A crise mundial da água em imagens que contam histórias

FYI.

This story is over 5 years old.

Viagem

A crise mundial da água em imagens que contam histórias

Falámos com o fotógrafo Mustafah Abdulaziz sobre o seu projecto pioneiro, que olha para a forma como diferentes culturas à volta do Globo tratam o consumo de água.
22.3.16

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Alemanha.

Em 2011, o fotógrafo norte-americano Mustafah Abdulaziz dedicou-se a investigar de que forma as diferentes culturas olham para a água, como a exploram e os desafios que todos enfrentamos para preservar o recurso mais vital do nosso Planeta. Um ano mais tarde, começou a viajar à volta do Mundo para fotografar as histórias mais relevantes. Hoje, o seu trabalho abrange oito países em quatro continentes e é apoiado pelas instituições Water Aid, Earth Watch, WWF e pelas Nações Unidas.

Publicidade

As imagens impressionantes captadas por Abdulaziz mostram-nos a fragilidade da vida, mas, mais importante, são como um espelho em que podemos ver como os nossos comportamentos individuais afectam a qualidade de vida colectiva. Para assinalar o Dia Mundial da Água, instituído pelas Nações Unidas e que se celebra a 22 de Março, encontrei-me com o fotógrafo pouco antes da inauguração da sua nova exposição em Londres. Vimos uma série de fotos inéditas e falámos sobre o seu trabalho pioneiro.


Vê também: "Shane Smith investiga o verdadeiro custo da negação das alterações climáticas"


VICE: O teu projecto estendeu-se, até agora, por oito países, mas comecemos pela China e pela Índia. O que é que se passa nestes países que faz cm que as fotografias que tiraste em ambos funcionem tão bem juntas?

Mustafah Abdulaziz: Segui o curso de um rio ao longo de muitos locais em ambos os países - o Ganges e o Yangtze. Isto permitiu-me recolher um monte de perspectivas sobre a forma como as pessoas se comportam em relação aos seus recursos hídricos - quer tenha por base a religião, a indústria local, os transportes, a urbanização. É sobre isso que este projecto se debruça, na verdade: como interagimos com a água, independentemente da nossa raça, ou país. Fosse qual fosse o rio em causa, havia comportamentos similares que me chamaram a atenção e que quis analisar.

Podes dar-me exemplos desses comportamentos similares?

Publicidade

Os seres humanos, normalmente, interagem com a água como parte do seu meio-ambiente. Mas também vemos a água como um objecto - que pode ser manipulado e usado, medido e controlado. A forma como controlamos tão vasto recurso, revela a forma como acreditamos que devemos usar o meio-ambiente - tristemente, este comportamento tem tendência a ser, muitas das vezes, explorador.

A escala da exploração na China é massiva. Mas a forma como as pessoas interagem com a água é muito menos esotérica do que na Índia, por exemplo, onde as pessoas abusam do rio, por entenderem que é sagrado. Acho que a percepção dos chineses em relação à água pode ser muito bem explicada numa imagem em particular - a fotografia das flores em cima de uma caixa de vidro que mostra um modelo à escala da primeira ponte sobre o Yangtze, em Nanjing. Essa foto é sobre esses valores.

Imagem da representação da ponte sobre o Rio Yangtze. Nanjing, China, 2015.

Nesta imagem, todavia, nem sequer se vê água. Nem sequer se deram ao trabalho de a pintar.

Precisamente. O detalhe é o que dá a importância à imagem. O que pretendi foi dividir o espaço, para que, quem a veja, possa projectar as suas próprias ideias sobre o Yangtze. As flores, a ideia de construírem um modelo intrincado, que inclui um pequeno barco…tentaram criar uma imagem inspiradora, mas, em última análise, acaba por ser um bocado oca. Representa o fascínio dos chineses pelo desenvolvimento tecnológico, que se sobrepõe ao que realmente devia importar e que tem de ser preservado.

Publicidade

É interessante ver, também, o teu trabalho mais recente, que se foca nas atitudes comportamentais das pessoas em locais onde a água não está tão ameaçada.

O banal fascina-me - como o acto de regares a tua relva durante o tempo seco. Este tipo de imagens pode ser ainda mais poderoso quando enfrentas uma crise.

Campo de Golfe do Classic Club. Palm Desert, California, EUA, 2015

Referes-te ao trabalho que levaste a cabo na California? Aquela imagem de um campo de golfe ridiculamente saudável, rodeado pelo deserto, ficou-me na retina.

Os campos de golfe são interessantes, porque são locais onde as pessoas se encontram e, como tal, a água é sempre algo que lhes tem de ser facilitado. Ao sobrevoar esse campo de helicóptero apercebi-me do quão ridículo era aquele cenário. Também me interessam os aparentemente normais e prosaicos relvados e canteiros de flores que as pessoas têm à volta das suas casas. Dá uma foto muito bonita, mas, ao mesmo tempo, é absurdo. Não vou bater à porta de alguém e perguntar-lhe que quantidade de água gasta, porque para este projecto não é isso que interessa. O que interessa aqui é perceber que as pessoas acham normal fazerem-no. Vêem este tipo de comportamentos como algo mais importante, do que cuidarem do meio-ambiente. É o conceito que me interessa.

