ilustração de enfermeira
Todas as ilustrações por Sarah Schmitt
análise

O que acontece quando o teu emprego é a fantasia erótica dos homens

Secretárias, hospedeiras de bordo e enfermeiras têm uma coisa em comum: as suas profissões são tidas como as mais sexy do Mundo. Falámos com várias mulheres sobre a forma como lidam com os fetichistas dos uniformes e o assédio sexual.
10 May 2016, 3:30pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma BROADLY.

Qualquer pessoa que alguma vez tenha navegado pela vasta biblioteca de porno que a Internet coloca à disposição da humanidade, ter-se-á certamente apercebido de que há muitos homens que não encontram nada mais estimulante que alguém a submeter-se a um exame às mãos de uma bem dotada e sexy enfermeira, ou ouvir uma secretária a ler em voz alta os seus mais ocultos desejos escritos no bloco de notas.

Se procurares por "enfermeira" nos sítios certos da net, vais provavelmente encontrar coisas como "Enfermeira ruiva tesuda", ou o mais extravagante "Enfermeira madura e tesuda aplica tratamento oral". Na verdade, estas fantasias relacionadas com locais de trabalho, ou profissões, não têm limites. Inclusive, já foram feitos vários estudos e sondagens (com diversos graus de representatividade) que pretendem medir a influência que estes clichés pornográficos exercem sobre a percepção da sexualidade em determinadas profissões.


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Quando a Men's Health perguntou aos seus leitores quais as profissões femininas que achavam mais atractivas a nível sexual, as enfermeiras conquistaram o segundo lugar, logo atrás das hospedeiras de bordo. O portal erótico MyDirtyHobby analisou esta questão mais detalhadamente em 2015, quando analisou as buscas dos seus utilizadores alemães e verificou que os resultados foram praticamente idênticos.

É óbvio que estas fantasias pornográficas nada têm de realista: as enfermeiras não desfilam pelos corredores dos hospitais em saltos agulha e as secretárias não querem que os clientes lhes saltem para cima na mesa do escritório. Portanto, como é que se sente alguém que tem mesmo uma destas profissões com que muitos homens fantasiam?

"Trabalho há muitos anos como secretária e, como é óbvio, nunca atendi um cliente sentada de pernas abertas em cima da mesa do escritório", diz Denise, que trabalha para uma grande empresa sediada em Heidelberg, na Alemanha. "É claro que sei que isso sucede com frequência no porno e que é algo que passa uma imagem enganosa da minha profissão que nada tem a ver com a realidade", salienta.

Tanja Thelen, especialista em medicinas alternativas e sexóloga, explica porque é que, a seu ver, há determinadas profissões que têm tendência a ser vistas como sexualmente atractivas. "No caso das secretárias, há muita gente que as vê como uma espécie de 'raparigas para todo o serviço', que também tratam dos assuntos privados dos seus chefes e que, de alguma forma, estão 'sempre prontas', o que faz com que pareçam ser devotas e submissas", realça.

Denise continua: "Só tive uma má experiência com um cliente. A disposição do mobiliário do escritório não me permite ver o elevador, mas consigo ouvir as pessoas a falar na zona de saída. Uma vez, um cliente e um colega meu estavam a sair do elevador e ouvi-o [o cliente] dizer 'Espero que esteja aí aquela secretária pequenina e boazona, gostava mesmo de lhe dar uma". Era um homem com idade para ser seu pai.

Leonie, enfermeira num hospital em Colónia, também na Alemanha, conhece demasiado bem os problemas decorrentes de, na perspectiva de alguns dos seus pacientes, ter um "trabalho sexy". "A meu ver, a imagem da enfermeira sexy está de alguma forma presente na maioria das pessoas, especialmente entre os homens mais velhos. Uma vez um doente disse-me que gostava de ver-me a manter relações sexuais, já me ofereceram dinheiro a troco de sexo e uma ou outra vez tentaram apalpar-me", conta a jovem de 26 anos.

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Acerca das fantasias com enfermeiras, Thelen afirma que "há duas componentes que desempenham um papel muito importante": "Em primeiro lugar, a farda e, em segundo, a questão do poder e da submissão. A maioria das enfermeiras vestem-se com uniformes brancos, que simboliza pureza. Tratam dos doentes, asseguram-se de que estão bem e não têm problemas com os fluídos corporais".

Mas deixemos que Leonide deite por terra a ideia da farda sexy das enfermeiras: "Essa imagem típica de uma enfermeira é muito diferente da realidade. A maior parte das vezes usamos roupa larga e temos de dobrar as calças junto aos tornozelos para não andarem a arrastar pelo chão; temos sempre nódoas de origem duvidosa que tanto podem ser de sangue, como de fezes; muitas vezes damos por nós com o cabelo cheio de uma mistela amarela, que frequentemente podemos identificar como pus. Como se percebe, de sexy não há aqui grande coisa".

Isto pode também aplicar-se a Lena, antiga agente da polícia. "As mulheres polícia não andam por aí a pavonear-se em meias de rede e mini-calções. Seria pouco confortável". Tal como na enfermagem, os elementos farda e poder estão presentes no que diz respeito a fantasias com agentes policiais, explica Thelen, ainda que, neste caso, os sujeitos podem levar uma carga de porrada se não se rendem, em vez de um banho de esponja.

"A imagem da professora sexy num vestido mínimo e bem justo é invenção da indústria do porno. Nenhuma professora daria aulas vestida dessa forma".

