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DIREITA: No fim dessa estrada fica a fronteira entre os territórios Luo/Talibã e Kikuyu/Mungiki, em Kasarani. Esse foi o cenário de boa parte das ações mais brutais que aconteceram na região após as eleições. No bairro de Ngomongo, em Kasarani, existe um bar chamado Pentagon Pub, que tem um retrato de Odinga pendurado na parede. Embora Kasarani seja uma fortaleza da tribo Kikuyu, esse distrito é dominado pela tribo Luo, de Odinga, que considera os Mungiki selvagens imorais. Atravessei a porta atrás de um grupo de jovens musculosos. Assim que entramos, todo mundo que estava lá parou subitamente, apertou a mão dos meus acompanhantes e saiu imediatamente. Eu estava andando com o Talibã de Ngomongo, e eles eram os donos do lugar. O Talibã nairobiano pode ter tirado seu nome do xará afegão, mas eles estão mais preocupados com a política local do que com doutrina religiosa. Braço que saiu de um grupo extinto conhecido como Garotos de Bagdá, o Talibã é a resposta da tribo Luo ao Mungiki dos Kikuyu e tem perambulado pelas partes mais miseráveis do Quênia há quase uma década. No momento, as atividades que geram renda para o Talibã não são muito diferentes das dos Mungiki: extorsão, desvio e venda ilegal de eletricidade, e muita pancadaria. Eles também são conhecidos pelas execuções públicas, em que o acusado éapedrejado até não poder mais andar, e depois queimado vivo. “Todo mundo já viu alguém queimado, até mesmo crianças. É assim que funciona”, diz Joash Oluande, o líder do Talibã. Oluande, que apesar de seu emprego é cristão renascido, me disse que o Talibã é muito superior aos Mungiki porque a violência do Talibã é de natureza defensiva. “Quando você se torna Mungiki, você pode matar até mesmo sua própria mãe”, diz. “O Talibã luta quando a luta acontece. Apenas defendemos. Coletamos impostos, não forçamos o pagamento.” “O que acontece se um vendedor recusa a taxa mensal de proteção de 200 xelins [cerca de R$ 4]?”
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DIREITA:Stephen Irungu, membro Mungiki, teve a cabeça esmagada pelo Talibã em 2008. Sua casa foi incendiada e sua família fugiu, mas ele ainda é um gângster que não hesita em extorquir qualquer um o máximo possível.A CPI (Corte Penal Internacional) deve anunciar em breve se vai julgar o processo contra os Seis de Ocampo, grupo de políticos quenianos considerados os mentores de grande parte da violência pós-eleitoral. Em audiências de ratificação, o vice-primeiro-ministro Uhuru Kenyatta foi acusado repetidas vezes de ter usado os Mungiki para promover ataques brutais em Nairóbi, Naivasha e Nakuru.Os promotores da CPI estão se esforçando para identificar a ligação entre o crime organizado e os políticos. Claro que será difícil determinar totalmente a verdade, já que as pouquíssimas pessoas dispostas a depor que testemunharam a violência promovida pelos Mungiki acabam desistindo. O possível confronto com a CPI é apenas o mais recente de uma série de esforços feitos pelo governo queniano para finalmente conter os Mungiki. Depois das eleições de 2007, por exemplo, foi iniciada a Operação Ondoa Kwekwe (“Arrancar as Ervas Daninhas”), mas ela lembra mais uma guerra do que uma ação policial legítima. Um enxame de oficiais à paisana se infiltrou em território Mungiki, e o que se seguiu foi uma série de execuções em massa. Um relatório de 2009 da ONU acusou os esquadrões da morte da Kwekwe de matar oito mil jovens Kikuyu durante a operação. Kiraithe não mostrou remorso: “Não é como se você estivesse executando pessoas inocentes. Os Mungiki estavam cometendo muitos homicídios de forma perversa. Não se achava uma pessoa para depor. A operação durou três meses e, na minha opinião, foi muito bem-sucedida”. Apesar de suas táticas, a repressão certamente forçou os Mungiki à clandestinidade. Muitos membros que antes eram facilmente identificados por seus dreadlocks rasparam a cabeça na tentativa de buscar o anonimato. Soldados rasos de infantaria arrumaram empregos comuns para se sustentar, e voltaram para a pobreza massacrante que os levou a se unir aos Mungiki.Alguns gângsters veem a resposta austera dos políticos como traição. James Njuguna, outro membro Mungiki de Mwiki, me disse que as autoridades frequentemente prometem empregos bem remunerados no governo e poder político em troca de sua persuasão violenta sobre os eleitores, e depois se voltam contra eles após das eleições. “Em 2012, vão precisar de nós outra vez”, disse. “Essa é a rotina de toda eleição e depois somos descartados. Estamos cansados dessa rotina.” Mas eles também tomam cuidado para não se expressar em um tom muito enfático. Nenhum dos homens em Mwiki se deixou fotografar sem óculos de sol e boné, e eles se recusaram a falar sobre quem forneceu os uniformes policiais em 2007.Stephen Irungu, outro membro Mungiki, foi gravemente espancado por membros do Talibã enquanto lutava contra eles em 2008. Metade de sua testa foi destruída e suas pernas ficaram completamente estraçalhadas, e ele me disse que os três mil xelins (cerca de R$60) que recebeu do governo não ajudaram muito para cobrir suas despesas médicas. Hoje ele trabalha com o Talibã para prevenir violência no futuro, mas ainda é um Mungiki, ainda é um gângster e ainda está sem dinheiro. Quando ameacei fotografar seu arsenal de armas, fui informada de que teria que pagar uma quantia escandalosa pelas fotos por “questões de segurança”. Em seguida um grupo de homens aparentemente mais jovens e durões se materializou, exigindo dinheiro por entrevistas que eu não queria fazer. Quando tentei ir embora, disseram que eu teria que pagar por isso também.Irungu me explicou de forma direta e simples: “Queremos a paz, queremos que o conflito acabe… Mas, mais do que isso, queremos dinheiro. Essa é uma questão de pobreza mais do que qualquer outra coisa”.