Nos bastidores do novo documentário sobre o Fyre Festival

"O que o fundador do evento, Billy, mais queria - na minha opinião - era estar no centro das atenções. Queria ser 'O Gajo'". "Fyre", da VICE Studios, estreia a 18 de Janeiro na Netflix.

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17 Janeiro 2019, 7:55pm

À esquerda: a comida servida no Fyre Festival; À direita: o fundador, Billy McFarland, a tentar acalmar os participantes. Screenshots via Netflix 

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

No papel - ou melhor, no ecrã do telemóvel - era suposto ser um "festival de música imersivo no limite do impossível". No novo documentário da Netflix, Fyre, realizado por Chris Smith e produzido pela VICE Studios, em parceria com a Jerry Media e a Matte Projects - sobre o autêntico "touro numa loja de porcelana" em que o Festival Fyre acabou por se tornar - vemos filmagens do fundador do festival, o empresário de tecnologia Billy McFarland, a dizer a um grupo de super-modelos que elas "estão a vender um sonho impossível ao típico loser". O que acabou por realmente acontecer foi algo intermédio.

Para aqueles de nós não afectados por isto, o Fyre Festival parecia ter sido sonhado como uma pausa num streaming interminável de más noticias. Um monte de putos ricos a pagar 12 mil dólares por uma "experiência" cujo único marketing real foi a Kendall Jenner e o seu #squad a publicarem uma fotografia de um quadrado cor-de-laranja no Instagram, a chegarem ao local e a depararem-se com colchões encharcados pela chuva, tendas, comida de merda e, crucial... literalmente nenhum festival. Se odeias gente rica, vais gostar desta história - até perceberes o impacto que a ganância e ilusão de McFarland teve nos locais.



O Fyre Festival foi o primeiro projecto deste tipo que soube tirar o máximo partido das redes sociais: em menos de dois dias, tinham conseguido vender todos os bilhetes, apesar de ser um festival novo e de não dar praticamente nenhuma informação logística. Para parafrasear a Bíblia: O Instagram dá e o Twitter tira. Ou, como disse um dos entrevistados: “Modelos poderosas criaram este festival e, depois, uma fotografia de pão com queijo derrubou-o”. Mas, como quase tudo na vida, este grande fiasco envolve mais do que o que parece à primeira vista.

Falei ao telefone com Chris Smith, o realizador do documentário – co-produzido pela VICE Studios -, para que me explicasse melhor o que aconteceu.

VICE: Porque é que decidiste fazer este documentário?

Chris Smith: Bem, tal como suponho que tenha acontecido a muita gente que assistiu à implosão no Twitter e às manchetes, senti curiosidade em saber se havia algo mais em toda esta história.

O que é que aconteceu depois?

Naquela altura [Setembro, Outubro de 2017] estava a terminar outro filme. Acabámos por entrevistar uma jornalista da VICE US que tinha estado a cobrir a história do festival exaustivamente. A partir daí, começámos a ter uma noção clara da situação e a saber quem estava envolvido. Ela facilitou-nos os contactos que tinha estabelecido e a entrevista importante que fizemos a seguir foi ao empreiteiro da coisa, Marc Weinstein. Foi aí que nos demos conta de que isto dava um filme: gravámos uma entrevista de três horas e meia com ele, que nos deu para perceber bastante bem o que tinha acontecido. Na informação que já tinha saído, a verdade não era tão evidente e parecia-nos que era possível explicá-la de forma muito melhor.

Imagino que tenhas acompanhado tudo o que se passava no Twitter com o Fyre; não sei se te pareceu engraçado, mas muitos de nós rimo-nos muito. Não tens pena deles – pelo menos eu não tive – até te aperceberes do que aconteceu aos trabalhadores e habitantes da ilha.

