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O Maior Festival de Cinema da África Não Tem Medo de Jihad

O público ri das partes mais incomuns dos filmes e, ao invés de ser acotovelado por publicitários impacientes no balcão do bar do evento, você pode passar as noites bebendo na rua com refugiados da guerra em Mali — uma experiência muito diferente de...

O tapete vermelho do Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Ouagadougou.

Enquanto tropas francesas matavam islâmicos em Mali no mês passado, milhares de fãs do cinema se reuniram no vizinho Burkina Faso para celebrar o melhor da cinematografia africana. Participar do maior festival de cinema da África é uma experiência singular. O público ri das partes mais incomuns dos filmes e, ao invés de ser acotovelado por publicitários impacientes no balcão do bar do evento, você pode passar as noites bebendo na rua com refugiados da guerra de Mali — uma experiência muito diferente de como eu imagino que seja Cannes ou Tribeca.

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Realizar um festival de cinema pode parecer uma prioridade estranha para um país no qual a metade da população tem menos de 15 anos, mais de 40% vive abaixo da linha da pobreza e a alta dos preços dos alimentos causou rebeliões em anos recentes, mas o Festival Pan-africano de Cinema e Televisão de Ougadougou (FESPACO) é o maior evento cultural de Burkina Faso. E isso também atrai um turismo vital para a economia da área.

O festival acontece desde 1969, mas eles ainda estão tentando ajeitar as coisas direitinho. Chegar ao escritório dos organizadores e descobrir que ninguém se preocupou em imprimir nossos passes de imprensa e ver que o prédio de exibições ao lado havia se incendiado não inspirou muita confiança. E lidar com a burocracia africana em francês só complica ainda mais as coisas.

A cerimônia de abertura.

Na cerimônia de abertura, o Stade du 4-Août, com capacidade para 35 mil pessoas, estava lotado de locais e até o presidente fez uma aparição só para provar como o povo de Burkina Faso leva a sério seus festivais de cinema. Consegui passar pela entrada errada e me vi no meio do campo entre um monte de artistas e um esquadrão de policiais carrancudos que não pareciam muito felizes em me ver ali perdido. Uma das cerimônias anteriores foi arruinada quando duas pessoas morreram pisoteadas num tumulto, o que talvez explique a relutância deles em ser simpáticos.

Durante o dia, a temperatura sobe até os 38 graus, o que, vamos admitir, não é o clima ideal para uma aparição no tapete vermelho. Sendo assim, as maiores exibições acontecem durante a noite, quando está um pouco mais fresco e você pode andar pelo tapete (esticado do lado de um esgoto a céu aberto) para dentro do Ciné Burkina sem suar litros.

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Vi filmes do Haiti, da Tunísia e da África do Sul, mas a próspera indústria nigeriana de Nollywood pareceu ter sido completamente desprezada. Um especialista em cinema africano me explicou que os filmes de orçamento baixo e roteiro tosco da Nigéria não são considerados propriamente cinema e, com grande parte do financiamento vindo da França, o foco de Burkina Faso é a “arte”. O que significa filmes quase exclusivamente em francês, claro.

Todos os melhores filmes já tinham sido exibidos em outros lugares, como o senegalês O Barco da Esperança, que conta a jornada trágica de 31 imigrantes viajando para a Europa. Para as pessoas que estavam no cinema, as cenas aonde os homens começavam a chorar aparentemente tinham uma profundidade cômica que eu não consegui captar muito bem, porque todo mundo em volta não conseguia parar de rir. Uma menção à crise financeira europeia também arrancou risadas e, até aonde eu pude perceber, rir durante as cenas de sexo é obrigatório.

Um refugiado malinês e sua espada enorme.

Enquanto estávamos no cinema rindo da desgraça alheia, uma guerra estava (e ainda está) acontecendo entre a al-Qaeda e o Magreb islâmico, logo do outro lado da fronteira com Mali. Mais de 40 mil refugiados já fugiram para Burkina Faso e não é difícil percebê-los andando pelas ruas de Ouagadougou, onde suas túnicas tuaregues se distinguem no meio do povo local.

