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cinema

Filmes de culto, porrada e anos perdidos: Harmony Korine em entrevista

Encontrei-me com Korine e falámos sobre os seus filmes, os seus anos perdidos e sobre a influência da série de televisão 'Cops'.

Por Steven T Hanley
07 Março 2016, 12:01pm

Harmony Korine com uma das peças da série "Fazors". Fotografia do autor

Harmony Korine passou as últimas duas décadas a recolher elogios e repulsa em partes iguais. Aos 19 anos escreveu Kids, o filme realizado por Larry Clark sobre um grupo de skaters de Nova Iorque, um deles portador de HIV e "viciado" em levar raparigas virgens para a cama.

À época o filme causou muita polémica — estávamos em 1995, as mortes por SIDA estavam no pico; o filme mostrava miúdos a fumar erva e a espancar pessoas aleatoriamente — mas Korine também foi elogiado pelo guião. Tal como Gummo, a sua estreia como realizador, em 1997, o filme tornou-se um clássico de culto.

Encontrei-me recentemente com Korine, na Gagosian Gallery, em Londres, onde está a exibir a sua nova série de pinturas, intitulada "Fazors". Falámos sobre os seus filmes, os seus anos perdidos e sobre a influência da série de televisão Cops.

VICE: Vamos começar pela tua estreia como realizador, Gummo. Imagino que depois de Kids, os estúdios esperavam algo parecido, não um filme de arte não-linear.

Harmony Korine: Sim, acho que não havia um entendimento antes, ou mesmo depois, por parte dos estúdios, ou das pessoas que financiaram o filme. Lembro-me de mandar o guião para a Miramax, que tinha produzido Kids, e acho que nem passaram da página oito. Eu sabia que a única hipótese de fazer Gummo seria por causa do sucesso de Kids. Então, quando a New Line Cinema o financiou, foi mais tipo "Aqui tens, pega lá neste dinheiro e esperamos que ainda tenhas algum sucesso residual do último filme". Mas eu estava realmente focado em tentar criar algo específico, algo que tinha a ver com uma imagem dentro da minha cabeça.

Li algures que a série Cops foi uma grande inspiração para ti.

Sim. Havia uma série de episódios do programa sobre miúdos que cheiravam cola, que reeditei para ser só um dos garotos, sentado num banco, com tinta dourada a sair-lhe da boca. Era só uma repetição com ele a dizer sempre a mesma coisa e a ouvir os policias a falarem — uma imagem muito bonita com as gotas de tinta dourada a saírem-lhe da boca. Achei que poderia contextualizar isso e colocar no filme, mas quando encontrámos a sua família, ele tinha morrido e não quiseram ceder os direitos.

Cops era um bocado vanguardista nessa época — antes da Internet, não tinhas muito desse tipo de coisas na comunicação social.

Sim, além disso, foi a primeira vez que algum tipo de media representava aquilo que eu tinha visto ao crescer no Sul. Não havia uma representação da cultura sulista, ou da cultura trash. A coisa mais fixe do programa é que eles mandavam uma porta abaixo e vias pósteres de heavy metal nas paredes, ou algum miúdo com uma t-shirt dos Bone Thugs-n-Harmony a ouvir música country. Foi a primeira vez que vi esse tipo de esquisitice a misturar-se com a cultura pop. Acabou por ser um programa muito influente, porque foi a primeira vez que as pessoas viram isso.

Uma cena de 'Gummo'

Escreveste Kids aos 19 anos e aos 24 já estavas a realizar. Foi assustador fazeres filmes quando eras ainda tão jovem?

Foi divertido. Foi uma surpresa, talvez, para os meus pais, ou as pessoas com quem cresci, porque eu era, basicamente, um delinquente. Mas não fiquei surpreendido, porque sabia que precisava de fazer as coisas naquela altura. Era excitante, porque finalmente podia fazer o que queria, mas foi uma loucura — comecei a consumir narcóticos e era tudo muito selvagem.

No final dos anos 90, começaste a fazer o filme Fight Harm, em que provocavas estranhos até que eles te batessem. Porque é que quiseste fazer isso e porque é que o filme nunca foi acabado?

