teatro

Quando for grande quero ser desempregado como o meu pai

Ou a vida na indústria têxtil vimaranense.

Jorge Matos



Há uns anos, o ideal de vida era não fazer nada. Passar os dias de papo para o ar, relaxar, apanhar sol… Afinal, não se paga o ar que se respira, nem o sol, nem o tempo de praia. De repente, tudo mudou já ninguém quer fazer gazeta (neste momento, o Ferris Bueller's Day Off não faria história) e as pessoas querem ter emprego, o que está na moda é ter trabalho. E tal como a moda, trabalhar é uma griffe exclusiva.

É esse o cenário: toda a indústria está em recessão. A têxtil, no Vale do Ave, já foi um dos suportes da economia portuguesa, mas está agora enfraquecida pela importação de produção mais barata, por alterações no regime das taxas europeias e pela diminuição da procura no mercado interno.



Quinta e sexta-feira, dia 15 e 16, temos a peça Everyone Expects to Grow Old, But No One Expects to Get Fired (qualquer cosa como: “toda as pessoas esperam envelhecer, mas ninguém espera ser despedido”) de Sanja Mitrović , que tem início no Centro Cultural Vila Flor, às 21h00, mas que continua na sala da confecção e embalamento da Fábrica Lameirinho. É uma obra em andamento e, para a ver, têm de percorrer o percurso, apanhar um autocarro, de forma a acompanhar o andamento da peça.

Desenvolvido a partir de testemunhos de cinco desempregados da indústria têxtil vimaranense, cinco actores e operários da Fábrica Lameirinho, este projecto reflecte sobre a economia e a psicologia do desemprego, a diferenciação do trabalho e a dramatização da experiência vivida. Este grupo heterogéneo socializou, trocou histórias e comparou pontos de vista sobre a vida, o trabalho e a economia. Assim, sabemos o que é ter ex-colegas, o que é passar os dias a olhar para o vazio, não ter nada para fazer, e raios partam a praia, que não tem piada nenhuma.

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