Politică

Quem é Aloysio Nunes, o novo ministro das Relações Exteriores?

Ex-piloto de fuga de Marighella, tucano deixou o PMDB em 1997 após briga com Temer e é o epicentro de escândalos do PSDB paulista.
3.3.17

Foto: Agência Brasil.

Surpreendido (como o resto do PSDB) pelo repentino pedido de demissão do senador José Serra (PSDB-SP) do cargo de ministro das Relações Exteriores, Temer passou o Carnaval refletindo, mas parece não ter tido dúvidas: trocou seis por meia dúzia e encaixou outro senador tucano paulista, Aloysio Nunes, na vaga deixada por Serra.

De perfil discreto, Nunes foi ganhando espaço político a partir do vácuo alheio — sua substituição no lugar de Serra faz lembrar que ele se elegeu senador em 2010 após a morte de um dos nomes mais cotados para a reeleição no Senado, Romeu Tuma, que adoeceu logo no começo da campanha.
Nunes começou a carreira política militando contra o regime militar. Filiado ao PCB, acabou caindo nas graças da Aliança Libertadora Nacional, comandada por Carlos Marighella.

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Atuando como motorista do guerrilheiro, participou inclusive do "assalto ao trem pagador" em 1968, mas trocou a luta armada pelo exílio no mesmo ano, quando se mudou para Paris e de lá montou uma base internacional para a ALN, descolando espaço para a publicação de textos de Marighella em veículos francesas e também abrigando exilados fugindo da ditadura no Brasil.

De volta ao Brasil em 1979, já filiado ao MDB, foi eleito deputado estadual em 1983, e atuou como líder do governo na Assembleia paulista durante as gestões de Franco Montoro e Orestes Quércia. Em 1991, foi vice-governador de Fleury Filho, e concorreu à prefeitura da capital em 1992, quando foi atropelado pela disputa entre Paulo Maluf (PP) e Eduardo Suplicy (PT).

Amigo de ACM e truta de José Serra, Nunes só foi para o PSDB em 1997, depois que a ala do PMDB comandada por Michel Temer se revoltou com a indicação de Nunes para o ministério dos Transportes de FHC. Na ocasião, olha a ironia, a pasta caiu nas mãos de Eliseu Padilha (PMDB-RS), hoje chefe da Casa Civil do regime Temer. Aloísio, tucano em nova hora, voltaria à administração federal depois da reeleição de FHC em 1999, no bojo de uma reforma ministerial. Primeiro foi Secretário de Governo e mais tarde assumiu o ministério da Justiça.

Durante o governo Serra em São Paulo, Nunes foi secretário da Casa Civil. A ligação lhe rendeu dois episódios espinhosos. Em 2010, durante a campanha eleitoral presidencial, seu nome foi ligado a Paulo Vieira de Souza, o "Paulo Preto", ex-diretor da Dersa que teria desviado R$ 4 milhões para o caixa 2 tucano. Em 2007 ele inclusive recebeu um empréstimo de R$ 300 mil da esposa e filha de Paulo para comprar um apartamento. Mais tarde Nunes foi acusado por um ex-diretor da Siemens de ser um dos articuladores políticos do cartel do metrô de São Paulo, que atuou entre 1998 e 2008 no estado.

Já com a operação Lava Jato em pleno funcionamento, o ex-candidato a vice de Aécio Neves voltou a figurar na mídia. Ricardo Pessoa, da empreiteira UTC, afirmou em delação que o novo ministro pediu R$ 500 mil reais em uma reunião em seu escritório, R$ 300 mil em forma de doação, e R$ 200 mil em espécie. Walmir Pinheiro, ex-diretor financeiro da UTC, confirmou o pagamento em espécie que teria sido feito em 2010 para o advogado Marco Moro. Acusado de falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, Nunes é alvo de inquérito no STF, mas não parece infringir a frágil regra de Temer de que ministros denunciados na Lava Jato seriam afastados do governo. Parece que quem vai sangrar até o fim do mandato não é mais Dilma Rousseff, mas vai ser ruim para Aloysio se juntar ao ex-interino nessa hemorragia.

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