A crítica ia adorar 'Tropas Estelares' se o filme tivesse sido lançado em 2017
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A crítica ia adorar 'Tropas Estelares' se o filme tivesse sido lançado em 2017

Paul Verhoeven sempre foi vanguarda. No seu sci-fi fascista de insetos gigantes de 1997, ele estava exatamente 20 anos à frente.
24 March 2017, 5:43pm

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

Eu tinha 11 anos quando Tropas Estelares foi lançado 20 anos atrás — novo demais para o filme de aventura espacial de censura 18 anos, mas de algum jeito consegui uma fita VHS logo depois que o sci-fi. Tenho certeza que minha mente infantil perdeu a maior parte do subtexto, absorvendo só a ação e a caçada aos insetos. Mas naquela época os críticos também não sabiam o que fazer com o filme, aceitando seu machismo brega e explosões de tripas alienígenas como apenas isso mesmo.

Se fosse lançando hoje, seria difícil não perceber a crítica ao militarismo fascista e xenofobia norte-americanos de Tropas Estelares. Veja o filme mais recente do diretor Paul Verhoeven, Elle, indicado ao Oscar: o exploitation de vingança de estupro de ontem é um filme feminista cabeça hoje.

Em 1997, Roger Ebert me viu como o público ideal de Tropas. Ele sugeriu que "a ação, personagens e valores são voltados para fãs de 11 anos de ficção científica". Ele admitiu que o filme conseguia ter um "senso astuto de sátira", mas também parecia ofendido com seu "militarismo quase fascista". E você tem que se perguntar, o que torna o filme satírico se não sua celebração desmiolada do fascismo?

Ebert não estava sozinho. Janet Maslin, escrevendo para o New York Times em 1997, reclamou que Tropas Estelares "nunca supera sua rotação de 180º de romance adolescente para destruição assassina".

Para ser justo, Tropas Estelares foi vendido como um filme de ação bobo, encorajando esse tipo de reação dos críticos. Mas era muito mais que isso.

No século 23, quando a humanidade aprendeu a superar "o fracasso da democracia", a "Federação" declara guerra a uma raça de insetos espaciais que destruiu Buenos Aires. Acompanhamos principalmente os soldados de infantaria Johnny Rico (Casper Van Dien) e Dizzy (Dina Meyer), junto com a namorada de Johnny, Carmen (Denise Richards), e o colega deles do colégio, Carl (Neil Patrick Harris num pequeno papel pós- Tal Pai, Tal Filho e pré Madrugada Muito Louca).

Algumas partes do diálogo davam uma pista do quanto o filme era irônico — "Os malditos insetos nos derrubaram, Johnny!", "Você mata insetos bem" e "inseto bom é inseto morto" são algumas das principais. Aí temos o figurino. Os mocinhos nem sempre precisam usar chapéu branco, mas os uniformes nazi chiques da Federação não são muito sutis.

Olhando agora, Tropas era estranhamente progressista, até meio profético. Verhoeven era mais conhecido pelo seu distópico RoboCop, feito10 anos antes, e tinha acabado de sair do drama erótico e fiasco de bilheteria igualmente incompreendido Showgirls.

Hum. Sobretudos te lembram alguma coisa?

RoboCop era um filme de ação sujo sobre polícia privatizada e industrialização na Cidade do Motor, e Showgirls mostrava o Sonho Americano como um drama de superação sobre ganhar fama em Las Vegas. Como esses dois filmes, Tropas Estelares era uma crítica afiada aos EUA. Possivelmente a sátira mais ambiciosa dos três. Na superfície, é só outro filme de guerra no espaço, com um bando de vilões bem definidos, uma história romântica meiga e um protagonista agradável.

Mas logo abaixo dessa superfície, você tem vários temas com que ainda é possível se identificar — quase até demais no clima político pós-verdade de hoje, de proibições de viagem, leis para usar banheiros e a ascensão de homenzinhos patéticos que querem tornar o fascismo legal de novo. Verhoeven ridiculariza valores que pouquíssima gente defendia abertamente em 1997, talvez o que explique por que pouca gente entendeu a piada.

