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U(i)stra Brilha Muito (Nem)

Começou hoje, por volta das 14h30, o início da audiência das testemunhas de acusação do segundo processo que a família do jornalista Luiz Eduardo Merlino move contra o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra.
29.7.11
ustra torturador

Começou hoje, por volta das 14h30, o início da audiência das testemunhas de acusação do segundo processo que a família do jornalista Luiz Eduardo Merlino move contra o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra (já declarado torturador em ação judicial anterior). O purpurinoso é acusado de ser o responsável por algumas tantas mortes e torturas durante a Ditadura Militar, inclusive o do presente em espírito quando tinha 23 anos, durante a época que chefiou o DOI-Codi na rua Tutóia (por volta dos anos 1969-1974, vulgo governo Médici, aka CHUMBO MEU AMIGO). Militante do POC (Partido Operário Comunista), Merlino teria sido levado pra lá em julho de 1971 e morrido alguns dias depois, como já contou sua sobrinha. Versão oficial: se suicidou atirando-se embaixo de um caminhão na BR-116.

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Só que pela Lei da Anistia, militares torturadores não podem ser condenados criminalmente, daí o caráter cível do processo -- a luta é por indenização por danos morais. Enfim, cheguei um pouco depois das 14h à praça João Mendes, no centro, mesmo a imprensa estando vetada de acompanhar a audiência. É que ontem anunciaram manifestações em frente ao Fórum, então era uma ótima chance pra aproveitar e comer um churrasco grego. Até a hora em que fui embora, lá pelas 15h30, o pirilamposo ainda não tinha chegado, só algumas testemunhas. José Sarney, que testemunharia a favor do Ustra, também não apareceu. Fiquei sabendo depois que ele se manifestará através de uma "carta precatória", se o fizer e independente de que porra for uma carta precatória. Até o fechamento deste post, os relatos ainda estavam sendo ouvidos. Enquanto isso, aproveitei pra curtir com militantes:

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Não tenho muita noção de multidão, mas acredito que pelo menos umas 150 pessoas se fizeram presentes.

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Moça do coletivo Quem que preferiu não se identificar.

Quem são vocês?
Coletivo Quem: A gente não tá dando nomes individuais, estamos dando mais ênfase para o movimento. Queremos tirar totalmente a atenção para o nome das pessoas. Esse grupo foi uma mobilização meio que espontânea. A gente estuda Filosofia, somos bastante envolvidos com questões políticas e tal. Na verdade é a retomada de uma intervenção estética do Cildo Meireles na época da Ditadura. Ele começou a carimbar as notas de dinheiro com o escrito "Quem Matou Vladimir Herzog?". Aí, falando dessa ideia, pensamos em fazer "Quem Torturou Dilma Roussef?". Aí a gente começou a fazer isso. Foi esse ano. A gente entra no movimento pela criação da Comissão da Verdade, no entanto a gente tem uma postura um pouco diferente em relação a maioria das pessoas, da militância, que consiste basicamente em dizer que a violação dos direitos humanos não pode se sobrepor à questão principal, que era uma questão política--uma questão de luta de classes, econômica. Que foi o que motivou tudo o que aconteceu na América Latina. Então a gente tenta retomar um pouco a politização desses discursos. É interessante ver como a discussão dos direitos humanos vieram de certo modo pra silenciar a discussão política.

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Quantas pessoas vocês têm envolvidas?
Essa é uma resposta que a gente decidiu não responder.

OK. E o que vocês acham que vai acontecer aqui hoje?
Hoje as testemunhas de acusação vão ser ouvidas. As de defesa não são hoje, vão ser por carta precatória, e o Sarney ontem avisou pela assessoria que talvez não deponha… Bom, enfim, não tenho noção do que vai ocorrer.

Vocês tiveram parentes torturados ou desaparecidos?
Não. Absolutamente nada.

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Aqui a moça do coletivo Quem que preferiu não se identificar serviu de molde para um desenho humanoide. Militantes adoram deitar.

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José Amélio, 60

José Amélio: Quem é Merlino?
Moça do coletivo Quem que preferiu não se identificar: Foi um jornalista assassinado durante a Ditadura. Hoje é uma audiência com o torturador dele.

VICE: Oi. O que veio fazer aqui?
José: Eu vim ao Fórum.

Ouvi você perguntando pra ela quem era o Merlino. Ela te explicou?
Um jornalista que foi morto na Ditadura, né?

É. E hoje é a audiência com o coronel que na época chefiava o DOI-Codi, onde ele ficou preso.
Quando que foi isso?

A morte dele? Em 1971.
E só agora vai ser a audiência?

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Denise, 25

Oi. Posso tirar uma foto?
Denise: Claro!

