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Cultura

A cientista de dados que está a rastrear os supremacistas brancos dos EUA

Emily Gorcenski registas informações e rostos de todos os que participam em eventos ligados ao nacionalismo branco.

Por Matthew Gault
19 Dezembro 2018, 2:58pm

Imagem: Getty.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard.

Quando os supremacistas brancos "invadiram" Charlottesville, nos EUA, no Verão do ano passado, Emily Gorcenski decidiu protestar. A cidade era a sua casa e não queria ver fascistas a marchar pelas ruas. No contra-protesto, porém, Gorcenski levou com spray pimenta na cara. O autor do ataque era um dos palestrantes do comício, Christopher Cantwell, que mais tarde se declarou culpado de usar a arma e passou três meses e meio na cadeia.

Gorcenski, uma cientista de dados, decidiu fazer mais. Percebeu que o seu treino poderia ajudá-la a formar uma ponte entre a polícia e a comunidade activista. “Em termos gerais, activistas não confiam na polícia”, diz-me ela por Skype. E acrescenta: “Assumi deliberadamente a abordagem de me posicionar como a pessoa que pode falar com a polícia, porque precisamos desse papel, dessa ponte”.


Vê: "Charlottesville: Raça e Terror"


Com a ajuda de outros activistas, Gorcenski montou a First Vigil, uma lista de casos nos tribunais ligados a nacionalistas brancos. A comunidade segue o rastro às acusações, aos réus, revela links para os documentos do tribunal e fornece data e local das audiências. O seu trabalho facilita o acompanhamento dos casos por parte de jornalistas e investigadores. Muitas vezes, diz ela, o que acontece no tribunal é tão importante como o que está escrito nos registos desses casos.

“Um dos meus interesses é rastrear supremacistas brancos enquanto eles passam pelo sistema judicial, porque há muita informação útil nesses procedimentos que não encontrarias de outra forma”, justifica Gorcenski. Documentos do tribunal são preciosas fontes de informação. Apesar de parecer que o movimento nacionalista branco norte-americano é uma rede grande e complexa, o grupo de pessoas envolvidas em violência de rua e marchas é, na verdade, pequeno e íntimo. Segundo Gorcenski, ler os documentos do tribunal e ouvir os testemunhos ajuda a preencher as lacunas e montar uma imagem mais completa do movimento.

“Estas organizações são muito fluídas”, salienta Gorcenski. E acrescenta: “Para rastrear de maneira eficaz o que eles fazem, porque o fazem, onde se encontram, com quem se encontram e quais são as suas motivações, tens que entender as dinâmicas internas de como trabalham. Portanto, estamos a tentar criar uma fonte que não é só uma base de dados, mas uma maneira de contextualizar tudo isto”.


Vê o primeiro episódio de "Odiarás o Teu Vizinho"


Gorcenski aponta um recente artigo do New York Times sobre um atentado com arma de fogo depois de um comício de Richard Spencer, líder supremacista branco norte-americano, em Gainesville, Flórida. “Cem por cento das reportagens sobre esse incidente, até àquele ponto, falavam sobre as três pessoas que foram presas, mas havia quatro pessoas no jipe”, recorda Gorcenski. E questiona: “Então, quem era a quarta pessoa?”.

Gorcenski seguiu o rastro ao relatório original da detenção e descobriu o nome da quarta pessoa. Também descobriu que este mesmo indivíduo deu uma morada falsa que ligava a uma quinta pessoa, um conhecido nazi da área de Houston. O quinto elemento não estava no jipe, mas estava em Gainesville no momento do atentado. Gorcenski tinha descoberto outro elo da rede. “Estamos a descobrir essas ligações enquanto fazemos este trabalho”, explica. E realça: “A história não é só o atentado. Há muito mais para além disso”.

Outubro de 2018 marcou um pico da violência de nacionalismo branco nos EUA: Proud Boys atacaram pessoas em Nova Iorque; um homem matou duas pessoas num mercado em Kentucky enquanto dizia a uma testemunha que “brancos não disparam sobre brancos”; um homem mandou bombas pelo correio para democratas, jornalistas e George Soros; um atirador matou 11 pessoas numa sinagoga em Pittsburgh.

Grupos como o Southern Poverty Law Center (SPLC) e pessoas como a professora da Elon University Megan Squire também construíram e mantêm bases de dados para rastrear grupos de ódio, mas o SPLC foca-se na imagem mais ampla e a base de dados de Squire não está disponível para o público. A First Vigil é mais acessível e desenterra detalhes que o SPLC deixa de fora.

Os casos de tribunal são a primeira peça do que Gorcenski imagina como uma base de dados maior de produção colectiva. “Muitos projectos de ciência de dados sobrepõem-se a construir infra-estrutura para aplicações em nuvem”, sublinha. E destaca: “O que aprendemos é como construir uma infra-estrutura robusta para lidar com uma grande quantidade de dados”. O objectivo de longo prazo de Gorcenski é, pois, transformar a First Vigil num sítio em que as pessoas podem ir a uma manifestação racista, tirar fotos dos participantes e postá-las. Ela quer arquivar e documentar online nacionalistas brancos conhecidos, para sempre.

“Os nazis odiaram”, diz Gorcenski, “as pessoas vão às audiências... Tomam notas e mandam-me fotos. E tudo isso vai, eventualmente, fazer parte do sistema, para tornar todo esse conhecimento disponível”. "Doxing" e humilhação pública são, hoje, tácticas populares tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda, mas há perigos decorrentes, independentemente de quem está a ser exposto. Quando revelas a identidade de alguém na Internet num contexto inflamado como este, mesmo quando são pessoas acusadas de crimes horrendos, não tens controlo sobre como o público vai reagir.

Mas, Gorcenski acredita que, como a First Vigil usa documentos de tribunal que são públicos, o jogo é limpo. “A First Vigil é baseada inteiramente em dados de registos públicos, tirados directamente do sistema judicial”, garante. E acrescenta: “Portanto, isso não pode ser usado como ferramenta de 'doxing', já que cobre coisas que já estão em registos públicos. A ferramenta não fornece nomes ou endereços, números de contacto, ligações familiares, informações das testemunhas ou vítimas. A linguagem da First Vigil deixa claro que todas as pessoas são inocentes até que se prove o contrário. Isto não pode ser uma fonte de assédio mais que o PACER [uma ferramenta que permite aos utilizadores aceder aos registos públicos de tribunal electronicamente]”.

A primeira coisa que o utilizador vê quando abre o First Vigil é uma lista de casos pendentes, seguida de uma tabela de conteúdos e um aviso. “A nossa esperança é que essa informação seja usada para salvar vidas”, diz a First Vigil. E adianta: “Isto não é um endosso da polícia, da violência do estado ou da intervenção do estado. É, simplesmente, um repositório da informação mais precisa possível, tirada de registos públicos, jornais e audiências no tribunal".

E finaliza: “Todas as pessoas nesta lista são inocentes até que se prove o contrário num tribunal. Prisões, acusações e inquéritos não são considerados provas de infracção. Todos os réus apresentados têm direito a um processo justo. O público também tem o direito de saber a disposição desses casos”.


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