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Sociedade

Todos os tipos de conversas que tens quando te embebedas

Tudo aquilo que te arrependes de ter dito no último fim-de-semana.

Por Angus Harrison
29 Novembro 2017, 12:53pm

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Thump.

Pior do que sexo casual, ou até uma ressaca, é acordar com o estômago embrulhado ao lembrares-te que na noite passada disseste merdas bastante idiotas. Naquela roda de álcool, excitação, drogas e música, abres as portas da intimidade e revelas o arquivo de segredos constrangedores, emoções enterradas e piadas estúpidas que te esforçaste tanto para esconder.

Pessoalmente, achamos que conversas embriagadas são boas para a alma. A realidade, claro, é que as coisas que dizemos bêbados são tudo o que nos sentimos socialmente constrangidos para revelar sóbrios. É nessas horas lubrificadas, depois de o sol se pôr, que amizades começam, piadas internas recorrentes nascem e peitos se aliviam de coisas que estavam guardadas há demasiado tempo. Dito isto, essa é também a hora em que as pessoas tentam armar porrada com caixotes do lixo, portanto tentemos não romantizar a coisa em demasia.

Numa tentativa de entender melhor a “conversa embriagada”, mapear os teus movimentos e meditar sobre o seu significado, montámos um guia abrangente de todas as conversas chatas, idiotas, nojentas, estúpidas, assustadoras e bizarras que tiveste no último fim-de-semana (e que, certamente, irás ter nos próximos).

Nível 1: Conversa banal pré-copos

“Estudo engenharia”.

“Que fixe. Já sabes o que vais fazer depois da universidade?”.

Sim, provavelmente matricular-me num desses esquemas de pós-curso”.

A noite começa na sala de alguém, com o novo namorado da tua colega de apartamento, o Dani, ou o amigo de um amigo de outra cidade que está por cá a passar o fim-de-semana. A dada altura, geralmente entre uma mini e outra, dás por ti a perguntar àquele rosto pouco familiar na sala o que a pessoa faz na vida, algo que achas que, normalmente, só gente sem personalidade faz. Daqui a umas seis horas, vais ver o amigo ou o namorado na discoteca, vai bater-lhe ao de leve no ombro, perguntar como vai está a correr a noite e desapareceres, para nunca mais o veres.

Nível 2: O Taxista

Até que horas trabalhas?”

“Até por volta das 4".

“Fixe”.

E pronto. Vocês estão empolgados, tens um maço de tabaco cheio no bolso, o telefone totalmente carregado. O caminho do Uber está livre. Mete o teu amigo mais falador/bêbado no banco do pendura e relaxa atrás, enquanto a pessoa pergunta se a noite do condutor está a ser muito movimentada, há quanto tempo ele trabalha nisto e se pode ou não pôr Beyoncé a tocar no rádio.

Nível 3: Conversa na fila

...”

...”

...foda-se que calor, mano”.

Filas de discoteca são um dos círculos menos mencionados do inferno de Dante. São 20 minutos em pé, a dizer disparates, às vezes a imaginares se consegues sair para mijar sem perderes o lugar. Às vezes alguém começa a empurrar e gritos de “Eh PA, PÁRA LÁ” ecoam ao teu redor até perceberes que reclamar com um estranho é inútil, porque alguém sem educação para empurrar numa fila não é, certamente, o tipo de pessoa que vá lidar bem com críticas racionais de alguém que fede a perfume barato e cigarros.

Nível 4: Conversa de engate

Reconheci o teu relógio”.

“O quê?”.

Este sítio é do caraças, não é?”.

Sou da humilde opinião que a discoteca é muito melhor se não estiveres constantemente preocupado em tentares despir-te e despires alguém. Estamos aqui pela música, pá. Ainda assim, mesmo as discotecas mais merdosas são capazes de abrigar o tipo de rosto que salva a noite de um gajo. Quando vês essa pessoa e já bebeste o suficiente, podes ir tentar falar com ela. A menos que sejas um tipo básico, que não liga muito a ultrapassar barreiras e limites, provavelmente vai ser meio estranho. Dica pró: pede sempre um isqueiro, mesmo se não fumares. Se a pessoa tiver um, podes convidá-la para fumar lá fora, se não tiver, bem, prepara-te para um discurso de 15 minutos sobre como fumar é um hábito sujo, né? A alternativa: se o objecto da tua súbita afeição usar óculos é sempre uma boa ideia pedires-lhe para os experimentares, depois finges que ficaste cego por teres usado brevemente os óculos. Vai por mim.

Nível 5: Falar com alguém sóbrio

Olááááá”.

“Estás a divertir-te?”.

Hum? Estou na boa, a sério. Uhum?”.