Só queria fazer o que achei que seria a maior comédia de todos os tempos. Sempre achei que havia uma essência de violência nas formas mais puras de comédia, como WC Fields a escorregar numa casca de banana, e achei que a repetição de provocar cenas de pancadaria seria engraçado. Via Fight Harm como uma das coisas mais populares que podia criar, mas quase de imediato — depois de oito ou nove cenas de porrada — comecei a sentir os efeitos e acabei com o projecto.

Paraste de fazer filmes entre 1999 e 2007, depois de Julien Donkey-Boy. Onde é que andaste durante esses anos?

Desapareci. Não queria ter nada a ver com nada nessa altura, na verdade. Só queria viver uma vida separada. Obviamente era um grande entusiasta de drogas e, provavelmente, estava a tentar livrar-me disso. Morei em Londres durante um tempo... França e América do Sul. Acho que, de certa forma, foram anos perdidos.

Fugiste?

Nem sei se fugi. Sempre procurei o entretenimento e quando as coisas ficaram muito sérias, saí e fui fazer outra coisa. Não me importava com o que era — desde que estivesse a fazer algo, estava bem.

Como é que te entretinhas durante esse período?

A cortar a relva e a disparar armas.

.Escreveste filmes?

Não. Nesse ponto da minha vida estava mais atraído por uma mentalidade criminosa.

Os teus amigos estavam preocupados e incentivaram-te a voltares a fazer coisas?

Acho que não. No final desse período estava perdido e cansado. Tinha-me desligado de praticamente toda a gente que conhecia.

Fotografia do autor

Voltaste com Mister Lonely em 2007, que é um filme bastante triste. Esses anos têm ligação com essa tristeza?

Sim, provavelmente. Estava a sair de algo e havia aí uma tristeza.

Aquela música de Iris Dement que usaste na sequência final é de partir o coração.

[Risos] Lembro-me de assistir à edição final do filme e pensar, "Foda-se". Não estava a acreditar que tinha passado tantos anos a fazer algo tão triste.

Dizes que, hoje, dificilmente vês filmes.

Acho que vejo uns 10 filmes por ano. Antes via 10 filmes por semana. É estranho, porque ainda acredito neles, mas a minha percepção dos filmes, ou do poder das imagens mudou. Não sei sequer porque é que os filmes ainda têm duas horas. Filmes são sobre emoções, poesia e transcendência — algo enigmático. Porque é que isso tem de ser uma longa-metragem? Poderia até ser um flash. As minhas experiências com filmes novos não vão tão fundo quanto costumavam ir, mas quando vejo filmes que significaram muito para mim quando era miúdo, ainda fico emocionado. Achei Mad Max incrível. Na superfície era tão simples — era quase como um jogo de computador. Acho que foi o melhor filme do ano passado.

Estamos numa era onde existe muito conteúdo online. Ainda te preocupas em lançar os teus filmes nos cinemas?

Sempre! Quando faço filmes, estou sempre a pensar na experiência do cinema. É por isso que nunca fiz televisão: a televisão é um meio do guionista. Não estou a dizer que não há coisas boas na TV, mas — não importa quão bom seja — é sempre algo que me desaponta. O tamanho, estares sentado na tua sala... é algo muito banal, enquanto o cinema é mágico, é enorme. Isso envolve-te e há algo completamente sensorial quando funciona. A televisão é algo mais relaxado. Podes parar a qualquer momento e ir comer um hambúrguer.

Trash Humpers, de 2009, foi filmado em VHS, com várias câmaras de vídeo que compraste em lojas de segunda mão.

Perto da minha casa em Nashville [quando era criança] havia um lar de idosos; viviam na cave e estavam sempre a ouvir aquela banda Herman's Hermits. Eu passava por lá à noite e alguns deles estavam sempre cheios de tesão; esfregavam-se uns nos outros. Era uma coisa altamente sexualizada...eu realmente passava-me com aquilo. É uma dessas coisas que ficam na tua cabeça e Trash Humpers era uma continuação dessa ideia — de tentar fazer alguma coisa que fosse visualmente corroída e horrível, mas que, ao mesmo tempo, tivesse um vernáculo muito americano. Estava a tentar alcançar a maneira como as coisas me pareciam quando era miúdo.

Também editaste tudo em cassetes de vídeo, certo?

