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A 30 dias das Olimpíadas, seguranças do Metrô Rio reprimem jornalistas

Jornalistas, manifestantes e passantes foram agredidos por seguranças do Metrô Rio após ato contra as Olimpíadas.
Foto: Matias Maxx

No dia 5 de julho, a 30 dias do início das Olimpíadas, protestos foram realizados pela manhã e tarde em frente ao edifício da ALERJ, no centro do Rio de Janeiro. Compareci ao ato da tarde intitulado "Calamidade Olímpica", que denunciava as violações de diretos humanos e a crise no estado, que tem um rombo de mais de 20 bilhões e recentemente declarou calamidade pública para conseguir uma verba de emergência de R$ 2,9 bilhões pro evento. Por volta das 16h um grupo de professores grevistas realizou em frente à Câmara dos Deputados do Rio uma quadrilha parodiando a administração Cabral-Pezão. Ao cair da noite, diversos grupos de jovens se uniram ao ato, que ganhou as ruas por volta das 18h com um quórum baixo – menos de 500 pessoas. Como de praxe a marcha foi escoltada por um grupo de policiais, mas circulou na maior paz, sem atritos, dispersando-se no inicio da rua Rio Branco. Me reuni a alguns colegas da imprensa que voltariam para casa de metrô e caminhamos até a estação Uruguaiana. Chegando lá, já nos degraus ouvimos uma gritaria e corremos até as roletas, onde testemunhamos uma confusão entre seguranças do metrô e jovens manifestantes que tentavam realizar um catracaço. Naturalmente sacamos nossas câmeras e começamos a registrar tudo.

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Vídeo: Reprodução Youtube/ Correio da Verdade.

Eis que alguns seguranças deixam de lado os manifestantes e voltam sua atenção para nossas lentes: começaram a tampá-las e golpeá-las, exigindo aos gritos que não os filmássemos. Mediante a negativa da galera passaram a agredir-nos. Em minha carreira fotojornalística já vivenciei diversas cenas de brutalidade policial, mas nunca tinha visto algo tão bárbaro e covarde como a violência que os seguranças da concessionária Metrô Rio perpetraram contra jornalistas, manifestantes e passantes que não tinham nada a ver. A medida que os reforços iam chegando os seguranças atacavam com mata-leão um a um dos jornalistas, que não podiam sequer defender-se, pois estávamos mais preocupados em proteger nosso equipamento e, principalmente, as provas de tamanha covardia e agressão.

Vídeo: José Cicero da Silva/ A Pública.

Eu fui atacado duas vezes. Na primeira por pelo menos três seguranças de uma só vez, que me deram um mata-leão e me largaram quase inconsciente. Após alguns instantes me recuperei, no que fui atacado por outros seguranças que me conduziram até o "aquário" da estação, aonde já estava um colega. Enquanto reforços chegavam de outras estações, os seguranças passavam a atacar e deter não só jornalistas, como manifestantes e até passantes, como uma senhora que supostamente teria aplicado uma gravata no segurança que aplicava uma gravata num manifestante alegadamente menor de idade. Eu já testemunhei várias ações desastrosas perpetradas pelo Batalhão de Choque da PM carioca, mas nunca vi nada tão brutal e amador. Ali não tinha nada de tática, nada de técnica, nada de uso progressivo de força. Havia apenas brutalidade, covardia e principalmente censura.

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Casos de agressões por conta dos seguranças do Metrô Rio não são novidade.

Às vésperas da Copa do Mundo assisti uma palestra do coordenador de segurança do Metrô Rio Pablo Benício, no Seminário de Segurança Pública da LAAD, que tinha como foco os grandes eventos. Ele não conseguia esconder seu entusiasmo ao lado de tantos homens de farda, bigode grosso e patente alta. A cada dois slides da apresentação fazia questão de citar sua carreira militar, seu perfil no Linkedin aponta um Diploma de Colaborador Emérito do Exército, assim como uma medalha do Mérito da Mobilidade Urbana pela Secretaria Municipal de Transportes do município do Rio de Janeiro em reconhecimento ao "esforço gigantesco para garantir a realização das atividades da Jornada Mundial da Juventude em Copacabana" , segundo o secretário. Na mesma googlada descobri também que existe pelo menos uma campanha pelarevogação dessa medalha de mérito. A campanha lançada pelo movimento Meu Rio aponta que "Não somente houve graves problemas com a operação do Metrô durante a Jornada Mundial da Juventude, com interrupção de mais de duas horas no dia 23 de julho, como a população em geral ficou desprovida do serviço, dedicado ao evento da JMJ. A falha inclusive motivou multa aplicada pela AGETRANSP de mais de 1 milhão de reais."

