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Quem substituirá o hipster?

Joe Bish

Joe Bish

Em vez de um único alvo a quem apontar as caçadeiras do desprezo, a sociedade tem agora todo um manancial de diferentes tipos de gente desagradável.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.


A ideia do hipster (como um movimento, uma febre, um meme, ou o que raio tenha sido) deixou de existir. Apesar de as pessoas ainda usarem barba, já ninguém anda com um gira-discos portátil debaixo do braço, a malta deixou de lado os óculos de armação grossa, e meter filtro sépia no post do Instagram está fora de moda. O termo hipster, hoje, é apenas sinónimo de "uma coisa nova que eu não entendo", ou "alguém que faz uma coisa que eu não faço".

Se tu não metes drogas, quem mete é hipster. Se tu não tens um carro eléctrico, quem tem é hipster. Vegan é hipster. Pessoal que é muito fã de carne é hipster. Pessoal de chapéu é hipster para quem não usa chapéu (e que também é hipster).

Posto isto, devemos, pelo menos, guardar um minuto de silêncio por este arquétipo maligno. O hipster era um alvo fácil: pretensioso, mal vestido, iconoclástico, forçado. Era como aquele irmão mais novo que quer atenção, morre de vontade de ser visto e reconhecido, mas, na verdade, faz pouca coisa para justificar esse reconhecimento. Agora, porém, já só existe uma espécie de imensa bola de esgoto composta por vários tipos de idiotas, alguns "tendência", outros não, alguns na Internet, outros na vida real. 

À medida que as pessoas vão ficando irritantes de uma forma absurdamente compartimentalizada, é importante para nós, neste momento de pesar pelo hipster, prever quem merecerá a nossa ira nos próximos meses e anos.

Ilustrações por Alex Jenkins

O CUTESTER

O cutester é, em poucas palavras, o adulto que dá um bocadinho de atenção demais à criança interior. É, aparentemente, uma pessoa chata. Como todos sabemos, a infantilização é uma epidemia que varre a cultura ocidental e não está com ar de esmorecer. Gente grande que compra livros de colorir, vê programas infantis sem ter filhos, frequenta pré-escola para adultos, "Adventure Time", aquela loja de cereais de Londres, bares com flippers, etc, etc.

É essa atitude meio "laissez-faire" de actividade e consumo de media que faz com que agora existam pessoas crescidas com salário e contas para pagar que alugam camas elásticas para a sua festa de aniversário.

O cutester provavelmente não tem muita vida útil fora de Silicon Valley [ou, para todos os efeitos, da Lisboa capital europeia das Start Ups]. Felizmente, pela natureza competitiva deste mundo cão em que vivemos, essas pessoas desaparecerão rapidamente e, com sorte, teremos um grupo a menos de espectadores doentios de "Doctor Who", que acham normal, aos 25 anos, terem peluches de personagens de desenhos animados dos anos 90.

O HEALTH GOTH

Quando a página Health Goth surgiu no Facebook, houve um breve instante em que as pessoas perguntaram: "Será que isto é mesmo a sério?". E a resposta é: de modo geral, sim. A estética health goth (e é tudo uma questão de estética) é baseada num visual desportivo aerodinâmico. Equipamentos de atletismo, casacos corta-vento e sapatilhas de "running". Tudo preto, talvez com um toque de cor e texturas brilhantes, como neopreno e PVC.

Mas será que o HG tem a mesma relevância que os hipsters e os cutesters, isto é, será que têm representatividade suficiente? Bom, não, na verdade, não têm. O health goth é muito de nicho. Não existe na consciência do consumidor. Assim que se transformou num nome, foi imediatamente ultrapassado, tal é a sua natureza de #fashion e #cool. É bem provável que nunca venha a ser realmente aliciante para um público mais amplo, nem mesmo como insulto, porque é demasiado distante de quem não está "por dentro". Deixemo-los para o Tumblr e para os estudantes de arte "genderfluid".

SJW (Social Justice Warrior) / MRA (Men's Rights Activist) / #GamerGater

Gente-raivosa-da-internet é uma opção um bocado insólita, pois parece que esta matilha só existe numa comunidade bizarra e míope, de total auto-obsessão, o que, de certa forma serve para a ideologia hipster, mas de muitas outras formas, não.

Claro que, de lados opostos, todos representam párias culturais, sem os quais o Mundo seria um lugar muito melhor. Mas, para os moderados, são apenas radicais que atiram ao vento disparates incompreensíveis e impenetráveis. Alguém fora da Internet se importa com alguma coisa que estes gajos dizem? Com os hipsters é palpável, têm roupas engraçadas, uma produção artística para consumo, enfim.

