Entrevista

“Ser jovem é dar problemas aos pais, isso é normal e saudável”

A psicóloga clínica Patrícia António, defende que não se devem diabolizar os jovens nem as substâncias que consomem, mas orientar e acompanhá-los.

Por Elisabete Cruz
22 Fevereiro 2019, 2:18pm

Patrícia António. Foto por Ricardo Graça/Jornal de Leiria

Este artigo foi originalmente publicado no JORNAL DE LEIRIA e a sua partilha resulta de uma parceria com a VICE Portugal.

Licenciada em Psicologia, Patrícia António obteve o grau de mestre na especialização em Psicologia Clínica, no tema Adolescência e Comportamentos de Risco. Aos oito anos trocou Albergaria dos Doze, em Pombal, por Leiria. “Foi a maior das felicidades. Acho o campo muito romântico, mas sou uma mulher da cidade”. comportamentos de risco

Desde 2001 que exerce Psicologia Clínica, em particular, na área dos Comportamentos Aditivos e das Dependências. Fez parte do Núcleo das Doenças do Comportamento Alimentar do Hospital de Santa Maria em Lisboa, entre 2001 a 2004. Desde 2015 que é coordenadora da Área de Missão Redução de Riscos e Minimização de Danos da Unidade de Alcoologia de Lisboa. Adora fotografia e ser mãe é a sua nova paixão. A psicologia está-lhe enraizada desde pequena. “Tinha uma tendência natural para ouvir os outros".

O Jornal de Leiria falou com ela sobre comportamentos aditivos na juventude e sobre como a diabolização de comportamentos de risco tem de ser substituída por orientação e acompanhamento. Lê a entrevista abaixo.


Vê o primeiro episódio de "Hamilton's Pharmacopeia"


JORNAL DE LEIRIA: Os jovens de hoje não largam as tecnologias. O que há de bom e mau?
Patrícia António: O que há de bom é que são formas de contacto, que permitem iniciar relações, conhecer pessoas, ter acesso a uma informação cada vez mais democrática, fazer pesquisas. Às vezes diabolizamos os nossos jovens, mas são pessoas interessadas. Com as redes sociais surgem outras formas de comunicação, os intercâmbios com o Mundo, o podermos conhecer diferentes culturas e até manter ligação à família que está distante. Para os jovens que tenham características de isolamento e timidez, podem arriscar a relação e isso é um factor positivo de desenvolvimento que permite criar segurança.

O risco está no excesso, quando é usado para o afastamento, quando toda a família está ligada a um tablet em pequenas ilhas e já não conversa. No fundo, é usar na medida certa e existir supervisão parental. É importante supervisionar o que se está a ver. O risco espreita quando se faz a exploração sem se estar minimamente acompanhado. As novas tecnologias também estão associadas ao lúdico, ao prazer, à descoberta e cabe ao adulto temperar esse uso, até porque as tecnologias usam mecanismos de ligação apelativos que imprimem um ritmo muito compulsivo e facilitam a dependência.

O relatório do SICAD refere que há mais jovens que admitem comportamentos de risco conduzidos por consumos de álcool. Também um estudo recente da Universidade do Porto referia que cerca de 85% dos jovens portugueses já beberam álcool, 58% já fumaram e 17% já consumiram drogas pelo menos uma vez. Estes problemas estão em crescimento ou agora há mais dados disponíveis?
Há mais dados e há mais preocupação científica e mediática. As substâncias mais consumidas entre os jovens são o álcool e o haxixe (THC). Isto é preocupante, porque são substâncias que precisam de maturidade, quer física, quer psicológica e social, para lidar com elas já que são bastante complexas e neurotóxicas para o organismo. O álcool é, claramente, uma preocupação porque é ainda muito desvalorizado.

Os pais destes jovens dizem: 'Eu também bebi e não me aconteceu nada'. Claro que a adolescência envolve experimentarmos os riscos, os prazeres, saber vivê-los e sair bem deles, mas o padrão de consumo está a mudar, com o chamado binge drinking. O beber compulsivo de quatro ou cinco bebidas num minuto é, claramente, uma experiência muito diferente da dos pais destes jovens. Ninguém bebia seis cervejas num minuto. Beber seis shots num minuto tem um risco de intoxicação imediata.

O álcool parece estar cada vez mais presente na adolescência. Há motivos para alarme?
Em termos legais, é proibido beber até aos 18 anos, uma medida importante para ajudar a moderar o consumo. Até deveria haver medidas mais fortes, porque a saúde não consegue concorrer com o marketing, com a indústria e com o património cultural que o país tem associado às bebidas. Mas, o motivo de preocupação surge, sobretudo, quando a relação com o álcool ou com outras substâncias se torna compulsiva, exclusiva, sem deixar espaço para o prazer de estar com os amigos e para o divertimento. Quando o objectivo é a embriaguez rápida e imediata, não estamos numa relação saudável. O saudável é saborear, tirar prazer.