Estávamos a meio do Verão e o meu editor era 90% cego. Estava sempre sem camisa e sentava-se a riscar as fitas com um lápis e a fazer glitches muito bonitos. Estávamos a tentar imaginar: "Como é que fazemos um filme que pareça ter sido encontrado nas tripas de um cavalo, ou enterrado?". Agora podes comprar aplicativos de VHS para o teu smartphone e imitar o que demorou muito tempo a fazer.

Ashley Benson, James Franco, e Vanessa Hudgens em 'Spring Breakers'

Vemos muitos realizadores indie, como Guns Van Sant, irem de pequenos filmes alternativos para grandes longas de estúdio, mas de Trash Humpers para Spring Breakers, de 2013, foi um salto muito radical. Foi difícil levantares o projecto do chão?

A parte fácil foi o elenco — essa parte foi muito fácil. Mas todos os filmes que fiz foram difíceis de fazer. Nunca tive uma experiência fácil.

Por causa dos estúdios envolvidos?

Há sempre essas pessoas — não importa o que estás a fazer. Nunca é comercial o suficiente. Ninguém está feliz o suficiente. Há sempre alguém a tentar puxar-te para outra direcção. No meu coração sei o que é certo, por isso não duvido de mim. As pessoas podem ter as suas opiniões e eu vou ouvir, mas, no final, vou saber se estou no caminho certo. Não me incomoda. Tudo é perfeito, não importa o que aconteça, mesmo se estou a criar desastres — tudo acontece da forma que tem que ser.

O teu próximo filme, The Trap, é sobre um gangue que rouba barcos em Miami, e já disseste que vai ser ultraviolento e parecido com uma experiência com drogas.

Estou sempre a tentar chegar a um ponto em que a produção dos filmes seja mais facilmente explicável — uma energia, em vez de algo baseado na narrativa. Estou sempre a tentar fazer algo que seja parecido com uma experiência com drogas, uma experiência alucinogénia, ou algo mais como uma sensação. Há uma linguagem que tenho vindo a tentar desenvolver há algum tempo, por isso The Trap será uma continuação disso. Mas não sei se vou fazer esse filme. Devia começar a filmar em Maio, mas perdi o interesse... não é que não vá fazê-lo, mas, entretanto, já quase acabei outro guião. Vou fazer um dos dois este ano, ainda não sei qual.

Vamos falar sobre a tua arte. Há quanto tempo começaste a pintar?

Sempre pintei. Faço pinturas desde que comecei a fazer filmes, mas nos últimos anos tomou conta da minha vida.

Fala-me mais sobre esta nova série de pinturas, Fazors.

Esta série era só uma tentativa de fazer arte sem um ponto fixo. Havia um padrão por onde começava e, depois, era levado por ele - chamo-lhe phasing. São pinturas sensoriais, ou baseadas em energia. Queria trabalhar com cores que fossem tiradas do céu, ou algo assim. E isso relaciona-se com outras coisas — looping, phasing, trancing — há um componente físico. Se olhares para os quadros o tempo suficiente, eles invadem-te.

E escolheste trabalhar com estas telas de tamanho grande.

Geralmente faço coisas mais pequenas, mas para as exposições isto é quase do tamanho de uma tela de cinema — sinto que há algo de poderoso neste tamanho.

Chegas ao estúdio com a mente vazia e deixas-te levar?

Às vezes. Para esta série, trabalhei nos quadros muito tempo — levei mais ou menos um ano para fazê-los. Ia para estúdio todos os dias e começava a trabalhar. As coisas figurativas são mais intuitivas; há personagens específicos que tenho desenhado desde miúdo e que voltavam, constantemente, quando estava a fazer estes quadros.

Finalmente, é verdade o que David Letterman diz, que foste expulso do programa dele em 1999 por remexeres na mala da Meryl Streep, enquanto estavas um bocado passado?

Da maneira como o Letterman conta essa história, não acredito que seja verdade. A verdade é a seguinte: comi algumas gramas de cogumelos antes do programa, então provavelmente estava a alucinar naquela altura, e se vês uma arma numa carteira, o que é que fazes? Sabes do que é que estou a falar? Pegas na arma e brincas à roleta-russa.

"Fazors", de Harmony Korine, está em exposição na Gagosian Gallery, em Londres, Reino Unido, até 24 de Março de 2016.

@luxthanzero