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Coluna do Greg Palast

O Drone Ranger: As Guerras Sujas de Obama

Greg Palast diz que toda terça-feira o presidente Obama verifica pessoalmente os nomes das pessoas que ele quer mortas
21.8.13

Greg Palast é um autor de best-sellers lançados pelo New York Times e um destemido repórter investigativo que trabalha para a BBC Television, a Newsnight e o The Guardian. Palast mastiga e cospe os ricos. Veja suas matérias e filmes em www.GregPalast.com, para onde você também pode mandar aqueles seus documentos carimbados como “confidenciais”.

Na época em que Barack Obama ordenou o ataque de drone que matou Abdul-Rahman al-Awlaki, o garoto americano de 16 anos postou seus artistas favoritos de hip hop de segunda categoria no Facebook. Eu digo “segunda categoria” porque Abdul tinha a idade de meu filho, quase exatamente, e sei o tipo de lixo que ele escuta.

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Toda terça-feira, o presidente Obama verifica pessoalmente os nomes das pessoas que ele quer mortas. George Bush, um pouco mais melindroso que Obama, nunca fez isso; mas o Sr. Obama sentia que essas decisões eram responsabilidade do presidente: ele “quer manter seu próprio dedo no gatilho”, de acordo com certo relatório. Como é um homem organizado e programado, o presidente só escolhe suas vítimas uma vez por semana, num dia chamado agora de “Terça do Terror”.

No dia 14 de outubro de 2011, Abdul saiu com seus primos e amigos para um bom e velho churrasco ao estilo americano quando o drone de Obama disparou o foguete e explodiu o garoto em pedaços. Ou eu deveria dizer “pedaço”, pois tudo o que sobrou de Abdul foi uma parte do crânio com cabelo encaracolado comprido, o que permitiu que seus parentes identificassem o pedaço da cabeça por seu corte de cabelo típico americano.

Obama não ordenou as mortes (amigos e primos de Abdul morreram também) como um ato aleatório e sem noção. Obama Sem Drama não acredita em aleatoriedade. O problema de Abdul era seu pai, Anwar al-Awlaki. Obama também matou o pai de Abdul. Al-Awlaki Pai, um imã americano que votou em George Bush, mas que tinha passado para o lado dos caras maus. E, depois de sair dos Estados Unidos, ele transmitia um programa de rádio pró-terrorismo na Arábia.

Soldados da 25º Brigada Mecanizada próximos das linhas de frente de Zinjibar, Iêmen. (Foto cortesia de Richard Rowley e Big Noise Films.)

Podemos discutir eternamente se al-Awlaki Pai era ou não um alvo legítimo. Afinal de contas, isso está lá, bem na Constituição dos Estados Unidos: a pena para traição é a morte. Mas acho que, antes de executar o cara, um julgamento teria sido uma boa. Mas isso não vai acontecer. OK então, Barack, essa a gente deixa passar.

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Mas e o filho de 16 anos do cara? Obama sequer tentou fingir que o garoto era um terrorista, ou um terrorista em treinamento, nem que ele tivesse adotado de qualquer maneira que fosse a louca cruzada antiamericana do pai.

O que poderia justificar, então, a execução de Abdul? O porta-voz da Casa Branca na época, Robert Gibbs, respondeu a essa pergunta assim: “Eu sugeriria que ele tivesse um pai mais responsável”.

Acho que sim, né?!

Os minions de Obama tentaram encobrir o ataque ao adolescente. O procurador geral Eric Holder informou o Congresso das mortes escrevendo que os drones tinham explodido Anwar al-Awlaki, o clérigo louco e três outros americanos que “não eram especificamente alvos”.

O comentário de Holder fez parecer que o filho de Awlaki tinha explodido com ele – um caso triste de “efeito colateral”.

Mas, você está pronto para isso? O adolescente – juntamente com seus primos e amigos – foi morto duas semanas depois e a centenas de quilômetros de distância de onde os foguetes mataram seu pai.