Foto: Katja Schiliro.

Motivos para revogação da tal medalha não faltam, afinal a segurança do Metrô Rio é conhecida por vários casos de truculência documentada, principalmente contra músicos dentro de seus vagões. No dia 14 de agosto de 2015, o músico Carlos Adriano Oliveirafoi socado no rosto, arrastado pelos pés e por pouco não caiu nos trilhos, o episódio fez com que o PROCON autuasse a concessionária. Segundo o órgão "mesmo a conduta do músico sendo irregular, não havia justificativa para uma reação desproporcional e violenta". O Procon destaca que mesmo que o segurança do Metrô tenha sido demitido após a agressão, o fornecedor do serviço é responsável pelos atos dos seus funcionários, de acordo com o Artigo 34 do Código de Defesa do Consumidor. Não foi a primeira nem a última vez que músicos sofreram agressões por seguranças do Metrô Rio. No dia 6 de novembro de 2015, três integrantes do coletivo AME foram expulsos do vagão e agredidos por seguranças que diziam barbaridades como "fumar maconha é amor?". Em outro episódio no mesmo ano, desta vez no dia 18 de março, um músico aparece sendo arrastado escada acima enquanto imobilizado por um mata-leão. Cabe lembrar que o mata-leão é um golpe que pode levar a óbito se utilizado com irresponsabilidade ou incompetência tal qual nos inúmeros registros.

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Na delegacia o jogo virou, pelo menos pra imprensa

Voltando ao lamentável episódio da terça-feira dia 5, enquanto nos mantinham presos dentro do aquário, questionávamos os seguranças porque estavam nos detendo e eles não sabiam dizer. Num determinado momento um dos brutamontes falou algo em "lei anti-terrorista" porque "estávamos tocando o terror". O cara só podia estar fazendo piada, mas não, ele estava desesperado mesmo. Tenho quase certeza que ficar detido numa sala sem acusação configura cárcere privado, aliás, dado o desdobramento do caso, agora eu tenho certeza. Ao todo, três jornalistas — eu, Roger McNaught da Tribuna da Imprensa Sindical e o fotojornalista Ellan Lustosa — fomos detidos, além de outros três manifestantes e uma senhora que não tinha nada a ver com a confusão. Na delegacia fomos defendidos por um timaço de advogados: André Barros (ex-vice presidente da comissão de direitos humanos da OAB-RJ), Carlos Martins (do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos), Erik Torquato (do gabinete do deputado Carlos Minc) e Rodrigo Mondego (do gabinete do deputado federal Wadih Damous).

A senhora que foi posteriormente detida. Foto: Ellan Lustosa.

Ao fim de quase cinco horas na delegacia foram realizadas três distintas ocorrências. Uma delas foi dos jornalistas denunciando o metrô de agressão, e outras duas acusando alguns jovens pegos pulando a catraca e uma senhora. Os catraqueiros foram acusados no artigo 176 do Código Penal, que se chama "outras fraudes". O Dr. Carlos Martins explica que "é um crime que é tido no jargão popular como calote, tipo entrar no restaurante, comer e não pagar a conta, ou pegar um transporte sem ter dinheiro para pagar. Com relação a isso a gente tem a dimensão de que em nenhum momento foi ofertado a essas pessoas que estão sendo acusadas a possibilidade delas pagarem a passagem". A história da senhora, chamada Adriana, alegadamente doente mental, é mais complicada. O Dr. Erik Torquato explica: "ela está aparentemente perturbada, com problemas psiquiátricos. A história dela é meio confusa, mas praticamente narra estar vindo de um dia de trabalho e se envolver na confusão porque viu um menino ser agredido e tentou impedir isso dando uma gravata no segurança. Os seguranças a renderam e a agrediram, e depois disso ela foi colocada junto com todos os garotos que foram detidos. Ela se lembra de perguntarem para ela de uma câmera e ela não sabia de câmera nenhuma, então abriram a bolsa dela e acharam a câmera. Ela então falou que não sabia que aquilo era uma câmera e que era uma coisa que um menino havia pedido para ela guardar. Agora ela está aqui sendo acusada de ter furtado com essa câmera, porém aqui conversando com as pessoas que testemunharam a ação, ficamos sabendo que ela desmaiou durante a ocorrência. Precisamente pelas fotos identificamos no horário de 8:09 da noite ela sendo contida por um dos seguranças e às 8:10 ela está ao chão desmaiada. Não é possível ver a mochila dela nessas fotos. Após retornar desse desmaio é que é localizada a câmera". A senhora foi autuada por "apropriação de coisa achada".

