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O que aprendi sobre a raça humana em 20 anos como DJ de rock

Sem querer ser desmancha-prazeres, fica já o spoiler: a parte boa disto tudo são as pessoas. E a má também.
16.3.16
Foto pelo autor.

Não é suposto vir para aqui armado em observador da vida selvagem, qual David Attenborough, e fazer considerações sobre a fauna - e alguma flora - que tem cirandado por esses bares e discotecas nas últimas duas décadas. Também não me passa pela cabeça fazer disto um retrato social da cena. Já me dava por satisfeito se conseguisse ser um pouco mais rigoroso do que aquele rapaz que escreveu no outro dia sobre o Alentejo. Já não era mau.

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Mas é impressionante a quantidade de estórias a que se pode assistir da parte de dentro de uma cabine, virado e exposto para as pessoas. Sem querer ser desmancha-prazeres, fica já o spoiler: a parte boa disto tudo são as pessoas e a parte má são elas também. Tão simples quanto isto.

Uma coisa irónica é que a parte boa não se presta a grandes considerações, pois é demasiado especial e cada um as guarda para si à sua maneira. As pessoas vão a um sítio, estão umas com as outras, sorriem entre si, bebem em conjunto, porventura estabelecem algum contacto visual com o DJ, acenam, assobiam, urram se for preciso, ou levantam o polegar em sinal de aprovação. Toda a gente sai satisfeita, tu fizeste o teu trabalho, a casa vendeu uns copos, de vez em quando criam-se boas amizades e a tua vida tem sentido. Está bom, não mexe mais. É para isso que cá andamos. Ou não?


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Bom, por vezes não parece e é no dark side disto tudo que a coisa se torna interessante, pois um gajo tem de relativizar, ou então não se aguenta. É claro que isto não acontece a partir de um certo nível de popularidade, embora, se calhar, no início de carreira de alguns galácticos, também eles passaram por isso. Aqui fala-se na óptica de um DJ normal, que sempre fez outras coisas, e que nem ele próprio percebe como e porque é que ainda anda nestas lides giradisquistas.

Por onde começar? Bem, a clássica demanda dos discos pedidos é algo que pode ser muito irritante e tem azedado com o tempo. Porquê? Porque antes da era digital, se não tinhas aquele tema, é porque não tinhas mesmo. "É pá, não trouxe isso". Ainda hoje é assim, mas para algumas almas, se não tens é porque não queres, pois podes sempre sacar ali na hora, ou fazer uma ligação directa ao YouTube. Já me chegaram a dizer "Não tens? Eu tenho! Arranja aí um cabo para eu ligar o meu telefone à tua mesa".

"Se o gajo não mete aquela vou lá e meto eu".

Outra derivação interessante da música a pedido é quando um cliente está a gostar do set. Mas está mesmo. Seria de esperar que depositasse alguma confiança no DJ - pois este não o tem defraudado até então - e esperasse pela próxima canção, certo? Errado. Geralmente, o que acontece é que a pessoa entusiasma-se e desata a pedir uma série de músicas em catadupa, sob o argumento "se passaste aquela, tens de passar também esta e mais a outra".

O hilariante é que essas pobres criaturas, que até estavam a gostar da selecção musical, conseguem acabar a noite chateadas, só porque não passaram "aquela" e, de repente, todas as outras músicas de que estavam a gostar, assim como todo o serão agradável, acabam por não contar para nada. Tirando aquela senhora em Espanha, quando se gosta de um quadro, também não se vai lá pintar por cima, pois não? Que desperdício.

Para além do algo depreciativo "Ó DJ, mete música", uma outra situação é o "passa aquela". Costuma dizer-se por brincadeira para passar aquela, sem se referir a nenhuma em especial, mas por vezes tem de ser mesmo aquela, o hit, portanto. Já aconteceu: "Tens Arcade Fire?" "Mas… mas nós estamos a ouvir Arcade Fire". E depois há aquelas pessoas que também pedem músicas, ela toca, e passado um tempo vão lá outra vez perguntar quando é que a música passa. "Já passou!". "Ah, não reparei".

Os filrts e os engates podem ser frustrantes. É suposto estares a trabalhar com alguma concentração naquilo que estás a fazer, pelo que sobra pouco tempo para bater o couro a alguém. Se for num bar pequeno há mais proximidade e a coisa ainda pode ser que vá, agora numa disconight maior, a logística é outra e a coisa complica-se. Repito, fala-se aqui de um DJ normal, não um Superstar DJ. Mesmo se não tiveres ninguém na tua vida e todo um mundo de aventuras pela frente, a coisa pode tornar-se pouco prática.

Depois, tal como o mito do baterista - é quem demora mais tempo a arrumar o seu material e, quando chega ao fim, já se foram todos embora - se trabalhares numa discoteca, pode ser que sejas dos últimos a sair, pois ficas à espera que te paguem. E não há nada mais desolador, depois de uma noite em altas, que encontrar uma rua deserta. Deita abaixo qualquer um, acreditem. Acabar uma noite de glória, sozinho, a beber um Ucal ao amanhecer com o ar mais infeliz deste mundo, não é bonito de se ver.