Trailer do documentário de Richard Rowley,

Dirty Wars.

O Talibã de Obama

Quem me colocou a par dos fatos foi Richard Rowley, o repórter investigativo mais corajoso dos Estados Unidos. Rowley filmou, dirigiu e editou o documentário brilhante, horrível e brilhantemente horrível Dirty Wars, que estreou há alguns meses nos Estados Unidos.

O filme está centrado no parceiro de Rowley, o incansável Jeremy Scahill, que Rowley segue de uma cena de massacre, até uma festa de casamento no Afeganistão e até uma entrevista com um barão da guerra em Mogadíscio (sob o fogo cruzado de snipers).

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Talvez você conheça Rowley como Ricardo, o cinegrafista patologicamente calmo retratado no meu livro Vultures' Picnic. No Iraque, Rowley cobriu o ataque do exército americano a Falluja, “infiltrado” com os insurgentes que estavam sendo atacados. Isso foi loucura. Mas uma loucura brilhante. (Nosso produtor da BBC avisou Ricardo que ele tinha a sorte de um gato, mas que já tinha usado cinco de suas sete vidas.)

Em Dirty Wars, Rowley e Scahill revelam que os drones são apenas um dos brinquedos do arsenal do presidente Obama. E que a lista de mortes é bem maior do que mesmo um cara esperto como Obama pode verificar numa única terça-feira. Scahill calcula que os alvos mortos no Afeganistão e Paquistão totalizam agora mais de 17 mil pessoas!

Mas os drones não podem matar todo mundo. Em 2009, um míssil de cruzeiro norte-americano atingiu Majala, uma vila remota de beduínos no Iêmen, matando dezenas de pastores e três bebês. O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, se responsabilizou pelo ataque, orgulhoso por matar supostos “terroristas”.

No entanto, um destemido repórter do Iêmen, Abdulelah Haider Shaye, visitou o local da explosão e fotografou os restos do míssil norte-americano – e foi quase preso imediatamente.

Os Estados Unidos estão particularmente tímidos quando o assunto é assumir o crédito pelas mortes provocadas pelo míssil, já que isso impulsionou o recrutamento da al-Qaeda no Iêmen.

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Rowley e Scahill são os únicos repórteres norte-americanos que foram até o vilarejo beduíno filmar os destroços do míssil; evidências que confirmavam que os Estados Unidos tinham entrado numa guerra sem qualquer declaração legal – na verdade, em completo segredo.

Scahill também revelou que, enquanto o presidente do Iêmen estava nervoso por manter o repórter preso, Saleh retirou o perdão que já tinha concedido ao jornalista a pedido pessoal de Barack Obama. Obama não queria o repórter apenas silenciado, ele o queria punido.

WikiLeaks: Limpando as Guerras Sujas?

Fiquei curioso: Scahill e Rowley tinham usado o WikiLeaks?

“O WikiLeaks é absolutamente indispensável”, Rowley me contou – é um baú do tesouro de confissões do Departamento de Estado confirmando o que eles acharam no local. Foi por meio do WikiLeaks que eles descobriram que o presidente Saleh brincou com os agentes norte-americanos sobre mentir para seu Congresso sobre o míssil americano de Majala.

Jeremy Scahill, o repórter de Dirty Wars, com o barão da guerra somali “General” Indha Adde, também conhecido como “Olhos Brancos”. (Foto cortesia de Richard Rowley e Big Noise Films.)

E foi no WikiLeaks que Scahill descobriu que o barão da guerra Indha Adde – também chamado de “Olhos Brancos” – estava na lista de pagamento dos Estados Unidos. Eu deveria dizer General Olhos Brancos – uma patente que ele deu a si mesmo no Exército Somali simplesmente pendurando três estrelas no casaco. E onde foi que os militares norte-americanos acharam esse assassino? Anteriormente, os contatos do WikiLeaks tinham revelado que os Estados Unidos sabiam que ele era o protetor dos terroristas da al-Qaeda que explodiram a embaixada americana em Nairóbi.