Os pais devem estar atentos. Se o jovem sai, devem perguntar como foi a noite e se bebeu, o que bebeu. É importante alertar para as bebidas espirituosas ou brancas, que têm o dobro de álcool. Não sendo apologistas do consumo, é importante que os pais criem factores de protecção para que a iniciação seja de forma prazerosa, em rede e pouco arriscada. Se esta primeira experiência é demasiado compulsiva e anestesiante, se o jovem entra em coma alcoólico, é grave. Quer dizer que é um jovem que parece não estar habituado a lidar com as emoções nem a proteger-se. Se a experiência for mediada pelo prazer, pela relação com os outros e com a família, com quem se fala disso e é uma situação que não se repete nos próximos tempos, não há que diabolizar.

Precisamos de correr riscos para crescermos. O sinal de alerta é quando começa a ser uma relação continuada, há aumento da tolerância e o jovem começa a perder o controlo e a capacidade de se proteger. Uma coisa é beber de vez em quando e à terceira cerveja já fico um “bocadinho tocada” e o meu cérebro diz "já chega". Outro problema importante é que o consumo entre as mulheres está a aumentar. Temos uma fragilidade maior, a nossa neurobiologia não é tão compatível com o etanol como no masculino. Para degradar a molécula é preciso muita água e nós temos menos do que os homens, logo corremos muito mais riscos.

Há jovens que colocam tampões embebidos em álcool para ficarem alcoolizadas mais rapidamente. Porquê?
É a procura de uma anestesia rápida e imediata. Não é uma relação de prazer nem de convívio, é um desespero. Há jovens que conseguem perceber o risco e outros estão completamente às cegas. É cair no abismo puro e duro. São novas práticas de consumo, muitas vezes até veiculadas pelas redes sociais.

Tal como o álcool, fumar um charro é socialmente aceite. Deve avançar-se para a despenalização do consumo?
Tenho dificuldade em responder sim ou não. O que nos chega a tratamento são relações já muito complicadas com as substâncias, em que o risco mental é grande. É preciso perceber quem é o jovem que vai iniciar essa relação. É um jovem saudável? Há antecedentes familiares? Sabemos que a doença aditiva também tem um factor genético importante. O haxixe é outra das substâncias principais entre os nossos jovens. Alguns destes jovens são filhos de pais que também já tiveram essa experiência e pode haver um bocadinho essa desvalorização do 'não aconteceu nada comigo', mas, hoje em dia, as substâncias tendem a estar mais adulteradas.

Essa é a grande diferença para o álcool. Conhecendo o grau de alcoolemia, há um controlo e uma segurança naquilo que vou consumir. No haxixe não sabemos. Quando há políticas para a descriminalização é também no sentido de assegurar que a pessoa sabe o que está a consumir. Por isso, quando se fala na legalização este também é um factor a ter em conta. Não é diabolizar, mas se há antecedentes familiares, se tem doença mental, se é um jovem ansioso ou com tendências depressivas corre maior risco, porque a substância vai alterar subjectivamente o estado emocional. Há pessoas que nem gostavam, mas dizem que precisavam de anestesiar a dor mental. Mas, o risco da dependência existe. Qualquer um de nós, saudável, bem na vida, sem nenhum registo depressivo, se começar a beber todos os dias, silenciosamente, fica dependente e isto tem só a ver com a neurobiologia da adição.

Qual a consequência de uma super protecção por parte dos pais?
Uma delas é não haver a possibilidade de errar e experimentar. Um jovem recentemente dizia-me: 'fui um bibelot, protegido numa redoma e agora não sei lidar com as emoções nem com as adversidades, porque alguém fez sempre isso por mim'. Há que dar espaço aos filhos para falhar, porque promove aprendizagem. A super protecção traz inabilidade. É importante que o jovem sinta que tem um lugar seguro e que os pais estão disponíveis para o que for. Agora, a super protecção é a impossibilidade de experimentar, logo, muitas vezes, quando saem de casa o comportamento acontece no registo compulsivo. A primeira experiência com o álcool é o coma, não que ele quisesse isso, mas porque não tem a mínima noção de como é lidar com aquela substância, porque não tem treino, nem observou, nem aprendeu.


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Pai é pai ou é amigo?
Essa é uma questão muito importante: pai é pai, não é amigo. Claro que ser pai é também poder ter uma relação de amizade e de companheirismo com os filhos, mas não é amigo, não é uma relação de paridade. Há limites que devem estar interiorizados, quer para os pais, quer para os filhos, porque isso é que permite arriscar novas relações, numa natural descoberta e desenvolvimento. Às vezes os jovens dizem que a relação com os pais é demasiada intrusiva e outras vezes vivem numa dependência extrema do adulto. Os pais têm que orientar.