"Durante as detenções ouvi muitas vezes coisas do género 'Seja bruta, senhora polícia sexy'. Tens que fazer ouvidos de mercador", relata Lena. "Na Academia aprendes a ignorar este género de comentários. Estamos ao serviço e sabemos distinguir bem quando nos estão a tentar assediar ou discriminar sexualmente, pelo que, nessas alturas, os nossos colegas homens são habitualmente chamados a intervir".

Selina, que é professora numa escola alemã na Itália, revela situações semelhantes em relação à vida profissional das professoras. "Há regras muito claras nesta profissão, no que diz respeito, por exemplo, à forma de vestir. E nas aulas não são tolerados o uso de saias curtas ou os decotes pronunciados. A imagem da professora sexy num vestido mínimo e bem justo é invenção da indústria do porno. Nenhuma professora daria aulas vestida dessa forma".

É certo que as professoras não têm propriamente um uniforme, ou uma farda, explica Thelen, mas têm habilidades pedagógicas muito próprias. É frequente serem apresentadas na pornografia como mulheres estranhas e castigadoras. Neste caso, falamos de poder e de submissão, de jogos sado-masoquistas, de subordinação, castigo e obediência.

Mas, então e que raio se passa com as hospedeiras de bordo, que lideram todas as listas de profissões mais sexy do Mundo? Claudia, que trabalha como hospedeira numa filial da Lufthansa, tenta explicar porque é que as pessoas se entusiasmam tanto com a sua profissão: "Os homens sempre tiveram ideias muito estereotipadas sobre as hospedeiras. Hoje em dia, haverá poucas profissões no Mundo em que o uniforme desempenhe um papel tão importante. Aliás, muitas profissões há muito que se livraram das fardas. Por isso, julgo que a chave está, precisamente, na farda e na apresentação geral, que inclui habitualmente o uso de saltos altos, saia e lábios pintados de vermelho. Coisas de que os homens tendem a gostar. Ou pelos menos aqueles que não lidam com este tipo de visual diariamente".

Claudia conta que é alvo de muitos olhares curiosos quando veste a farda em locais públicos, mas acredita que, nessas ocasiões, a maioria das pessoas não tem nada de sexual em mente. Sentem-se simplesmente fascinadas pelo look no geral. E, se muitos reagem de forma positiva à sua profissão, é claro que também há homens que não descansam enquanto não lhe entregam os seus cartões de visita, ao mesmo tempo que aproveitam para se meterem com ela.

"Como acontece com qualquer outro trabalho integrado no sector dos serviços, às hospedeiras é exigida cordialidade e solicitude, bem como um espírito amistoso".

No entanto, na verdade, dada a circunstância de que, para serem hospedeiras, as mulheres têm de cumprir determinados requisitos físicos, a questão do uniforme acaba por ser o pano de fundo para a questão da atracção sexual que suscitam. "Não podem ser muito baixas, ou muito 'cheiinhas'. Têm que ser atraentes", lembra Thelen. E acrescenta: "Quando estão a atender os passageiros têm de ser sempre amigáveis e satisfazer todas as suas necessidades. Tal como sucede com as secretárias, as hospedeiras de bordo - no que respeita à forma como são percepcionadas pelo público - são devotas e submissas".

Como acontece com qualquer outro trabalho integrado no sector dos serviços, às hospedeiras é exigida cordialidade e solicitude, bem como um espírito amistoso. Características que, muitas vezes, podem - e são - ser confundidas com flirt. "Algumas pessoas acham que podem ir mais alem, mas estas assistentes de voo, aprendem na sua formação a lidar com passageiros bêbados, ou agressivos e a manterem sempre uma atitude profissional".

Ainda de acordo com a sexóloga, Tanja Thelen, sexualizar determinadas profissões acarreta um risco maior de assédio sexual. As mulheres que exercem estas funções vêem-se frequentemente obrigadas a meter travão a avanços inapropriados, ou mesmo a abusos sexuais. "Neste caso, os limites são muito importantes. Quando é que alguém está a ultrapassar os meus limites pessoais e como é que eu reajo a isso? Creio que as mulheres que trabalham neste género de profissões deveriam colocar mais energia na tentativa de se protegerem dos clichés, ou, nos casos mais graves, do assédio e da discriminação. Há mulheres que, por medo de perderem os empregos, aguentam muita coisa, em vez de se queixarem às chefias, ou à polícia. E também é certo que nem sempre se levam as vítimas a sério e, consequentemente, por vergonha, estas não denunciam os agressores".

É claro que é tentador meter as culpas desta situação na indústria porno. Mas não é a pornografia que escolhe as profissões e as converte em fetiches. O momento e o motivo pelos quais alguém desenvolve um fetiche estão relacionados com a experiência e as influências dessa pessoa. Pode acontecer que alguém que, quando era criança, tenha tido uma experiência positiva com uma enfermeira, desenvolva uma preferência sexual por esse grupo. No entanto, isso não lhe dá o direito de assediar sexualmente a enfermeira que lá vai a casa tratar da sua avó doente.

"Ninguém deveria ter de tolerar a discriminação sexual", conclui a secretária Denise. "Olhando para trás, gostava de, na altura, ter dito das boas ao cliente pervertido, mas, infelizmente, não consegui encontrar as palavras certas, porque fiquei completamente estupefacta. Nós, mulheres, temos de defender-nos uma e outra vez e temos de deixar bem claro que este tipo de acções não são toleráveis".


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