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O cano de ferro do neo-fascismo sueco

Tudo isto sob a capa de partido democrático.

Por Daniel Strand
27 Setembro 2013, 2:00pm


Foto por Christian Storm

No passado Novembro, o jornal sueco Expressen publicou um vídeo em que podíamos ver os membros neo-fascistas do parlamento sueco a perder a cabeça pelas ruas de Estocolmo, empunhando canos de ferro e gritando insultos tipo “puta” na direcção de cidadãos inocentes. Esta gente faz parte dos Sweden Democrats (Democratas Suecos), que há 10 anos era um partido político marginal e que tinha poucas esperanças de ser eleito para o parlamento. Mas em 2012, numa sondagem, os Democratas Suecos surgiram com 11 por cento dos votos – o que os tornaria o terceiro partido mais popular do país. 

À primeira vista, a ascensão do fascismo e do racismo na Suécia parece surpreendente. O país não tem uma grande história em termos de colonialismo, e os movimentos de extrema-direita tiveram relativamente pouca importância durante o século XX sueco. Mas então como é que esta ralé de nacionalistas anti-imigração chegou a uma posição tão proeminente na política sueca? O que é que levou o povo sueco a eleger estes hooligans?

O fascismo parece completamente deslocado na Suécia, um país rico e com um Estado Social eficiente. Mas nas duas últimas décadas, a xenofobia foi-se propagando por debaixo da superfície da prosperidade. No início da década de 80, uma mão cheia de grupos racistas emergiram, dos quais o Bevara Sverige Svenskt (Manter a Suécia Sueca) se distinguiu. Ao distribuir flyers — que instruíam as raparigas suecas a “evitar relações sexuais não protegidas com Negros com SIDA” e exigiam a “repatriação” dos imigrantes que não fossem nórdicos —, o Bevara Sverige Svenskt funcionou como semente para os movimentos de extrema-direita. Em meados da década de 80, as manifestações fascistas tinham lugar em pleno centro de Estocolmo para comemorar a morte do rei Karl XII, do século XVIII, uma figura que consideram o seu pai fundador. Estas manifestações, nas quais participavam centenas de skinheads bêbados ao lado de avôs fascistas mas bem-comportados, acabam invariavelmente em lutas de rua e violência. Suásticas e cumprimentos a Hitler acabavam por ser espectáculos normais. 

Os Democratas Suecos renasceram das cinzas a partir deste ambiente social. Formado em 1988, o partido configurava uma coligação entre os ex-membros dos Bevara Sverige Svenskt e figuras proeminentes de organizações nazi como a Nordiska Rikspartiet (Partido das Nações Nórdicas). O início e meados dos anos 90 foram passados pelo partido a mobilizar a extrema-direita contra o sistema político da Suécia.  

Apesar de alguns partidos nazis se terem formado na Suécia deste a década de 20, o seu “movimento nacional” nunca conseguiu ganhar impulso. O boom económico do país foi possível graças à imigração em larga escala. Nas décadas após a II Guerra, o número de suecos que tinham imigrando de países estrangeiros aumentou dos 100.000 para os 600.000. A visão ideológica dos Sociais-Democratas do folkhemmet  (conceito de família sueca) — uma comunidade exclusivamente sueca que atravessaria todas as classes sociais — envolvia programas eugénicos e a opressão dos romenos e samis; no entanto, o baluarte do socialismo sueco deixou de parte os nacionalistas, até recentemente. 

Em 1992, depois de John “o Homem Laser” Ausonius, um serial-killer e assaltante de bancos, ter alvejado 11 imigrantes em Estocolmo, os Democratas Suecos organizaram uma marcha durante a qual os seus participantes gritavam que deviam ter sido alvejados mais estrangeiros. Um ano depois, a polícia prendeu o líder da facção jovem do partido numa manifestação comunista comemorativa do 1.º de Maio, por posse de uma granada.