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Rowley registrou em vídeo o “general” dizendo: “Os Estados Unidos são os mestres na guerra” – um grande elogio vindo de um matador por natureza como Olhos Brancos.

E o General “Olhos” está certo. A guerra secreta de Obama agora se espalha por 75 nações. Tudo sob o comando do General William H. McRaven.

A imprensa norte-americana morre de amores por McRaven, elogiando sempre o homem que planejou o ataque ao esconderijo de Osama bin Laden. Mas não há uma única rede de notícias nos Estados Unidos que relate essa descoberta de Scahill: McRaven também foi o cara que planejou o ataque noturno a uma festa de casamento no Afeganistão na qual a noiva, o noivo e a mãe do noivo morreram.

Talvez tenha sido só um engano terrível. Mas a equipe de McRaven, chamada de “O Talibã Americano” pelos afegãos, certificou-se de que ninguém ia apontar o dedo para os Estados Unidos: Rowley e Scahill conseguiram um vídeo filmado secretamente que mostra os soldados de McRaven cortando as balas dos corpos da noiva e do noivo para evitar que os verdadeiros assassinos fossem identificados.

O exército semiparticular de McRaven, o Joint Special Operation Command (Comando de Operações Especiais Conjuntas), está em guerra em nome dos Estados Unidos com 75 nações – ele não dirá quais são e o Obama pode prender quem disser. Nem Orwell teria sonhado com essa.

Perguntei sobre o valor do WikiLeaks a Rowley e Scahill por causa do julgamento recente do Cabo Bradley Manning e a caçada a Edward Snowden, o cara disposto a explodir sua carreira e liberdade para que você ficasse sabendo que o Obama Legal está te espionando.

O cineasta e cinegrafista premiado de Dirty Wars, Richard Rowley.

Um rabino de Nazaré disse uma vez: “E a verdade vós libertará”. E é exatamente disso que o Obama tem medo: ao encarar as verdades reveladas em Dirty Wars, ele sabe que a maioria dos norte-americanos vai se libertar de McRaven e seu Talibã Americano.

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Tenho certeza de que o ataque ao filho de al-Awlaki visava ensinar uma lição; se você quer ser um mártir, vamos fazer de seu filho, sua mãe e sua filha mártires também.

Esse “olho por olho, terror por terror” pode ser efetivo, admito. Durante os anos de Ronald Reagan, o presidente cowboy fajuto e sem colhões, mandou armas para o Aiatolá Khomeini em troca da libertação de reféns presos pelo Hezbollah. Os russos trouxeram seus reféns para casa de outra maneira. A União Soviética não aceitou o negócio de armas por reféns. Em vez disso, a KGB assassinou sistematicamente os primos, mães e irmãos dos sequestradores um a um – até que o Hezbollah libertasse os reféns russos.

Ao explodir os filhos daqueles que tememos, estamos realmente ensinando a eles uma lição. Mas será que eles estão aprendendo?

Ano que vem, Malia Obama faz 16 anos. Esperamos nunca ouvir a notícia de que Malia foi ferida enquanto um porta-voz da al-Qaeda diz rindo: “Ela devia ter um pai mais responsável”.

Os filmes de Greg Palast com Richard “Ricardo” Rowley para a BBC Television e Democracy Now! estão disponíveis no DVD “Palast Investigates: From 8-Mile to the Amazon – On the Trail of Financial Marauders”. Esta semana, você pode baixar o filme gratuitamente aqui, do Palast Investigative Fund.

Se você está no Canadá ou Estados Unidos, clique aqui para saber os locais de exibição de Dirty Wars. E clique aqui para ler a história de Ricardo em Vultures' Picnic.

Siga o Greg no Twitter: @Greg_Palast

Anteriormente –  China e Estados Unidos em Guerra Nuclear no Afeganistão