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Dentro da mente do maior jogador de pinball do Mundo

Após a recente conquista do título mundial da modalidade, conversámos com Robert Gagno e com os dois realizadores responsáveis pelo documentário 'Wizard Mode', que conta a trajectória do jogador até ao topo.

Por Sarah Berman
28 Abril 2016, 12:15pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE CANADÁ.

Ver o Campeão Mundial Robert Gagno jogar na máquina de pinball do South Park é como ver um belo e intrigante fogo de artifício, só que com peidos em alto som. Ele orienta várias bolas ao mesmo tempo, com as ocasionais pancadas laterais que fazem com que aterrem suavemente no flipper. Um movimento que faz com que no ecrã Terrance & Philip comecem a dançar e...a defecar. Claro.

Conheci Gagno numa loja de skate em Vancouver, Canadá, onde estão algumas das suas máquinas de pinball preferidas: Metallica, NBA Fastbreak e Exterminador Implacável 3. Estes são alguns dos jogos que jogou pra garantir o seu primeiro título de Campeão Mundial de Pinball, em Pittsburgh, Estados Unidos da América, no início de Abril. "Senti-me incrivelmente bem quando finalmente consegui trazer o título para casa", conta. "É um troféu bastante grande, pesa aí uns 15 quilos".

Gagno diz-me que o pinball está de volta "e é para ficar". Uma teoria que muitos gamers têm comparado ao regresso do vinil na música.

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Todas as fotos cortesia de Nathan Drillot e Jeff Petry.

Para Gagno foi um caminho longo até ao topo. Seis anos a competir em torneios mundiais e mais de uma década a treinar na sua própria colecção de máquinas na sua casa de Burnaby, CB. Durante os últimos dois anos, o jogador tem tido o desafio extra de partilhar cada passo da sua aventura com os cineastas Nathan Drillot e Jeff Petry, o que resultou no documentário Wizard Mode, que estreia no Festival Hot Docs, em Toronto, a 2 de Maio e, uma semana depois, ´e também apresentado no Festival DOXA em Vancouver. Gagno não só abre o jogo sobre os altos e baixos do pinball de competição, mas também sobre a sua busca pela independência sendo um autista de 27 anos. Além de tudo, o filme é acaba por ser uma obra sobre a vontade humana de melhorar e vencer e por transmitir uma emoção muito contagiante.

O estilo de jogo de Gagno faz com que, imediatamente, consiga conquistar amigos e espectadores. Quando está a jogar bem, despe o casaco até meio dos braços e fica em silêncio, mesmo quando os clientes dos salões de jogos começam a puxar por ele, ou o perguntar-lhe coisas.

"Tento pensar: consigo efectivamente jogar com multi-bolas? Ou é melhor arranjar maneira de deixar apenas uma bola em jogo?, explica Gagno em conversa sobre a sua estratégia. Normalmente também usa headphones, de forma a distrair-se o menos possível. "Qualquer sequência que eu esteja a fazer com tranquilidade, vejo como a posso maximizar e tento colocar essa estratégia em prática".

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Começo um jogo na máquina que está ao lado de Gagno, mas, inevitavelmente, perco todas minhas três bolas antes dele perder a primeira. A minha tentativa de fazer a bola continuar em jogo dando pequenos abanões na máquina, fez com que a bola ficasse presa atrás de uma poltrona da Família Addams. Ainda estou longe de chegar à forma de jogar que Drillot e Petry apelidam de "modo de sobrevivência". Preciso de apreciar a visão ampla e metódica de Gagno no jogo.

"Quando começámos a fazer o filme eu tinha jogado poucos jogos na minha vida", diz Drillot. "Começas a perceber que têm um complexo e enorme leque de regras e objectivos e que há uma ordem pela qual deves fazer as coisas... quando percebes como deves fazer, mesmo que ainda numa fase muito inicial, torna-se tudo mais recompensador".

No filme consegue perceber-se esta estratégia e esta forma de resolver problemas a ser aplicada na vida real, seja quando Gagno tenta arranjar trabalho, fazer amigos ou, simplesmente, enfrentar o desconhecido numa nova cidade. Nestes momentos, sempre que Gagno desbloqueia uma nova etapa, não conseguimos evitar senão sentir aquela adrenalina de quando passas de nível, ou ganhas um multiplicador de bónus.

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Identifico-me em particular com uma das pequenas, mas importantes conquistas de Gagno: ter feito a suas próprias regras para quando abraçar alguém, como abraçar e quando apertar mãos. É algo que me deixa perplexo e, ao mesmo tempo, curioso e quando converso sobre isto com Petry e Drillot eles partilham exemplos das suas próprias histórias.

"Eu percebi a mania do Robert com os abraços quando fui viver pela primeira vez para a Europa e tentei descobrir quando devia beijar as pessoas duas vezes, ou só uma, na boca, na cara, abraçar, ou só apertar as mãos", recorda Petry. E acrescenta: "Tive vários momentos desconfortáveis".

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Os realizadores Drillot e Petry salientam que foi este tipo de experiência de partilha que os ajudou a aliviar o peso do ar e ir além do preconceito com o autismo. As ideias erradas e estigmas que acompanham o autismo. "Não é que tivéssemos muita experiência com autismo, mas quanto mais tempo passávamos com o Robert, mais percebíamos que não nos deveríamos preocupar com essa questão em concreto. O que ele realmente quer é que as pessoas o tratem normalmente e interajam com ele de uma forma normal", sublinha Drillot.

Demorou algum tempo para que os cineastas atingissem esse tipo de perspectiva, mas Petry diz que um dos objectivos do filme é, precisamente, partilhar essa experiência de uma forma mais aberta. "O que nós esperamos é que o público do filme seja levado pela mesma trajectória que nós fomos e na qual encontrámos esta pessoa que era rotulada. E, depois, então que percebam que ali, afinal de contas, o que existe é uma pessoa, e um amigo, porque ele é uma pessoa muito cativante", conclui.

Petry e Drillot têm aqui, também, o seu próprio momento para passar de nível, ao estrearem uma longa-metragem num festival pela primeira vez. Mas é a amizade, diz Petry, "que é a verdadeira conquista". "Assim que começámos o projecto, percebemos que não iríamos só gravar e depois sair sem conhecer verdadeiramente o Robert. Iríamos construir uma relação tanto a nível criativo, como pessoal. Isso foi um aspecto realmente recompensador de todo o processo", realça Petry.

Agora que tem o título de Campeão Mundial de Pinball, Gagno pode focar-se em acabar outros níveis da sua própria vida: "Quero viver na minha própria casa um dia, talvez até ter um companheiro de casa, cozinhar as minhas próprias coisas, lavar as minhas próprias roupas. É isto".


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