O tratamento de Verhoeven de cidadania provavelmente é o primeiro sinal claro de sátira do filme, e seu paralelo mais sombrio com o presente. Logo na primeira cena, assistimos o boletim "Federal News": propaganda para alistar novos soldados para lutar contra os insetos. A propaganda termina com a promessa de que "serviço militar garante a cidadania".

Em cada chamada das notícias, somos lembrados que cidadania é ganha através da aceitação cega dos valores da Federação. E nossos heróis constantemente papagaiam isso. Eles se desafiam, igualando matar insetos a ter o que é preciso para ser um cidadão.

A ideia de usar cidadania como prêmio por submissão ao estado podia parecer pesada nos anos 90, mas com um presidente norte-americano que defende revogar a cidadania de quem queima a bandeira dos EUA, ameaça pessoas com cidadania dupla no exílio, e questiona o princípio básico de cidadania como direito de nascimento, a crítica de Verhoeven é perturbadora hoje.

Seria impossível para qualquer crítico contemporâneos assistir Tropas Estelares agora e ignorar a supremacia branca chegando ao mainstream, Trump e a proibição de viagens para muçulmanos, o Brexit ou a ascensão do "populismo" de direita na Europa — sem falar nas décadas de conflito armado e da necessidade dos EUA de declarar que nações são "livres" depois do 11 de Setembro. Seu tratamento hiperbólico das políticas intergaláticas são reflexivos o suficiente hoje para romper a demão brega e o gore.

Os insetos em si também são um ótimo inimigo. A possibilidade de que eles pensam e sentem é sempre descartada, e quando descobrimos que seu ataque à Terra provavelmente foi uma resposta à agressão humana, Johnny orgulhosamente corta a outra fala dizendo que vai "matar todos" em retaliação. Os humanos têm uma atitude fracamente genocida, enquanto as motivações do inimigo parecem inteiramente defensivas. A guerra poderia ter sido evitada simplesmente deixando os insetos em paz, talvez colonizando outras partes do espaço sideral, ou simplesmente ficando em casa.

Não é segredo que os conflitos do mundo não se materializaram do nada. Os EUA geralmente não representam o mocinho chegando para acabar com uma ameaça completamente estrangeira. O imperialismo norte-americano criou muitos dos inimigos que agora quer bombardear, mas geralmente não vemos isso em declarações da Casa Branca sobre tornar o mundo mais seguro — ou na maioria das coberturas da imprensa.

Riscar o direito dos insetos de se defenderem é uma grande parte da propaganda da Federação. Nos alertas do Federal News, descobrimos quase nada a não ser que todo mundo tem que fazer sua parte para matar o maior número possível de insetos. Com o governo no comando da mídia, os vídeos têm uma função dupla. São material de recrutamento amarrado a notícias falsas para alimentar o apoio à Guerra aos Insetos.

Mas nem tudo é desgraça. Apesar de todo o fascismo, Tropas Estelares também oferece um futuro onde o gênero praticamente não importa. Dizzy é a quarterback do time de futebol americano da escola, e ela e Carmen são mais duronas que seus colegas homens do exército.

Em uma cena particularmente reveladora, os recrutas do exército tomam banhos juntos num vestiário de gênero neutro. Nada é sexualizado, e ninguém se sente fora do lugar. Todo mundo faz piada, provoca um ao outro e demonstra uma camaradagem generalizada. Numa época em que leis de banheiro transfóbicas são difíceis de acompanhar e Trump se sente confiante para justificar assédio sexual no exército como inevitável, a cena é de uma ressonância que teria sido difícil prever.

Tropas Estelares tem a reputação de ser "tão ruim que é bom", mas o filme é autoconsciente demais para não amar em seus próprios termos. Sua mensagem antiguerra, antifascismo e anticolonial está constantemente saltando da superfície e piscando para nós. Depois de 20 anos, ele só ficou mais relevante. Tropas Estelares estava muito à frente de seu tempo, e sofreu com a crítica por causa disso.

Vamos torcer para o filme perder um pouco da sua atualidade logo.

Frederick é um crítico de cinema que mora em Vancouver. Siga o cara no Twitter .

Tradução: Marina Schnoor

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