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A Coreia do Sul Não Toma Café da Manhã

Ao acordar na Coreia do Sul, dei de cara com uma sinistra cena de déjà vu: os mesmos pratos do jantar estavam na mesa do café. A primeira bocada de kimchi foi um grande choque para meu sistema. E assim foi: arroz, sopa, picles.

Café da manhã na Coreia do Sul. Todas as fotos por Peter Meanwell.

Se você cresceu na Inglaterra, o café da manhã é um evento. Não daquele jeito “Vamos tomar café da manhã!”, em que você imagina aqueles tipos de filme gritando um para o outro num estúdio de cinema movimentado, mas como uma parte profundamente enraizada de nossa composição cultural. Veja, por exemplo, o “full English”, uma obsessão nacional centenária com uma mesa simbólica de café da manhã repleta de bacon, linguiça e peixe defumado. Existe uma razão para eu ter ficado tão envolvido com a London Review of Breakfasts. Nos últimos anos, já apimentei rins, enchi minhas próprias linguiças, fiz laverbread (que é tipo uma gelatina de alga celta) e até forjei morcela com potes de sangue de porco congelado, tudo isso numa tentativa de redefinir os alimentos de café da manhã que tornam o desjejum inglês um evento tão específico. Mas viajar pelo mundo todo colocou essa obsessão ainda mais em destaque para mim; outras pessoas não fazem isso do mesmo jeito que os britânicos fazem. Você pode acordar numa cidade estrangeira, descer as escadas de seu hotel, ainda cambaleando de sono, só para descobrir que café da manhã significa um xícara de café e um cigarro, ou, o que é ainda pior, um bolo qualquer feito sem amor ou ovos em pó requentados; o norte da Albânia está no campo do Jim Jarmusch e a Guiné Equatorial gosta muito de croquetes de batata e peixe fritos. Mas esses lugares não se comparam ao choque de perceber que o café da manhã não existe como conceito na Coreia do Sul.

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Ano passado, depois de 12 horas num avião que partiu de Londres, cheguei à Coreia do Sul para conhecer minha futura sogra. Foi uma sequência de mal-entendidos culturais, muitos sorrisos e um banquete coreano de arroz em tigelas de pedra quente, doenjang jjigae (sopa de soja fermentada), godeungeo gui (cavala grelhada), kimchi e vários namul (acompanhamento de vegetais). Logo aprendi que a comida coreana possui sabores poderosos em seu cerne. O kimchi, o condimento de couve-china apimentado, marca registrada da Coreia e servido em todas as refeições, tem um cheiro tão penetrante que muitas pessoas têm uma geladeira separada só para o kimchi. Abrir um pote desse vegetal fermentado é mais como levar um murro na cara do que apreciar um buquê gentil de aroma temperado.

Uma tigela de kimchi.

Na manhã seguinte, depois de ser pego de jeito pelo jet lag, alguém bateu em minha porta, sinalizando que era hora de levantar e comer o que eu achei que fosse o café da manhã. Desci as escadas e dei de cara com uma sinistra cena de déjà vu: os mesmos pratos do jantar estavam disposto na mesa do café. A primeira bocada de kimchi no café da manhã foi um grande choque para meu sistema. E assim foi: arroz, sopa, picles, uma tigela fumegante de macarrão guksu e sopa de broto de feijão. Não entendi muito bem o que era ou não permitido na mesa de café da manhã coreano, ou se havia qualquer diferença entre isso e o jantar.

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Pesquisei um pouco e aprendi os costumes alimentares coreanos – em especial a rotina do café da manhã – que vem lá do século XIV, quando o rei e a rainha da dinastia Joseon comiam duas grandes refeições quase idênticas, conhecidas como sura, por dia, às 10 da manhã e às cinco da tarde. Há registro de uma sopa de sangue de boi e vegetais chamada haejangguk – servida hoje como cura para a ressaca – que os nobres consumiam ao primeiro badalar dos sinos a cada dia. Comecei a imaginar se isso fazia parte de um processo global: com as sociedades evoluindo e se tornando economicamente mais justas, as tradições extravagantes das classes superiores – como alimentos requintados pela manhã – são adotadas de alguma maneira pela classe média crescente. Assim como o popular prato inglês de bacon e ovos é descendente dos opulentos cardápios de café da manhã das casas de campo vitorianas, talvez as tradições de refeição matinal da antiga nobreza coreana tenham definido as tradições culinárias modernas do país.