Eu sinto-me mal pelos bahamianos. A ideia disto era dar um aspecto humano ao festival, fazer as pessoas identificarem-se com o projecto para entenderem melhor como tudo aconteceu. Saber quem estava envolvido, porque não era só um grupo de gente que queria festa, também havia profissionais que tentavam fazer o seu trabalho o melhor que podiam e se deparavam constantemente com obstáculos. Já que falaste dos bahamianos, MaryAnn [proprietária de um restaurante da zona que acabou por gastar 50 mil dólares do próprio bolso para ajudar o Fyre], disse uma coisa muito significativa: “Adorava ver como era se tivessem sido os bahamianos a irem a outro país, fazerem isto e depois tentarem pirar-se”. Teria havido uma onda de indignação. Mas esta gente chegou ao seu país, comportou-se como se viu e pirou-se. Não houve consequências. Ela sentiu que nem o governo os protegia.

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Um dos posts do Instagram de promoção ao festival. Screenshot: Netflix

Achas que lhes vão dar algum tipo de indemnização, ou que este documentário vai ser positivo para eles?

Olha, foi precisamente sobre isso que falámos com MaryAnn. Estivemos meses a tentar abrir uma conta GoFundMe, porque toda a gente que via o filme, a primeira coisa que perguntava era “Como ajudamos a MaryAnn?”. A sua história é a mais destacável, pelo sacrifício que fez e as consequências que isso teve para ela e para o seu negócio.

Parece vergonhoso que tenha havido gente a quem deram indemnizações milionárias, como o blogger que recebeu 2,5 milhões de dólares e Mary Ann não tenha recebido nem um cêntimo.

Pensa que essa indemnização de 2,5 milhões é simbólica. É difícil que chegue a ver toda esse dinheiro. É como os 24 milhões que Billy McFarland tem que pagar, supostamente. A pessoa que tem que pagar essa soma está na prisão (durante seis anos). O que mais choca é que sejam capazes de voltar e continuar a viver o seu estilo de vida, sabendo que estas pessoas se arruinaram para os ajudar.

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Ja Rule e Billy McFarland

Queres falar um pouco sobre o que achas de McFarland depois de teres gravado o documentário? Em alguma altura tentaste contactar com ele?

Parece-me uma pessoa complicada e é precisamente essa característica que o tornava um personagem interessante e enigmático no vídeo. Sim, tentámos contactá-lo. No principio íamos gravar com ele em duas ocasiões e nas duas ele recusou à última hora. Depois, quis que lhe pagássemos. Não podíamos ceder a isso. Pareceu-nos injusto, tendo em conta toda a gente que sofreu por causa deste festival.

Parece-me inacreditável que tenha tido a lata de vos pedir dinheiro.

Depois de veres o documentário, ainda te custa a acreditar?

Bem visto. Que mensagem achas que o documentário passa quanto à condição humana e à vontade das pessoas de… seguirem em frente com as suas vidas?

Acho que há uma certa tendência para querer acreditar que as coisas são certas. É uma extensão das redes sociais, onde mostramos sempre o nosso melhor lado. Acho que o vídeo trata de vários níveis dessa contraposição da percepção da realidade. Promoveram um festival demasiado bom para ser verdade e, afinal, não foram capazes de o levar a cabo. Depois, há a percepção de Billy: um tipo que conduz um Maserati, vive numa penthouse e viaja de jacto privado. Ele estava convencido de que, se mostras uma imagem de sucesso, as pessoas acreditam que tens sucesso. Disse que a sua empresa fazia milhões de dólares, quando na verdade estava avaliada em 660 mil dólares. E essa dualidade de percepção e realidade, não só se aplicava ao festival que vendia, acabou também a aplicar-se à sua vida.

Há um momento no documentário em que Andy King, um dos produtores do evento, diz que 24 horas antes do festival a única coisa em que pensava era no Woodstock, em como ninguém fala de overdoses, da falta de comida ou das estradas merdosas que se demorava dias a lá chegar. E se o Woodstock sobreviveu a isso desde um ponto de vista publicitário, talvez também o Fyre Festival sobrevivesse. Obviamente, no Woodstock houve concertos, o que me parece uma diferença importante, mas também há que ter em conta que era outra época, muito diferente. É interessante imaginar se o Woodstock teria sobrevivido na perspectiva de publicidade se tivesse tido lugar na era das redes sociais e da informação imediata.