No entanto, no final dos anos 90, os líderes dos Democratas Suecos começaram metodicamente a cortar relações com as suas ligações à extrema-direita. Os skinheads foram excluídos, o antissemitismo explícito foi rejeitado e as referências à raça desencorajadas. Ao cortar a sua relação umbilical com o nazismo, este partido violento mascarou-se num movimento mais macio e num respeitável oponente do multiculturalismo. Em 2001, o partido dividiu-se em duas partes, tendo as facções mais militantes e antissemitas fundado o ultranacionalista Nacional-Democratas (Nationaldemokraterna - National Democrats), e os Democratas Suecos apresentaram-se estrategicamente como críticos da imigração e socialmente conservadores, em vez de explicitamente fascistas. Liderados por Jimmie Åkesson, um rapaz respeitável e bem-vestido, com interesse em “história”, o partido conquistou 160.000 votos nas eleições parlamentares de 2006.

Conscientes do crescimento dos sentimentos anti-islâmicos na Europa, os Democratas Suecos endereçaram a sua demonização para os imigrantes muçulmanos e tornaram-nos os bodes expiatórios daquilo que alegavam ser o declínio social na Suécia. Chegaram até ao ponto de indicar judeus para posições de relevo e a defender agressivamente uma política pro-Israel. Como explicava Åkesson, o Islão era a “maior ameaça estrangeira [para a Suécia] desde a II Guerra Mundial”. 

Com a sua imagem de vítimas cuidadosamente calibrada, os Democratas Suecos colheram um apoio significativo ao longo dos anos seguintes. Alguns ex-Sociais-Democratas, desencorajados pelo envolvimento do seu partido no desmantelamento do Estado Social, consideravam os Democratas Suecos uma fonte de estabilidade, comunidade e tradição. O partido apropriou-se da visão Social-Democrata da “família sueca” e tornou-a contra os seus inventores, acusando os Sociais-Democratas de terem traído o povo sueco ao submeterem-se ao multiculturalismo, ao feminismo e à “imigração em massa”.  

Nas eleições de 2010, os Democratas Suecos angariaram finalmente os votos necessários para entrar no parlamento. Conquistaram 5.7% do votos e tornam-se no sexto partido mais votado. Não só ganharam 20 lugares no parlamento como rapidamente se tornaram parte da esfera pública. Os peritos em extrema-direita argumentavam que a ascensão do partido se tornava uma razão para “debater a imigração”. Enquanto isso acontecia, a maior parte dos jornalistas não sabiam como os classificar – alguns comentadores da esquerda argumentavam que os Democratas Suecos deviam ser descritos como fascistas. Os grandes media decidiram tomar uma postura mais neutral, chamando-lhes “críticos da imigração”. Apesar de ser um termo aquém da realidade, dado que os Democratas Suecos basicamente defendiam que se proibisse a imigração de vez.  

A chave para a credibilidade dos Democratas Suecos residia na aparência culta e civilizada da elite do partido. Todos os jovens que se sentavam no parlamento surgiam de fato (muitas vezes com um lencinho no bolso do casaco) e marcavam pela sua eloquência. Repetiam vezes sem fim que os Democratas Suecos não eram um partido racista; defendiam apenas uma “política restritiva da imigração”. 

Mas as declarações feitas pelos membros do partido regularmente contrariavam o este argumento. “Durante milhares de anos, os negros puderam relaxar ao calor, comer umas bananas, violar uma mulher ou uma criança, lutar com outros negros machos e comê-los”, escreveu um político local dos Democratas Suecos, Per Wahlberg, no seu blogue, em Setembro de 2010. Alguns meses mais tarde, outro Democrata Sueco local chamado Isak Nygren afirmava que se opunha a “mistura de raças” e que os suecos não deviam ter relações sexuais com “asiáticos” ou “negros”. Em Maio de 2012, Solveig Renhammar-Metus deixa os Democratas Suecos, furioso por “os judeus controlarem o partido”. Durante esse Verão, Pär Norling, outro político local, afirma que os muçulmanos praticantes deviam ser deportados e que o Islão deveria ser banido na Suécia. Um membro do parlamento, Stellan Bojerud, autor do livro Nazismo na Suécia 1924-1945, declara que estudos científicos provavam que os imigrantes tinham “um QI mais baixo” do que os suecos. 