Os pais de hoje querem ser cool.
Isso também reflecte a relação deles enquanto filhos. A boa notícia é que os pais de hoje têm uma relação mais afectuosa e amorosa com os filhos. Há níveis de proximidade que não tiveram com os próprios pais. São pais mais competentes do ponto de vista emocional. Mas, por vezes, têm a necessidade de controlar. Há quem diga, se fumar um charro com o meu filho ele vai estar em segurança. Não me parece. O jovem tem de correr esse risco com o grupo de pares para poder testar até onde pode ir. Isso remete para a ansiedade dos pais e o desejo de proteger elevado ao extremo.

Se estiver com o pai então qual é o risco que vai correr? É a experiência do risco que nos faz ousar, criar e avançar com a vida. Alguma coisa se passa com o jovem que não corre riscos e que não dá problemas. Ser jovem é dar problemas aos pais, isso é normal e saudável. Quando se esbatem as fronteiras, as experiências e os limites, o jovem fica à deriva, porque não tem ninguém para desafiar e tudo é facilitado. Isso é muito complicado para a identidade de um jovem e pode criar complicações emocionais e desenvolvimentais e um grande vazio. Sem fronteiras não é possível evoluirmos.

Dados recentes referem que as hospitalizações por anorexia nervosa duplicaram em 15 anos. Qual a razão para os distúrbios alimentares?
Habitualmente é uma das saídas de risco na adolescência, que pode ser a anorexia, a bulimia, a dependência de substâncias, um acidente rodoviário ou comportamentos auto-lesivos. Na adolescência a via principal de comunicação é a acção, o comportamento muitas vezes irreflectido. Passamos de um ambiente protegido pelos pais, com modelos de segurança em relação àquilo que sentimos e pensamos e dá-se a revolução hormonal. Há um cérebro que começa a questionar uma série de coisas, mas ainda pouco capaz para pôr isso por palavras e agimos antes de pensar. Por isso, as patologias do comportamento e do agir têm tendencialmente maior expressão. Só aos 25 anos é que o cérebro está maduro. Por isso os adultos deverem estar por perto.

Os comportamentos auto-lesivos são outro exemplo desse risco. Não conseguindo nomear o seu sofrimento, anestesiando as emoções, a certa altura, alguns jovens, não tolerando a sua dor mental descobrem alívio na dor física. Quando há comportamentos auto-lesivos, quer dizer que há um nível de sofrimento que é de tal maneira atroz que, de repente, não há outra alternativa a não ser virá-lo contra si próprio e magoar-se mais. A anorexia nervosa, a bulimia, o binge drinking e todas as patologias de acção sobre um corpo que está em desenvolvimento, é sempre sério.


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O suicídio é a segunda principal causa de morte entre os 15 e os 29 anos. O que leva um jovem a matar-se?
Um sofrimento atroz! Um sofrimento emocional e psicológico muito grande, em que a única solução passa por acabar com ele, sem a compreensão de que se vai acabar com a vida. Os sobreviventes dos suicídios dizem muitas vezes que não queriam realmente morrer, mas acabar com o sofrimento. É sempre um acto muito agressivo. Se crescemos num abandono afectivo, o que interessa? Viver ou morrer? Ninguém vai ficar preocupado comigo.

Há sinais?
Sim e devem ser sempre valorizados. Até pode ser uma chamada de atenção, mas isso vemos mais à frente. Houve sinal de isolamento, uma desistência repentina, a perda de apetite, um discurso do género 'não vale a pena', 'não presto para nada', é para intervir. É sempre de acreditar quando um jovem diz que quer morrer ou desaparecer e devemos procurar perceber o que se está a passar em vez de dizer 'cala-te lá com isso’.

Muitas vezes, o excesso de velocidade, o despiste, o ir contra a parede, não fazer a curva, é suicidário, mas não é consciente. É uma expressão desse risco emocional. Todos nós procuramos impedir de conduzir alguém que esteja alcoolizado ou tenha consumido substâncias. Mas, conduzir quando se está deprimido, emocionalmente à deriva e desesperançado, é igualmente um risco elevado.

Numa sociedade competitiva, onde se busca a perfeição, há espaço para a felicidade?
Tem de haver. A felicidade faz-se de pequenos momentos, na cooperação com o outro e no diálogo. Perfeição e felicidade tenho dúvidas que funcionem bem. Todos somos imperfeitos e é importante conviver com as nossas imperfeições. Claro que estar triste não é perfeito, viver uma depressão reactiva a um acontecimento é uma experiência difícil, mas é tão válida como todas as outras. Se conseguir viver a tristeza chorando, desabafando com alguém, não vou deprimir. Se achamos que as emoções negativas são imperfeitas, o risco de adoecer mentalmente é enorme. A tristeza é tão válida como o amor.


Elizabete Cruz é jornalista do JORNAL DE LEIRIA.

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