A Impressão 3D Virou Arma para Combater as Destruições do Estado Islâmico
Crédito: Morehshin Allahyari

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A Impressão 3D Virou Arma para Combater as Destruições do Estado Islâmico

Artistas descobriram como frear a destruição de obras organizadas pelo grupo terrorista: por meio de arquivos digitais.

Os homens invadem museu e, armados com marretas e furadeiras, esmigalham o que encontram ao redor. A duros golpes, os artefatos de valor viram rastros de pó e pedra. Os poucos fragmentos restantes das estátuas repousam sobre o chão para, depois da partida dos vândalos, serem resgatadas por saqueadores que as revenderão no mercado ilegal.

A cena descrita pode ser vista de vários ângulos nos vídeos em que membros do Estado Islâmico (EI) registram com as câmeras de seus smartphones a invasão ao Museu Niveneh em Mosul, no Iraque. Em fevereiro de 2015, a organização decidiu destruir o que chamam de "falsos ídolos", e, de quebra, apagaram qualquer vestígio de uma história que pudesse contradizer a narrativa que eles criaram para validar suas atrocidades.

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Crédito: cena de um vídeo do EI cortesia de Morehshin Allahyari

Desde que nos conhecemos, artefatos históricos não se misturam muito bem com guerras. Há o notório incêndio da Biblioteca de Alexandria, a destruição dos Budas de Bamiyan no Afeganistão pelo Talibã e o esforço dos nazistas para queimar o maior número de "obras de arte degeneradas" possível. Tomados pelo impulso violento, multidões e soldados destroem em segundos o que sociedades levam séculos para criar; deixam aos destroços o que museus e colecionadores passam décadas reunindo, preservando e catalogando para o público.

A era digital promete uma solução que pode funcionar como, digamos, uma proteção anti-guerra: as informações das obras podem ser hospedadas em centros de processamento de dados espalhados pelo mundo e ter sua perenidade garantida. Morehshin Allahyari, uma artista, educadora e ativista nascida no Irã, quer trazer um pouco dessa imortalidade para os artefatos destruídos pelo EI.

Hoje Allahyari tenta recriar digitalmente essas esculturas para uma série chamada "Especulação Material", parte do programa de residência artística Pier 9 da empresa americana de software, Autodesk. A primeira parte do projeto se chama "Especulação Material: EI"; nele, graças a uma longa e profunda pesquisa, Allahyari modela e reproduz estátuas destruídas pelo EI em 2015. A artista não está apenas interessada em recriar objetos perdidos. Ela também quer permitir que qualquer um faça o mesmo: dentro de cada réplica semi-translúcida, diz, há um pen drive com toda sua pesquisa. Segundo a ativista, uma versão online será lançada em breve.

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Imagem cortesia de Morehshin Allahyari

O projeto não é só uma provocação metafórica ao EI: a afronta é também de ordem prática. O trabalho de Allahyari se assemelha a outros projetos de conservação, incluindo o Projeto Mosul, liderado por uma pequena equipe de voluntários que está criando modelos 3D dos artefatos destruídos pelo EI com base em fotos obtidas na internet.

"Pensar na impressora 3D como ferramenta poética e prática para a arquivação digital e física é um conceito que me interessou muito nos últimos três anos", disse Allahyari. Quando a iraniana começou a estudar as obras, ela se impressionou com a ausência de registros. Foi aí que sua pesquisa deslanchou. "O foco era encontrar uma forma de reunir todos esses dados e preservá-los, tanto para nossa atual civilização quanto para as gerações futuras."

Para compilar um arquivo das obras destruídas e reunir informações suficientes para recriar essas estátuas, Allahyari recebeu ajuda de uma série de especialistas: Christopher Jones, doutorando em história oriental antiga da Universidade Columbia em Nova Iorque; Pamela Karimi, uma professora assistente de História da Arte na Faculdade de Artes Visuais e Teatro da Universidade Dartmouth de Massachussetts; Wathiq Al-Salihi, especialista nas civilizações antigas de Hatra, no Iraque, que já publicou diversos artigos sobre as estátuas destruídas; e seu amigo pessoal, Negin. T, um doutorando em arqueologia da Universidade de Teerã, no Irã.

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A estátua do Rei Uthal. Crédito: Morehshin Allahyari

A destruição dos artefatos causou uma grande comoção mundial. Adel Shirshab, Ministro do Turismo e Antiguidades do Iraque, acredita que apenas uma ação militar liderada pelos EUA pode dar cabo à destruição. Hugh Eakin, editor sênior do The New York Review of Books, apoia a ideia de uma intervenção militar para proteger sítios arqueológicos e artefatos semelhantes aos destruídos no Iraque e na Síria. Eakin chegou a sugerir que as Nações Unidas estendam sua "Responsibilidade de Proteger" para a herança cultural, a fim de protegê-la de qualquer intervenção militar. Irina Bokova, diretora-geral da Unesco, diz que "esta não é apenas uma tragédia cultural. Este é também um problema de segurança, posto que os terroristas estão usando a destruição de tais artefatos como uma estratégia de guerra."