Depois disto, a elite do partido tentou controlar estas tiradas racistas dos seus membros. No passado Outubro, o líder do partido Jimmie Åkesson enviou uma carta a todos os elementos eleitos dos Democratas Suecos anunciando que o partido iria reforçar uma política de tolerância-zero em relação ao racismo e ao extremismo. Åkesson argumentava que estes eram “casos excepcionais” no interior de um partido constituído por pessoas “comprometidas, inteligentes e encantadoras”. De acordo com esta carta, algumas maçãs podres estariam a estragar o trabalho sério de todos os outros devotos críticos do Islão e da imigração. Infelizmente para Åkesson, seria dali a menos de um mês que o escândalo dos canos de ferro rebentaria nas notícias, levando a dura realidade a provocar a queda da máscara do partido respeitável. 


Manifestação dos Democratas Suecos em 1991 para comemorar a morte do rei Karl XII, no século XVIII, uma figura que consideram o seu pai fundador. Estas manifestações, nas quais participavam centenas de skinheads bêbados ao lado de fascistas mais velhos, acabam invariavelmente em lutas de rua e violência policial. Suásticas e cumprimentos a Hitler eram espectáculos normais. via Expo

Mesmo antes das eleições de Setembro de 2010, Soran Ismail, um comediante sueco-curdo, postou um vídeo no YouTube em que reclamava que três altos membros dos Democratas Suecos o tinham confrontado agressivamente à porta de um McDonald’s no centro de Estocolmo. Um vídeo gravado num telemóvel mostrava o assessor de imprensa do partido, Erik Almqvist, e os candidatos parlamentares Kent Ekeroth and Christian Westling a atacar e a pontapear um anónimo na estrada, no exterior da cadeia de restaurantes.

Alguns dias depois, Almqvist publicou uma resposta no YouTube em que defendia que ele é que tinha sido a pessoa atacada, alegadamente por “um membro da rede criminosa Original Gangsters”. De acordo com Almqvist, o vídeo de Ismail era apenas um novo exemplo da campanha sem-fim contra os Democratas Suecos. Na semana seguinte, Almqvist e Ekeroth eram eleitos para o parlamento — tornando-se Almqvist o porta-voz para as políticas económicas e Ekeroth o porta-voz para a justiça.

Este episódio seria esquecido pelos media e substituído por uma qualquer nova história não fosse a descoberta de que Ekeroth também tinha filmado o ataque no seu telemóvel. Seja como for, o vídeo foi enviado para o jornal sueco Expressen, que o publicou a 13 de Novembro de 2012 — mais de dois anos depois de o incidente se ter dado.

No vídeo, Erik Almqvist, visivelmente bêbado, é visto a ter uma discussão acesa com Soran Ismail no exterior do McDonald’s. Almqvist diz a Ismail que ele se comportava “como um Paki”. Tornando-se cada vez mais agressivo, avisa-o para “não se meter com os suecos” e acaba por dizer: “a Suécia não é o teu país, é o meu país”. Quando Ismail protesta, Almqvist reclama que ele não teria “razões para ali estar [na Suécia]”. 

Os três Democratas Suecos começam então uma luta com um homem aleatório, que questionava a forma como estavam a tratar Ismail. Quando o homem tenta arrancar o telemóvel a Ekeroth, o trio ataca-o. Almqvist tenta depois pontapear o homem e chama-lhe “amante de Pakis”. 

