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Aproveitemos a quarentena para deixar de fazer coisas

Lembras-te da última vez que não fizeste absolutamente nada? Eu também não.
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
08 April 2020, 2:41pm
cuarentena dejar de hacer cosas
Dolce far niente de Auguste Toulmouche. Imagen vía Wikimedia Commons/CC 0

Este artigo foi publicado originalmente na VICE ES.

Que tal está a correr o confinamento em casa? Espero que bem, porque ainda vamos andar nisto uns tempos e já estamos a arrancar cabelos. Felizmente, passamos o dia a receber memes, vídeos do que é que os vizinhos andam a fazer para combater o isolamento e alguns discursos que nos convidam a questionar certas coisas. Mas tudo bem, em tempos de crise costumam surgir reflexões interessantes e necessárias.

Curiosamente, apesar de estarmos trancados em casa, não paramos de receber estímulos e sugestões para preencher o nosso tempo vazio. Ainda assim, se há uma palavra que tem surgido nos dias de hoje é ABORRECIMENTO. E eu pergunto, quando é que foi a última vez que não fizeste absolutamente nada? Agora, mais do que nunca, aparecem mil e um planos de lazer, revistas com edições gratuitas, alguns serviços de streaming oferecem um mês grátis e muitas aplicações permitem que te registes sem ter de pagar fidelização.

Paradoxalmente, nesta altura em que somos forçados a paralisar as nossas vidas, nunca tivemos tantas coisas para fazer. "Vê esta série!", "Lê este livro!", "Experimenta esta receita!", "Aprende a tricotar!".

Hoje, mais do que nunca, mantermo-nos ocupados está na ordem do dia. Mas, pára para pensar: Desde quando é que te interessa o yoga? Não vais acabar o Cem Anos de Solidão nem que fiques cem anos em quarentena! Quem é que queres enganar? Há anos que nos queixamos de que não temos tempo para desconectar, mas somos nós que nos empenhamos em estar permanentemente conectados.

Estamos habituados a passar a vigília inteira ocupados, stressados, a participar em todos os eventos sociais com medo de perder alguma coisa. Fazemos isso para nos sentirmos bem, claro, para dormir em paz sabendo que esprememos o sumo da vida ao máximo, mas, na realidade, estamos exaustos e desejamos com todas as nossas forças atirar-nos para o sofá e ver RuPaul. No entanto, elevámos a máxima de ter que espremer a vida ao máximo a tal ponto, que é possível que o próprio acto de viver tenha perdido todo o significado. Porque é que agora haveria de estar a ser diferente?

Não importa que estejamos confinados em casa por causa de um vírus altamente contagioso que fez paralisar a economia e o ritmo mundial, precisamos de continuar a ser tão produtivos como sempre. Sempre a par de todos os memes, atentos às histórias do Instagram para saber o que está a acontecer em casas alheias e a verificar o e-mail constantemente. Continuamos a ter FOMO, apesar de não podermos sair de casa, apesar de metade da Europa não poder sair de casa. Sempre com a intenção de não deixar de ser produtivo, de não deixar de "viver", de aproveitar até à última gota o nosso intelecto, aproveitar esta nossa curta existência.

Mas, eu quero encorajar-te a fazer exactamente o contrário. Por que diabos não aproveitamos o momento para fazer absolutamente NADA? O tédio é uma ferramenta poderosa e inspiradora e, acima de tudo, necessária. Muitas das grandes ideias da história surgiram após uma boa dose de tédio. O tipo que fez uma fogueira pela primeira vez? Estava entediado. A preguiça, o acto de contemplar o nada por um longo período de tempo, é um bom recurso para que nasça criatividade. Esta crise global paralisou o piloto automático da nossa sociedade, saímos da rotina, desse ritmo de vida em que normalizamos o stress e a sobre-produção.

Definitivamente, temos fobia aos tempo mortos, talvez por termos medo de escutar o que quer que seja que tenhamos cá dentro. Seja como for, é curioso isto de nos sentirmos culpados por não fazer nada: fará sequer sentido que o tempo, o nosso bem mais precioso (porque não, não é o dinheiro), se perca precisamente por o querermos aproveitar ao máximo? Parece um pouco absurdo, na verdade.

Eu sei que, no fundo, mesmo que não queiras admitir, estás a gostar um bocadinho desta reclusão forçada. Como se, de repente, fosse um alívio não ter que ir ao ginásio depois do trabalho, ou ir a todos aqueles concertos cada fim-de-semana, sem gastar dinheiro em parvoíces ou sair à noite e passar dois dias de ressaca e mau humor. Estás a gostar um bocadinho, admite.

Considerando-nos indivíduos multitasking, pensamos que podemos desfrutar do pôr-do-sol enquanto olhamos para o telemóvel, mas a realidade é que perdemos a possibilidade de experimentar o prazer em si mesmo. Somos como robots, mecanizados, letárgicos e esta mudança drástica forçada despertou-nos da letargia. O tédio é fértil, o tédio pode devolver-nos a humanidade. Perder tempo é uma necessidade humana que temos vindo a aprender a ignorar.

Sentimos culpa quando somos improdutivos e, por isso, mergulhamos num turbilhão de actividades sem sentido que levam à apatia, tristeza e frustração. Achas-te muito sortudo por pagares todas as plataformas de streaming, por teres música disponível onde e quando quiseres no Spotify? Bem, daqui a um tempo, isso será tão emocionante como lavar a cara cada manhã ao acordar.

Por isso esconde o telefone, desliga a televisão, deixa de lado a Netflix e, simplesmente, olha pela janela, deita-te no sofá, desfruta de uma boa refeição, sonha acordado, aborrece-te, sê inactivo! O tempo já não é desculpa.

O destino, para o bem ou para o mal, deu-nos esta oportunidade. Aproveita-a para desfrutar da maravilhosa prática de não fazer nada, sem te sentires culpada. Talvez ao estarmos sozinhos, quietos, a contemplar a humidade que temos no tecto do quarto, nos ajude a reflectir sobre nós próprios. Quando tudo acabar, serás melhor no teu trabalho e estarás contigo mesmo. Talvez tivesse que vir um vírus mortal para nos apercebermos disso. Já vais ver quanta arte irá surgir destas semanas (ou meses) de isolamento.


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