análise

Pornografia para ler. Há vida para lá do Pornhub

Nayara Malnero, sexóloga, revela-nos os segredos do género literário que mais alegrias (húmidas) nos dá, numa análise detalhada a um livro pornográfico que chama as coisas pelos seus nomes.
30 November 2015, 9:29am
pintura de mulher nua a ler um livro

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Os editores da Sesudos vieram até ao nosso escritório com o seu primeiro lançamento: um romance que garantiam ser pornográfico. Perguntámos se era para ser lido só com uma mão. Responderam, principalmente a parte feminina da editora, que a sua leitura provoca muito calor interno e que chama, finalmente, cada coisa pelo seu nome. Insistem também que o Sexistencialismo, de Clara Blanco e Esteban Mancal, era muito mais do que sexo e que, por detrás, estava presente uma reflexão sobre os nossos relacionamentos e de como é percebido o amor hoje em dia.

Decidimos concentrar-nos somente nas passagens de sexo, porque este tipo de literatura não tem boa fama e, às vezes, o erotismo light, aquele de ler no metro tipo 50 Sombras de Grey, é confundido com pornografia somente porque aparecem as palavras penetração, cu, erecção, membro viril ou a expressão "estou tão quente". Os editores aconselharam-nos a consultar Nayara Malnero, que além de sexóloga, psicóloga clínica e terapeuta familiar, é também uma entusiasta deste tipo de leituras.


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Malnero tem uma página na Internet e tutoriais online em que oferece conselhos muito simpáticos para aprender a conviver (e desfrutar) com os vários tipos de pénis. Enquanto procurávamos estes documentos no YouTube realizámos - com as duas mãos no teclado - esta entrevista em que os homens do gás, depilados, musculados e com ferramentas de 30 centímetros, não saem muito bem na fotografia.

VICE: Embora nos seja bastante claro, queremos a tua opinião: onde acaba o erotismo e começa a pornografia?
Nayara Malnero: A diferença entre erotismo e pornografia é totalmente subjectiva. Poderíamos afirmar que o erotismo não desrespeita nem ofende ninguém, mas isso seria mentira. A linha que os define é muito ténue, mas podemos dizer que o erotismo tem a ver com a sensualidade e as insinuações, enquanto a pornografia é mais explícita e directa. Mas sim, ambos podem ser igualmente emocionantes e estimulantes.

Existe literatura pornográfica de qualidade? Ou só daquela pensada para "entusiasmar" os leitores...
Sim, existe literatura pornográfica (ou como eu a prefiro chamar, erótica) de qualidade e não somente porque é capaz de "entusiasmar" os leitores, mas também pela qualidade literária: a escrita, o modo como mantém o leitor envolvido, a coerência, etc.

Com a facilidade que existe para aceder a pornografia audiovisual online, o que encontras nos livros que não consegues encontrar nos filmes?
Existe algo muito importante e bastante mais poderoso nos livros que em qualquer filme: a nossa imaginação. O livro permite-nos imaginar as personagens, as cenas, os movimentos... e tudo isto é feito caprichosamente ao nosso gosto. O prazer está realmente na nossa mente e quem melhor que ela para dar-nos aquilo que desejamos? Por outro lado está o facto de que as mulheres são menos gráficas que os homens e que, além disso, existem pessoas que preferem a sensualidade ao sexo explícito (o que comentámos em referência à diferença entre erotismo e pornografia). Nós mulheres adoramos ler e assim poder fantasiar. Não nos provoca repulsa porque não é explícito e assim fica na intimidade (da nossa mente).

Estamos um pouco saturados de pornografia convencional, é por isso que procuramos géneros mais extremos?
Completamente. O ser humano farta-se de tudo com facilidade. Quando temos uma fantasia recorrente, esta acaba por perder o interesse e mudamos para outra. O que acontece com o sexo é que queremos experimentar sempre mais e aventurarmo-nos, procuramos novas experiências... e, o mesmo acontece com a pornografia. Além disso, como a fantasia (que vemos na pornografia) e a vida real não estão sobrepostas, podemos desfrutar de coisas variadas que, na nossa vida real, não seriam uma opção.

Porque é que a pornografia amadora tem tantos seguidores?
A pornografia amadora, ao contrário da convencional, tem muito sucesso porque sabemos que é real. As pessoas procuram situações reais, queremos sentir que o que estamos a ler pode tornar-se realidade e isso acontece com Sexistencialismo, é totalmente real e eu adoro! Vou dar-te um exemplo: eu sei que, como mulher, um homem do gás lindo, depilado, musculado e com um pénis de 30 cm não vai tocar à minha porta. Eu ficaria desconfiada se o fizesse e, à primeira, nem o deixaria entrar. O mais certo era denunciá-lo se tentasse entrar - pensas que sou assim tão fácil? - Ok ... eu sou, mas não estou depilada! Como é que apareces assim, comigo neste estado? Ah! E é óbvio que, com esse pedaço de ferramenta no meio das pernas, o mais certo era magoar-me e, eventualmente, estragar-me o momento.

O que te entusiasmou no caso de Sexistencialismo?
É uma questão de gosto e acho que o que vocês procuram é a minha opinião pessoal. A primeira cena ardente (a fantasia do carro) pareceu-me muito excitante e como fantasia, a meu ver, teria uma pontuação muito alta. Mesmo assim, existem muitas pessoas que gostariam de descobrir fantasias de quando a protagonista era mais nova ou mesmo o vai-não-vai virtual dele - "estás a ficar chateada?"-. Sexistencialismo tem um pouco de tudo, de tudo o que é real e as pessoas gostam disso.

Podemos ver como o livro chama às coisas e às partes do corpo pelos seus nomes... existem muitas falhas a este respeito noutros livros?
As falhas presentes na literatura erótica horrorizam-me. Levo-as muito a peito, porque estou farta. Leio e releio e acabo sempre cansada da mesma coisa: não diferenciam a vulva da vagina, o clitóris é como um interruptor que se liga e desliga ... Quando li o manuscrito de Sexistencialismo gostei do trabalho que fizeram em relação a isso, depois das minhas contribuições não vou ser eu a queixar-me. Provavelmente, a este respeito, deve ser uma das melhores leituras, vai impedir que os nossos olhos saltem das órbitas.

Podemos ler em casal como parte de um jogo sexual?
Tudo pode ser feito em casal, todos os livros podem ser lidos em casal e, se é um romance deste calibre, o jogo está servido. A minha recomendação? Acende algumas velas e lê para o teu companheiro, se o fazes bem, provavelmente, vai acabar por fazer com que cantes a Traviata.

Aconselhas nas tuas terapias a experimentar coisas que se aprendem da pornografia (posições, fantasias...)?
Não, normalmente faço o oposto. A pornografia não é educação sexual, como eu gosto de dizer "é a ficção científica do sexo real". É claro que é certo que se estivesse disposta a procurar encontraria pornografia de qualidade que nos pudesse servir para este fim, mas não é meu costume. No entanto, é verdade que utilizo a literatura erótica para fins terapêuticos e muito. Como já disse anteriormente, a imaginação do paciente é uma arma poderosa e é ela que eu trato de potenciar.

Como sexóloga, aconselharias a leitura de literatura pornográfica como terapia?
Sim, sem dúvida, de facto, na minha página de Internet podem encontrar uma série de opiniões sobre vários livros. Eu sou a criadora do Clube de Leitura Erótica de Madrid e estou a implementar outro em Gijón, a propósito do meu grupo de crescimento erótico.


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