Tomando uma bebida comigo, um refugiado me explicou que fugiu a pé com a família de oito pessoas depois que os militares franceses invadiram Gao, uma cidade ao sul de Mali. Depois de viajar centenas de quilômetros andando, hoje ele vive do lado de fora de um campo de refugiados com sua família e tenta sobreviver vendendo adagas lindamente trabalhadas. Sacando sua enorme espada no café onde estávamos — o que não fez ninguém nem piscar —, ele explicou que os islâmicos que querem tomar o controle de certas partes de Mali não são bem-vindos, mas que a chegada das tropas francesas só piorou tudo. “A al-Qaeda com suas barrigonas e barbas compridas não são boa coisa. Mas quando os militares franceses vieram, as pessoas começaram a morrer.”

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Desde a fuga de seu país, muitos tuaregues têm tido problemas em se adaptar com os campos de refugiados uniformes da ONU, erguidos nas proximidades das fronteiras entre Mali e Burkina Faso. Tuaregues costumam viver em pequenas comunidades, então eles pegam as barracas que recebem e criam pequenas vilas separadas e afastadas. Mesmo dentro da capital, os refugiados malineses — que são bem recebidos pela maioria dos burquineses — parecem não querer viver nos campos.

Os refugiados que saem de Mali apoiam o MNLA, um grupo rebelde tuaregue que inicialmente era aliado da al-Qaeda em algumas partes de Mali, mas que acabou se voltando contra ela. O MNLA foi formado por tuaregues que retornaram da Líbia, onde alguns foram pagos para lutar por Gaddafi. O ex-líder líbio continua sendo uma figura popular entre muitos africanos ocidentais — postos de gasolina líbios podem ser encontrados por toda Burkina Faso, e não é difícil ver táxis e motos com adesivos de um sorridente Muammar.

Joseph é um jovem burquinense que estudava em Tombuctu quando Ansar Dine tomou o poder em abril passado e implementou a charia — cobrindo as mulheres, apedrejando adúlteros e destruindo antigos santuários. Joseph aguentou as leis islâmicas por um ano, mas partiu depois da chegada dos militares franceses. Ele explicou que acredita que a invasão tinha que acontecer, mas reclamou que as tropas francesas entraram na cidade sem nenhuma preocupação com a segurança dos residentes.

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Enquanto bebia uma enorme garrafa de cerveja, ele me explicou que a interpretação que a al-Qaeda faz do islã entrava em desacordo com suas crenças como muçulmano. Depois ele me avisou que os ocidentais agora corriam perigo por causa da situação em Mali, afirmando que a polícia tinha revistado um campo de refugiados tuaregues naquela semana e encontrado islâmicos construindo bombas com a intenção de matar europeus que tivessem vindo para o festival de cinema. Não consegui confirmar essa história, mas existem informações de que um homem foi preso em fevereiro ao tentar embarcar com um pacote bomba num avião no aeroporto de Ouagadougou.

Quando saíamos da cidade para fazer um passeio de um dia, os policiais pararam nosso carro para verificar documentos e se certificar de que não estávamos sendo sequestrados. Isso foi reconfortante no início, mas depois percebi que eles estavam fazendo isso porque a rodovia em que estávamos levava até Mali, onde os ocidentais são os principais alvos.

Um dos crocodilos sagrados de Bazoule.

Quando visitei a vila turística de Bazoule, me foi dito que, para a maioria dos africanos ocidentais, a charia era uma cultura árabe estranha imposta a eles por grupos abastados em Mali e na Nigéria. As pessoas com quem falei não tinham nenhum interesse em jihad, o que faz sentido quando se considera que deve ser difícil para as pessoas aqui aderirem a um dogma religioso quando também acreditam que certas máscaras contêm os espíritos de seus ancestrais mortos.

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Entrando no vilarejo você vê duas grandes cabanas de barro de cada lado da estrada. A primeira é uma mesquita para os muçulmanos, a outra é uma igreja para os cristãos. E bem no meio da estrada estão os “crocodilos sagrados”, que parecem unir todo mundo.

De volta à capital, me disseram que os serviços de segurança estavam em alerta máximo por causa da situação em Mali e que pessoas haviam sido sequestradas pela região, mas que Burkina Faso tinha conseguido permanecer um relativo mar de tranquilidade. Mas mesmo tendo conseguido evitar os terríveis conflitos que seus vizinhos vêm enfrentando, a desnutrição é a maior assassina por aqui, e seus antigos mestres coloniais franceses provavelmente não pretendem invadir o lugar para cuidar desse problema tão cedo.

Siga o Brian no Twitter: @brianwhelanhack

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