Entre 1990 e 2010, cerca de 2.3 biliões de pessoas conseguiram acesso a fontes de fornecimento de água potável melhoradas, ou seja, isto significa que houve investimento em melhores condições sanitárias, melhores canalizações e melhores poços, por exemplo. Testemunhaste este progresso? De que forma?

Publicidade

Em 2012, estava em Freetown, na Serra Leoa, quando se deu o surto de cólera. de cada vez que era reportado um caso, havia um grupo de mulheres voluntárias que respondia de imediato. Eram mulheres locais, que tinham a confiança da sua comunidade, mas que também sabiam exactamente que medidas tinham de tomar para prevenir a derrocada geral da saúde de todos que normalmente advém de um surto de cólera. Os seus conhecimentos eram limitados, mas muito úteis, e incrivelmente eficazes - especialmente quando depois amplificados pelas equipas das ONGs no terreno. É importante que as comunidades sintam que têm poder - é o que dá aos indíviduos a capacidade de poderem fazer a diferença.

O antigo poço de água em Osukputu, Benue, Nigéria, 2015.

Qual é a imagem que, na tua opinião, reflecte melhor esta mudança positiva?

A fotografia da Nigéria ilustra bastante bem o meu ponto de vista. É uma imagem muito simples - parece quase um palco de teatro. Esta bomba de água fornece água potável a cerca de 800 habitantes de Osukputu. É uma quantidade de gente extraordinária para apenas uma fonte. E a imagem acaba por funcionar também como uma espécie de contraponto para outra de águas estagnadas que fica um pouco mais afastada da localidade e que é fonte constante de transmissão de doenças.

Em todas estas áreas remotas e empobrecidas as mulheres e as crianças são, habitualmente, os responsáveis pela recolha da água. E se as crianças têm de acordar cedo para ir buscar água, certamente vão chegar à escola já exaustas. Se, por outro lado, são as mulheres, então a possibilidade de fazerem outro tipo de trabalhos e de progredirem economicamente, é bastante limitada.

Publicidade

É um ciclo vicíoso.

Certo. Conheci uma mulher na Etiópia, grávida de oito meses, que descia uma encosta bastante perigosa com jarros de água. Precisava da água para fazer cerveja para a celebração do nascimento do filho. Era a época mais feliz da vida dela e tinha de arriscar a vida - e a da própria criança que ainda nem sequer tinha nascido - só para conseguir a água.

Uchiya Nallo, grávida de oito meses, região de Konso, Etiópia, 2013

Em Janeiro de 2015,o Fórum Mundial de Economia, anunciou que a crise da água é o principal risco global, tendo em conta o impacto social que lhe é intrínseco. Que outros riscos a nível mundial relacionados com a água vais investigar a seguir?

Alterações climáticas e a subida do nível dos mares, onde Dhaka, no Bangladesh, é o chamado "Ground Zero". Estudar esse local não é apenas importante por causa das inundações e da devastação económica que provocam, mas também porque está a acontecer num ciclo aparentemente perpétuo. Também gostava de olhar para a Austrália Ocidental e os efeitos da indústria mineira, combinados com a escassez de água. Perth pode transformar-se numa cidade fantasma do século XXI se não conseguirem resolver os problemas da água.

Qual é a mensagem mais importante que esperas conseguir passar com este projecto?

Diria que o objectivo é mostrar às pessoas que somos parte integrante do nosso meio-ambiente e não podemos negar isso e continuar a insistir em comportamentos errados para sempre. Também precisamos de entender que os problemas são comuns e afectam toda a gente de uma mesma forma - não são apenas restritos a algumas partes do Mundo.

Publicidade

Ao mesmo tempo, o Mundo é um sítio maravilhoso, portanto gostava que as pessoas olhassem para o meu trabalho e entendessem que estamos mesmo a dar cabo dele. Quero que as pessoas se sintam inspiradas pela beleza das coisas que fotografo - que se sintam motivadas a mudar os seus comportamentos. Ou seja, acredito que os problemas da água podem ter solução.

A primeira exposição individual de Mustafa Abdulaziz, "Water Stories", first UK solo show, Water Stories, está patente na galeria The Scoop, em Londres, até 10 de Abril

Vê mais imagens abaixo.

Piscina natural numa zona rochosa. Highway 38, San Bernardino County, California, EUA, 2015.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Konso, Etiópia, 2013.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Acção de sensibilização para a cólera. Holy Trinity Primary School, Freetown, Serra Leoa, 2012.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Trabalhos de limpeza de esgotos, Kanpur, Índia, 2014.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Deflorestação. Tangará da Serra, Mato Grosso, Brasil, 2015.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Lago Dongting. Província de Hunan, China, 2015.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Barcos à pesca de camarão e algas. Honghu, Província de Hubei, China, 2015.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Furo de água no deserto, Somália, 2013.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Ponto de água potável. Kroo Bay, Freetown, Serra Leoa, 2012.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Pontes em ruínas no Kumbh Mela, Allahabad, Índia, 2013.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Crânio humano nas margens do Ganges. Patna, Índia, 2013.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Construção de ponte sobre o Ganges. Bihar Province, Índia, 2013.Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Água poluída. Jana village, Kanpur, Índia, 2014Mustafah Abdulaziz – Water Stories

Margem do Ganges, perto de uma barragem. Kanpur, Índia, 2014.Mustafah Abdulaziz – Water Stories