Você tá aqui por que, exatamente?
Meu trabalho de monografia tá ligado às guerrilhas armadas, e a gente recebeu um convite pra estar aqui hoje no julgamento do Ustra. Daí aproveitei e trouxe minha aluna.

Ah, você dá aula?
Dou. Sou formada em História e Sociologia. Hoje faço mestrado.

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Acha que vai conseguir assistir à audiência?
Não, não vai dar. Essas coisas são sempre fechadas e feitas por debaixo do pano.

Vai ficar aqui até acabar?
Até acabar.

Você teve parentes envolvidos com guerrilhas?
Não. Só amigos. Bem mais velhos, claro.

E por que resolveu estudar esse tema?
Quando conheci a Sociologia tive o primeiro contato com as pessoas que participaram de guerrilhas armadas. Aí me associei ao Anarquismo e acabei entrando pra essa de guerrilha armada, e caí pra Ditadura dessa maneira.

Que louco!

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Bruna, 15

VICE: Você é a aluna dela, então. Por que passou a se interessar por isso com 15 anos de idade?
Bruna: É o meu país, né? É a história dele.

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Osmar Azevedo, 32

VICE: Faz quanto tempo que você tá segurando essa faixa aí?
Osmar: 20 minutos.

Ah, é pouco.
Pela causa ficaria segurando dois dias.

Teve algum parente ou conhecido torturado ou morto pela Ditadura?
Na verdade a minha família é militar.

Sua família é militar?!
Era. Já perdi meus pais. No meu município [Uruguaiana] se formou a Operação Condor. Eu fui criado com isso, estudei em colégio militar. Tenho toda essa formação aí, e de repente comecei a questionar essa atitude. É um choque, né, ver que foi tanta coisa errada, mesmo tendo acontecido dentro da sua própria casa. Mas não quero saber que sobrevivi daquela grana, que meu pai só tinha emprego porque tinha que correr atrás de alguém que, se dizia na época, 'subversivo'. Então é uma forma de tentar amenizar a dor que a minha família causou pra muita gente, estando aqui. Me articulando pra protestar.

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Você culpa seu pai por isso?
São escolhas que a gente faz, né? Acho que, sim, culpo. Ele teve uma escolha. Ele recebia ordens, ganhava uma grana, mas não precisava ter cumprido essas ordens. Acho que ninguém é pago pra torturar ou tirar a vida de alguém.

E você tem alguma certeza de que ele tenha torturado alguém?
Fazia parte, né? Não sei se ele, mas eles.

Se de repente os documentos da época vierem à tona sua família vai aparecer, então?
Vai aparecer um dia, né?

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Nelson, 17

VICE: Sabe o que tá acontecendo aqui?
Nelson: Sim!

E você veio…
Eu sou contra esse ditador desgraçado, véio.

Mas você é de algum grupo de militância?
Eu sou anarquista, véio.

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Paula, 24, professora da rede pública ("São 30 anos / sem Ditadura / e a Impunidade / ainda continua!")

VICE: Eu vi você gritando no megafone. Teve algum parente torturado ou morto?
Paula [gritando (a conversa começou ao lado da caixa de som)]: Por incrível que pareça eu tenho um primo que morreu na guerrilha do Araguaia, mas não é por isso que tô aqui.

Tá aqui por quê, então?
[Ainda gritando] Tô aqui porque a gente precisa lutar pela punição de todos os torturadores, pela abertura dos arquivos… Eu sou de uma organização trotskista, mas a gente tá aqui se unindo a outros setores pra uma discussão muito mais ampla que só a minha organização. É uma bandeira democrática pro nosso país. Se for comparar com a Argentina, por exemplo, e o Chile, eles têm coisas mais avançadas nesse quesito. Ah, vamos mais pra lá, aqui tá muito alto.

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[Fomos pra um lugar mais quieto] E qual chance você acha que ele tem de ser punido?
Ah, eu acho muito pequena.

E qual era o nome do seu primo, mesmo?
Ruy Berbert. Acho que era com 'y'. Alguns diretórios acadêmicos do interior agora têm o nome dele.

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Vanderli, 44, engraxate

VICE: Tá bem movimentado o negócio hoje?
Vanderli: Que nada! Começam a fazer barulho aqui e todo mundo some. Tô aqui faz 25 anos e é sempre assim. Já teve coisa contra o Kassab e tal, é sempre assim… Tem barulho, o pessoal foge.

Já te falaram que você parece o George W. Bush, ex-presidente dos EUA?
Não [risos].

Então seus antecessores não sabiam nada sobre a operação Condor?

Valeu, bom trabalho.

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Se você quer saber quem é esse (importante) sujeito, ligue a TV no seu canal predileto.

TEXTO, ENTREVISTAS E FOTOS POR BRUNO B. SORAGGI