A abordagem de Allahyari é muito mais sutil e radical. "Usar a destruição como ferramenta de controle é uma tradição antiga; assim, os invasores criam uma nova realidade, tanto para o presente quanto para o futuro", explica. Esse projeto age como uma garantia contra a destruição, uma forma de reescrever a história e preservar essas narrativas de toda violência física e política. O EI, com suas câmeras que transmitem cada confronto (e decapitações), depende da falta de acesso de seus fiéis a sua própria história. A onda de violência que assola a região reafirma a narrativa que o grupo criou para se expandir. Uma resposta não-violenta, então, se torna uma forma inteligente de combate.

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O que faz do projeto "Especulação Material: EI" algo tão empolgante é o fato dele ir contra o impulso primordial por trás dos surtos de destruição do EI: o anseio e a necessidade de controlar parte da história. Como Christopher Jones, um doutorando em história do Antigo Oriente da Universidade Columbia em Nova Iorque, escreveu para a Hyperallergic:

Ao apagar qualquer vestígio do passado pré-islâmico e de interpretações alternativas do Islã, o EI planeja criar um mundo onde o conhecimento acerca de qualquer crença, exceto sua própria visão do que é o Islã, desapareça para sempre. Portanto, o trabalho de recuperar o que foi perdido ganha uma importância ainda maior. Mais do que vital para o futuro do saber, tais esforços servem para nos lembrar da existência de tudo que o EI quer destruir.

Em sua busca por artefatos com grande relevância histórica, Allahyari acabou escolhendo a representação do touro alado com cabeça humana Lamassu e a estátua do Rei Uthal. As estátuas de Lamassu eram bem famosas; existem várias réplicas ao redor do mundo, sendo a mais famosa delas em Persépolis, Patrimônio Mundial da UNESCO. (É possível ler mais sobre as obras destruídas aqui.)

Cada réplica semi-transparente contém um pen drive com imagens, mapas, arquivos em pdf e vídeos sobre os artefatos e locais destruídos, dados que foram reunidos por Allahyari ao longo dos últimos meses. Nos próximos meses, a artista planeja disponibilizar esses arquivos para o público junto de uma série de textos originais e alguns ensaios de sua própria autoria. A iraniana crê que suas pequenas réplicas possam ser vendidas tanto para colecionadores quanto para museus que queiram preservar esses objetos.

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Estátua de Lamassu. Crédito: Morehshin Allahyari

Allahyari mergulhou de cabeça no mundo da impressão 3D. Em colaboração com o artista e escritor Daniel Rourke, ela criou "O Manifesto Aditivista 3D", uma vídeo-instalação que urge artistas, ativistas, engenheiros e escritores a expandir os limites conceituais e físicos dessa tecnologia. (Atualmente, eles estão aceitando obras para a criação de um "guia" de projetos que utilizem a impressão 3D). "Um importante aspecto de nosso Manifesto é o foco em facetas experimentais, radicais e censuradas da impressão 3D", escreve Allahyari. "A ideia é que podemos — e devemos — pensar nessa tecnologia como uma ferramenta que poderá mudar nosso futuro biológico, político, ambiental e social."

A impressão 3D se tornou uma tecnologia extremamente política — um bom exemplo foi o busto de Edward Snowden, posto em exibição no Parque Forte Greene, no Brooklyn, e confiscado pela polícia local. O trabalho de Allahyari é, por ora, o mais revolucionário de todos: sai do simbólico para cair no prático.

O "Especulação Material: EI" também contêm alguns traços políticos menos óbvios. Allahyari afirma que seu trabalho foi influenciado pela obra de Reza Negarestani, que escreveu, no livro Cyclonopedia: Cumplicidade dos Materiais Anônimos, sobre a onipresença do petróleo e "a tendência oculta de todas as narrativas, não apenas políticas, mas também as que englobam a ética da vida e da morte". O que ela propõe é uma reflexão urgente e interessante: mesmo que a indústria petrolífera financie o EI e outros grupos rebeldes do Oriente Médio, ou que ela represente todo o interesse do mundo ocidental pela região, ou até mesmo que ela esteja destruindo nosso planeta, nós ainda dependemos desesperadamente dela.

Allahyari frisa o fato de que o próprio plástico utilizado pelas impressoras 3D é derivado do petróleo. Além de uma resposta à barbárie do EI, suas réplicas históricas são também um reflexo do tipo de progresso que nunca se interessou muito pela história: a última obsessão do tecnocapitalismo pelo novo, uma obsessão que nunca consegue se libertar das práticas destrutivas do passado.

Tradução: Ananda Pieratti