Estes palermas são apenas imbecis presunçosos e narcisistas, que agem de má-fé e se recusam a olhar de frente para a sua própria existência vulgar. Não são uma grande febre cultural, mas sim um sintoma confuso de um mundo horrendamente aberto, em que nada é certo ou errado, nem bom ou mau. Foda-se, essa gente não. Não merecem ser os novos hipsters.

O NU-BRO

O nu-bro já deu a volta ao sol de foguetão, passou por onde nenhum homem jamais passará e tornou-se tão evoluído, que acabou exactamente no mesmo lugar em que começou, com um maior sentido de superioridade por gostar das mesmas coisas que toda a gente gosta. 

Sim, é playboy como um clássico fã de Reagan e não perde um jogo de futebol americano todos os domingos, mas compra polos betos no comércio justo e, por isso, sente-se mais ousado. Ouve Taylor Swift e Justin Bieber, mas de uma maneira bem mais profunda que tu. E murmura coisas do género "a melhor forma de subverter o sistema é assimilando-o e desmantelando-o por dentro". Esta malta é tipo turista cultural das merdas de gente comum e são as piores pessoas.

O YUCCIE

Parte do problema do hipster era o que ele representava. Eram homens e mulheres que tinham dinheiro para fazer uma tatuagem de um bigode no dedo indicador, sem se preocuparem se isso lhes causaria problemas na altura de procurar emprego. Gente para quem usar roupa desgrenhada (como alguém em desgraça absoluta num episódio de "Boardwalk Empire") não era uma infeliz necessidade, mas uma escolha privilegiada. Feita por quem, provavelmente, conseguiria fazer carreira a vender leite alternativo, bem mais caro, para idiotas.

Mas isso mudou e, para alguns, embora muitos dos clichés visuais ainda existam (como ter a aparência de um pirata do imaginário infantil), a mentalidade já não é a mesma. A ordem do dia é empreendedorismo, não vagabundismo. É aí que entram os Yuccies, "young urban creatives", ou "jovens urbanos criativos", que ocupam antigas casas de família com outros designers gráficos e publicitários de conteúdos de marcas. É a ideia de um senso mais corporativo de tendência, em que ser "cool" é seres tu próprio, mesmo que isso signifique seres representante de um cliché ultracapitalista e nocivo na sua própria existência. 

Uma vida fácil e próspera, que nem sequer tem aquela leve luta imposta sobre si próprio pelo hipster da última década, quando a pobreza era fixe. No seu lugar está um carreirista incondicional, sem remorso, combinado com o desejo de ser visto como parte da tendência, mas a tendência agora é festa bar-aberto, paga pela Nike. É a divinização do mainstream, irónico ou não. O que nos leva ao...

SINCERO

O momento em que atingimos o auge hipster foi também o momento em que atingimos o auge da ironia. O Sincero acredita que existe muita coisa má no Mundo, então, a única resposta é viver genuinamente e no presente, numa busca constante pela beleza e pela experiência real.

Fotos de corrida no Instagram, #ABENÇOADO, sumo detox, dançar como se ninguém estivesse a ver, sobriedade, discutir ambições sem pudor e falar no blog sobre os próprios sentimentos. A vida dele é uma zona livre de ironias.

Isso não se sustenta, obviamente. Ninguém é perfeito. Uma hora depois a pressão será demasiado forte e a coisa acabará por desmoronar, culminando com a pessoa a esfaquear alguém num ataque de fúria alucinado, como a Natalie Portman em Cisne Negro.

Então é isto. Em vez de ter um único alvo a quem apontar as caçadeiras do desprezo, a sociedade tem agora um manancial de diferentes tipos de gente desagradável. Elas continuam a admirar-se, continuam a ser narcisistas e obcecadas por si próprias, ignorantes, teimosas e a reivindicar um senso de conhecimento cultural transcendental, mas, agora, todas essas "qualidades" estão espalhadas e amplificadas por diferentes tipos de pessoas.

Na minha opinião, o hipster era uma cristalização agradável e dócil dos males modernos da cultura ocidental. Agora que desapareceu e se transformou numa centena de pelotões de idiotas, acho que até sinto um bocadinho a sua falta. Onde é que anda o meu disco de Sunn O)))? Tenho de ir meter som na abertura de uma loja que só vende cestas artesanais de vime biológico.

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