia no fundo, e eu nunca soube porque não estava envolvido.

Qual o legado da SMM?

Bom, é um legado terrível. Só violência. Como a SMM ficou nas ruas por tanto tempo, Pistol Pete tinha essa reputação de Robin Hood entre os garotos desses conjuntos habitacionais, que não conheciam realmente a realidade daquele mundo. Se você fala com jovens Bloods nas ruas hoje, eles reverenciam a SMM, mas não têm ideia da traição e como eles se voltaram uns contra os outros.

Pipe me disse que as pessoas entram para essas gangues porque querem irmandade, mas que eles não entendem que esses irmãos te jurando lealdade são os mesmos que vão acabar te assassinando ou te entregando para a polícia.

No final do livro, você fala sobre o elemento intergeracional de tudo isso; como o filho de Suge estava sendo preso enquanto o filho de O'Malley, o principal detetive do caso, estava se tornando detetive. Esse é um padrão que você viu muito?

Foi o que guiou o livro: esse ciclo perpétuo. A menos que a sociedade encontre um jeito de quebrá-lo, isso vai continuar acontecendo. Se o pai está numa gangue, é muito provável que o filho vá entrar direto para o negócio da família. Com Pipe, seu avô dele era envolvido, seu pai era envolvido e depois ele se envolveu. Para dar crédito a ele, Pipe tentou quebrar o ciclo. Ele deu duro para mudar de vida e se agarrou a um trabalho estável, porque ele não queria que seus filhos se envolvessem com algo assim. E isso é extremamente difícil para um ex-detento com uma ficha como a dele, então quero dizer que ele tem todo meu respeito aqui.

A entrevista foi ligeiramente editada e condensada para maior clareza. Saiba mais sobre o livro de Green, que sai mês que vem pela W.W. Norton, aqui.

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