O Elvis!! Actualiza-te pá! Foto pelo autor

Há uma prática social, que é ir cumprimentar o DJ. Se o conhecerem, nem que seja só mais ou menos, assim que entram, vão direitinhos cumprimentá-lo, faz parte de um ritual. É giro, é só isso, nem tem nada de mal. Mas se, por exemplo, o encontram no café, ou na rua, durante o dia, quanto muito acenam. Só. Por outro lado - o oposto, entenda-se - às vezes não se limitam a cumprimentar e metem-se ali mesmo a querer conversar. Uma pessoa tem de meter a música, estar atenta à próxima, ler a pista para ver se as pessoas estão a reagir e há malta que quer mandar conversa fora. Pode parecer arrogante, mas nem sempre dá.

Um bar fecha às duas da manhã, o DJ é teu amigo, foram todos jantar às nove, ele saiu às dez e meia para entrar às onze, e tu ficas por lá a beber, que é mais barato, e só chegas ao bar pela uma e meia da manhã. Pensas mesmo que o DJ, mesmo sendo teu amigo, esteve ali toda a noite a encher chouriços e a guardar as melhores músicas para quando tu chegasses? Pensa outra vez.

"Mas a malta do rock que pensa que é muito à frente, por vezes também tem pouco poder de encaixe".

Já aconteceu pedirem música brasileira e quando foi dito que nessa noite o som era outro, a resposta foi: "Ai filho, tens de te actualizar!". Também houve uma loira muito gira, durante os Queens Of The Stone Age, que cheia de charme me fez um psst psst… e eu, parvo, fui ver o que ela queria, ao que ela me berrou desagradada ao ouvido: "Que merda é esta?".

Mas a malta do rock que pensa que é muito à frente, por vezes também tem pouco poder de encaixe, como qualquer criatura de outras sonoridades. Ai do DJ que passe uma remix de um tema mais roqueiro. Vai haver sempre alguém a protestar: "Não tens o original?". Por vezes também lhes falta algum sentido de humor. É claro que, num set de rock, passar o "Firework" da Katy Perry é abusar da sorte, mas a cara de nojo e de horror que eles me fizeram quando isso sucedeu, fez-me lembrar um certo vídeo dos Hot Chip. Calma, pá. A vossa coolness saiu intacta. Respirem, sim?

Há pessoas sinistras em todo o lado. Desde o tipo que inventou a roda e, sem nunca concretizar, está sempre a dizer que não é assim que se trabalha. Depois, há a pessoa que fica no meio da pista, parada, a olhar fixamente para o DJ com cara de poucos amigos.

O protocolo dura alguns minutos, não se sabem quantos, pois ninguém pode aferir ao certo há quanto tempo é que ele já está naqueles preparos. Mas tudo passa pela tentativa de intimidação através do olhar (muitas das vezes pretende ser letal, mas é só lamentável). É daquelas situações em que o praticante desta modalidade nunca saberá que perde sempre, mas a malta também não lhe diz.

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E depois também há o aprendiz de corruptor. A situação foi esta: a música acaba, o cliente quer mais, e nisto, há um que pergunta a pés juntos: "Quanto é que queres para passar mais uma música?". A sério, eu simplesmente perguntei a quanto é que vai o suborno nos dias que correm. Pronto, está bem, se calhar deveria ter perguntado com um ar sério e não a rir a bandeiras despregadas. Ele amuou e foi-se embora. Pena.

Isso é um disco. Mete uma do youtube que é para isso que te pagam, palhaço! Foto pelo autor

Como DJ residente num sítio, principalmente ao fim-de-semana, se o fazes vais passar a ver menos concertos, pois estás sempre a trabalhar nessas alturas. A não ser que os concertos aconteçam no local onde trabalhas. É claro que depende da tua hora de entrada, mas é preciso alguma logística. Para alguém fora de Lisboa ou do Porto, viajar para essas cidades para ver concertos, torna-se num jogo de cintura, a não ser que arranjes alguém que te substitua. Vão os teus amigos e eles depois contam-te como foi.

E por falar em festas ou concertos, se quiseres fazer uma sessão diferente no sítio onde trabalhas, vai haver sempre alguém - mas sempre, sempre, sempre - que te vai dizer para adiares, que nesse fim-de-semana já tinha uma coisa combinada e é uma pena, que azar e tal… A não ser que verifiques que vai mesmo haver uma debandada geral, não cedas. As pessoas são egoístas, e às vezes nem é por mal, mas são.

Tu não trabalhas, tu és só DJ. Quem trabalha são as outras pessoas que vão à discoteca e que durante a semana têm trabalhos a sério. Tu… tu és só o DJ. Os clientes é que trabalham e estão lá para se divertirem e tu, seu merdas, só tens é de os servir, que quem paga o teu ordenado são eles porque tu não tens um emprego, tens sim uma ocupação e ainda és pago para isso. Por isso, vai-te foder! E, por acaso, elas nem vão assim tantas vezes onde tu trabalhas, mas gostam de pensar que, se lhes apetecer, tu estarás lá. Para sempre. Por isso passa lá os Pixies… e já deixavas de te queixar, não?


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