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Matias e a senhora citada. Foto: Ellan Lustosa.

"É necessário que não apenas esses prepostos do metrô como a própria empresa seja responsabilizada, e que a própria empresa tome medidas no sentido de ajustar sua tropa de segurança privada. Os seguranças do metrô infelizmente têm um histórico de truculência. Não é a primeira vez que eles reagem com uso de força desproporcional, imoderada e que não passa por nenhum crivo de controle", diz o Dr. Carlos Martins. Ele também lembra que o metro do Rio, diferentemente do de São Paulo, que é uma empresa pública, é na verdade é uma concessionaria de serviço público, uma empresa privada que presta um serviço de transporte público. Por conta disso seus empregados em uma condição ampla dentro da legislação penal de funcionário público — uma tutela que os guarnece semelhante à de um empregado do Estado. "A vantagem que eles têm efetivamente é a tutela que o direito penal dá a um servidor público. Há determinados crimes que vitima apenas funcionários públicos, como desacato, por exemplo", conclui Dr. Carlos. Ele reforça também que "a liberdade de informação, expressão e opinião é um direito constitucional assegurado. Não existe nenhuma regulamentação que proíba filmar ou fotografar dentro no metrô, e se ela existe, é inconstitucional".

"Tu tava tocando, porra?", diz o legista

Após finalmente termos nossos depoimentos colhidos, eu e meus dois colegas rumamos ao Instituto Médico Legal por volta das 3h para o exame de corpo e delito. Fui o primeiro a ser atendido. Depois de falar que "a esta hora só chega preso ou defunto" e que o "país estava uma merda!", o legista me perguntou "machucou o que?". Respondi que fui agredido por um segurança do metrô, "tu tava tocando, porra?", desabafou o sujeito, em tom de esporro. Respondi que era jornalista e fui agredido por estar gravando a agressão dos seguranças sobre a galera do catracaço. "Mas se pulou a roleta tem que apanhar porra!!" Resolvi entrar no jogo do cara: "é, eles tavam fazendo o trabalho deles, a gente tava fazendo o nosso e fomos agredidos". Ele foi obrigado a concordar. Olhou as marcas nos meus braços e quando eu disse que estava sentindo muita dor na garganta ele respondeu algo como "você acha que eu tenho um otoscópio?".

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Foto: Matias Maxx.

Transtornado, o cara reclamava um monte do governo e disse que estava quebrado, desesperado, não recebia há meses e que não tinha condições de trabalhar pois estava tudo sucateado. Esse foi o testemunho de apenas um dos milhares de servidores públicos do Rio de Janeiro que vivem a situação de falência total. Situação que não é novidade pra ninguém, até o prefeito Eduardo Paes declarou esta semana para a CNNque na questão de segurança o estado estaria fazendo "um trabalho terrível, horrível". No mesmo dia, bombeiros e policiais do Rio de Janeiro ganharam a mídia internacional por realizar, pela segunda vez, um protesto na área de desembarque do aeroporto internacional carregando uma faixa dizendo, em inglês: "Bem-vindo ao inferno, policiais e bombeiros não estão sendo pagos, quem vier ao Rio de Janeiro não estará seguro". Com policiais insatisfeitos, "segurícias" truculentos e ameaça de terrorismo, fica difícil não concordar.

Enquanto a grande imprensa brasileira não se pronuncia sobre a agressão sofrida pelos colegas de profissão, em notas publicadas nas mídias sociais, a Anistia Internacional e a Article 19 condenaram as agressões.

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