Na sequência de vídeo seguinte, uma rapariga no exterior do McDonald’s pergunta aos Democratas Suecos porque é que estão a atacar um homem inocente na rua. Almqvist, que recentemente se queixou no parlamento de que os imigrantes chamavam “putas” às raparigas suecas — vira-se para o amigo e diz, “Caga nesta pequena puta”. Ekeroth decide então confrontar outra rapariga na rua, dizendo “posso fazer o que me apetecer” antes de a atirar contra um carro. 

Os Democratas Suecos são vistos depois a apanhar três peças de uns andaimes de uma construção ali ao lado e a encaminharem-se de forma ameaçadora de volta ao McDonald’s. Ekeroth explica que se estão apenas a “defender”. Quando se aproximam e vêem que a polícia prendeu o homem que tinham atacado, deixam cair as peças e Almqvist põe-se a conversar com os polícias. Depois de passar 30 minutos a gritar obscenidades racistas e sexistas, começa de repente a comportar-se decentemente e a responder com educação, dizendo aos polícias que o homem é que o tinha atacado. Depois, Almqvist vira-se para os amigos e diz “é sempre bom ser o olho vigilante”, e os três desaparecem no clarão de uma bonita manhã de Estocolmo. Almqvist ri-se e comenta que tiveram “uma noite do caraças”. Ekeroth, ainda a filmar, diz que “é bom ver que nenhum de nós recuou”. O terceiro membro do grupo, Christian Westling, também dos Democratas Suecos, diz “isto foi engraçado! Que wigger de merda!”  



Topo: Erik Almqvist, ex-porta-voz dos Democratas Suecos para as políticas económicas, chama a um anónimo “amante de Pakis”. Kent Ekeroth, ex-porta-voz para a justiça, filma os acontecimentos no telemóvel. Em baixo: Almqvist, com o ex-candidato dos Democratas Suecos ao parlamento Christian Westling à sua direita, diz a Soran Ismail, comediante sueco-curdo, para “não se meter com os suecos”. Direita: Almqvist e Westling armam-se com peças de andaimes para se “defenderem”.

A publicação do Expressen coincidiu com os quatro golos marcados por Zlatan Ibrahimovic, a maior estrela de futebol da Suécia, contra a Inglaterra durante o jogo de inauguração do novo estádio de Estocolmo. Ibrahimovic nasceu e foi criado em Rosengård, um bairro de imigrantes em Malmö que os Democratas Suecos têm usado como um exemplo da alegada decadência social causada pela imigração. Enquanto Ibrahimovic marca, sozinho, quatro golos, fechando o jogo com um dos mais impressionantes pontapés de bicicleta na história do futebol, os Democratas Suecos convocam uma reunião de emergência, em que decidem afastar Erik Almqvist dos seus cargos de porta-voz no parlamento e no conselho executivo do partido. Kent Ekeroth, no entanto, é castigado com uma “suspensão” temporária. Nenhum dos três envolvidos no incidente foi expulso do partido ou afastado do parlamento.

E eles estarão de volta rapidamente. Com centenas de grupos locais, 6 mil membros e dúzias de publicações online influentes. Os Democratas Suecos não deverão ser afectados a longo-prazo por este escândalo. Ainda assim, a questão relembrou ao povo sueco o flirt do partido com o fascismo.  

Mas infelizmente este problema não está limitado à Suécia. A história dos Democratas Suecos é a história da Europa contemporânea. Na Hungria, a Guarda Húngara do Jobbik (Movimento para uma Hungria Melhor) continua a perseguir judeus e romenos. Na Grécia, o Aurora Dourada ataca deputados e destrói lojas de imigrantes. Em Coccaglio, na Itália, a Liga Norte anunciou um “Natal Branco”, durante o qual a polícia vasculhou bairros inteiros à procura de imigrantes sem documentos. Na Noruega, um apoiante assumido dos Democratas Suecos matou 77 pessoas pelo seu alegado “multiculturalismo”. Neste momento, se os Estados Unidos da América tentam progredir e confrontar o seu passado racista, a Europa parece resvalar para o horrível cocktail de xenofobia e fascismo que se via nos tempos anteriores à II Guerra Mundial.