As pessoas saem do documentário com opiniões muito formadas do Mundo e dos acontecimentos. Quanto ao Woodstock, é complicado, mas o facto de não terem havido concertos influenciou muito. As pessoas teriam aguentado muito mais se, pelo menos, tivessem visto bandas.

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As "acomodações" no Fyre Festival. Screenshot: Netflix

Achas que vivemos num mundo em que ninguém se importa com o que acontece, desde que fique bem no Instagram? Pessoalmente, acho que muitas das pessoas que para lá foram foi, simplesmente, porque era bom para o Instagram e parecia fixe e o resto, o que lá se passava verdadeiramente, pouco importava.

Acho que se substituiu a recordação pelo que se representa nas redes sociais ou nas fotografias. Marc Weinstein – esta história não aparece no filme – contou-nos que levava uma vida a trabalhar em festivais e que tinha visto pessoas que estavam, claramente, a odiá-los. Mas, quando ia aos perfis de Instagram dessas pessoas, encontrava sempre fotografias em que parecia que estavam a adorar. Essas mesmas pessoas, quando um ano depois olhem para essa fotografia, vão achar que adoraram.

Ele mesmo fez alguma coisa parecida no Fyre Festival, não foi? Publicou uma fotografia numa Praia idílica no Instagram, quando na realidade estava em pânico por ter que encontrar alojamento para mil pessoas.

Sim! A entrevista dele foi uma das minhas preferidas porque foi capaz de, depois de ter vivido aquilo, colocar tudo em perspectiva, reflectir e ver que todos tinham culpa. Recomendo a leitura do seu artigo no Medium. E todos o fazemos, é essa a questão. Talvez não a este extremo, mas parece-me muito verdadeiro como reflexo do que somos actualmente. Ainda assim, devo dizer que parece que a coisa se está a inverter: esta passagem de ano vi uma catrefada de publicações de gente a dizer coisas tipo: “Fui dormir antes da meia-noite.” Pareceu-me que estamos a usar as redes sociais como reflexo da nossa vida. Ou se calhar é só uma moda.

O que achas que isto de saírem tantas histórias sobre esquemas deste tipo diz sobre a nossa sociedade?

Bem, é mais interessante do que contar a história de alguém que se levanta todas as manhãs e vai para o escritório. Billy era um tipo enigmático. O único mérito que lhes dou é que tenham tentado oferecer uma experiência diferente de tudo. O Fyre é a prova de que as pessoas querem coisas diferentes e acho que, nesse sentido, eles criaram algo interessante. Foi um delito, mas pareceu-me muito mais complexo do que parecia nas manchetes, tipo “Um grupo de putos ricos foi para uma ilha e ficaram lá presos”.

Então, não achas que foi um esquema? Achas que McFarland queria mesmo que o Fyre Festival fosse uma realidade?

Sim, totalmente. Pensa: onde é que já se viu um esquema consistente em que a coisa passa por mandar gente para uma ilha onde não há nada? Nunca funcionaria. O que Billy queria, acima de tudo – na minha opinião – era estar no centro das atenções. Queria ser "O Gajo", por isso tentou montar um festival com modelos e influencers, para poder continuar nesse estilo de vida e ser o centro desse mundo.

Achas que vai voltar à vida pública e a um estilo de vida parecido?

Não tenho dúvidas de que Billy podia ter muito sucesso. É um homem muito focado, decidido e inteligente e, seguramente, aprendeu muito com tudo isto.

Obrigada, Chris.

"FYRE: O Grande Evento Que nunca Aconteceu", estreia na Netflix a 18 de Janeiro.


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