Mulheres preparam kimbap.

E, claro, se em pleno século XXI as pessoas conseguem ganhar a vida vendendo picles de couve fermentada e sopa de sangue de boi em horas ímpias da manhã, então essa é a verdadeira cara do café da manhã coreano. Decidi visitar um restaurante sebento logo cedo e ele já estava repleto de homens de negócio e estudantes. “Kimbap” significa, literalmente, alga e arroz, e isso é o irmão gêmeo do sushi, mas sem o peixe cru. Esse prato é tipicamente composto com um pouco de presunto, ovos, rabanete em conserva, espinafre cozido e peixe processado, tudo enrolado com alga, arroz e pincelado com óleo de gergelim; então, ele é servido com mais kimchi e algumas fatias crocantes de rabanete em conserva. Esse tipo de lugar costuma ficar aberto 24 horas, o que significa que o kimbap serve como café da manhã. Mas você não precisa se limitar a isso: há também caldos picantes feitos com kimchi e tofu, sundubu jigae ou doenjang (o missô coreano), além de astteokguk, um sopa de bolinhos de arroz borrachudos.

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O Handongkwan é um restaurante de dois andares e fachada de madeira no movimentado distrito de compras de Myeongdong, onde eles servem um prato, um consomé chamado gomtang, há mais de 70 anos. Mesmo de manhã, a fila é grande. A rabada coreana é bastante cozida e o resultado é um caldo clarificado servido em tigelas de bronze, com arroz ao fundo e pedaços finos de bife e bucho por cima. O prato é decorado com uma porção generosa de cebolinha e sal, e é acompanhado por kimchi kkakdugi (feito com cubos de rabanete no lugar da couve). Lembra um pho vietnamita, mas sem as ervas fragrantes. O gosto morno da gordura da carne persiste pelo resto do dia.

Do outro lado da cidade, no mercado tradicional mais antigo da Coreia, as barraquinhas de comida ficam lotadas logo cedo. Entre os corredores cheios, mais de 100 barracas de comida estão dispostas como os raios de uma roda de bicicleta, cada uma com um sabor diferente. Umas servem bindaetteok, uma panqueca de farinha de feijão verde do tamanho de um prato e de cerca de um centímetro de espessura. Essas panquecas são crocantes, levam muito alho e são servidas com um molho apimentado para mergulhar os pedaços. Em outro corredor, as barracas são enfeitadas com cachos de sundae, um chouriço grosso recheado com macarrão, e piscinas de molho chilli bem vermelho cravejado com bolinhos de arroz borrachudos, o tteokbokki, o favorito das crianças. Há muitas pilhas de pés e orelhas de porco, além de fígado e pulmão, prontos para serem fatiados e servidos com sal; torres de mini kimbap e tigelas fumegantes de guksu, macarrão caseiro com sopa de peixe acompanhada com salgados recheados com kimchi.

Quanto mais você come, mais você percebe que, desde que seja uma coisa que você possa comprar pela manhã – seja cozido de carne, bolinho de arroz, chouriço ou sopa de macarrão – é possível chamar isso de café da manhã na Coreia. Em meu último dia na cidade, topei com uma fusão de comida de rua que se encaixaria na visão inglesa de café da manhã. O tost-u é a versão coreana do pão com ovo ocidental. Numa chapa, um ovo é mexido com pedaços de cenoura, depois enrolado numa fatia de pão frito com açúcar mascavo e ketchup. Tinha certo apelo de café da manhã, mas depois de duas semanas comendo isso sem parar, ele perdia a graça em comparação à riqueza dos outros pratos pungentes, apimentados e corajosos que você pode consumir nas manhãs da Coreia, a terra onde o café da manhã é mais uma hora do dia do que um tipo específico de cozinha.

Peter Meanwell é o coautor do livro The Breakfast Bible.