Colocámos este diálogo como nível cinco, mas, tendo em conta que é mais um nível bónus, pode acontecer a qualquer momento. Uma chamada da tua mãe, alguém np meio da rua a perguntar a direcção de algum sítio... já aconteceu comigo um passeador de cães querer meter conversa enquanto eu estava sentado num banco às sete da manhã a tentar não vomitar. E estas conversas são muito estranhas - um lembrete repentino que nem toda a gente se sente como se tivesse um liquidificador dentro da cabeça. As melhores tácticas incluem: tentar manter os olhos abertos (mas não muuuito abertos), dizer o mínimo possível (mas não muuuito pouco) e evitar estar constantemente a garantir que nem bebeste assim tanto.

Nível 6: A bater

“Há quanto tempo é que metemos?”.

Tipo uns 20 minutos”.

OK... Ainda não estou a sentir nada... há quanto tempo é que metemos?”.

Dependendo do tipo de noite que tens, este pode ser o ponto em que começas a bater furiosamente nos ombros dos teus amigos, só para dizeres “Acho que eu...”, enquanto apontas para o tecto. Isto vai acontecer umas 14 vezes nos próximos 45 minutos, enquanto cada um de vocês tenta convencer-se de que a droga bateu. Se não estás a surfar esta onda, vais ser o gajo que calmamente garante a toda a gente que não, não está assim tanto calor e sim, a água é grátis no bar. Otário.

Nível 7: "-Te"

“Anda cá, tu. Tive saudades... amo-te, sabias?”.

Desculpa, eu conheço-te?”.

Isto é provavelmente o mais fixe que esta conversa vai ser, antes de caires num estado interior e ficares de olhos esbugalhados. Estás bastante fodido, mas ainda consegues curtir a música o suficiente para não te aventurares além de algumas declarações breves sobre o quanto achas toda a gente espectacular. Mesmo gente que mal conheces. Foda-se, até se aquela tia estranha que te dava aulas de piano estivesse aqui, é provável que lhe fizesses um "mata-leão" na brincadeira e lhe agradecesses por tudo o que ela fez por ti. Nota: algumas pessoas gostam de pontuar estas conversetas com beijos na testa.

Nível 8: O estranho do fumódromo

“Curtes futebol?”.

Claro".

Boa, espectacular”.

A discoteca está agora super cheia e o mundo real está a desaparecer. É isso. Queres um cigarro e um bocadinho para absorver tudo o que está a acontecer. Um estranho dá de caras contigo começam os dois a tentar desesperadamente encontrar um campo em comum para trabalharem, até que não tenham mais nada para dar. Mas cuidado, alguns estranhos do fumódromo não entendem bem qual é o papel deles na tua noite. Podem tentar fazer com que os adiciones no Facebook, ou pior, pendurarem-se em ti o resto da noite. Queres dividir um táxi para casa? Ele mora só a 50 quilómetros do teu apartamento.

Nível 9: Temporada de elogios

É o seguinte, não és apenas meu amigo, és tipo um irmão e eu tenho irmãos de verdade”. “És mais um irmão para mim do que a minha irmã”. “Tenho tanto orgulho em ti, pá”.

Esta é a evolução intensa do nível 7, uma promoção do anterior “amo-te”, para elogios agressivos. Se não acabares com um estranho do fumódromo, podes dar por ti cercado pelas pessoas mais queridas da tua vida. Podes acabar por ter de te levantar, olhar para as calças do teu amigo, enquanto o gajo te segura com firmeza pelo pescoço e te diz uma e outra vez que era capaz de levar um tiro por ti.

Nível 10: Conversa merdosa sobre política

Isto já não tem nada a ver com socialismo”. “Já não é tão fácil de categorizar”. “Vê bem, o meu pai veio da classe trabalhadora...”.

Que inferno. Esta é a pior conversa que tens todos os fins-de-semana, durante todo o ano. Viste os debates? A oposição está a subir, não é? Foda-se esses gajos...

Nível 11: O chorão

Ele/Ela é um/uma idiota/nojento/a!”. “Eu sei, mano/miga”. “Não sabes! Ele/Ela não fala assim contigo!”.

Esta é de matar. Se estás na noite com um chorão ou chorona é melhor tentares safar-te rapidamente. Viemos aqui beber cerveja pá, não viemos para te ficar a ouvir, sentado no passeio, a reclamar de alguém com quem vais continuar a sair, ou a pinar, independente do nosso apoio bêbado de sempre. Nota importante: nem tentes colocar um género nesta, porque os gajos também choram e não é pouco.

Nível 12: A conversa profunda

“Foda-se, tou a estragar a noite, não estou? Desculpa”.

Não, a sério, sabes que podes sempre falar comigo sobre essas coisas”.

Bem, então é assim...”.

A conversa profunda pode ficar pesada. É melhor prestares atenção e cortar antes que a coisa acabe num desabafo de duas horas. É o tipo de conversa que emerge quando tu e um ou dois amigos estão tão bêbados que alguém decide revelar um segredo de família sombrio, uma grande ansiedade, ou (na melhor das hipóteses) confissões sobre a morte de um bicho de estimação. Essas conversas podem ser muito terapêuticas, mas também podem fazer com que percas o set do DJ pelo qual esperaste a semana toda.

Nível 13: A "bad trip"

Tens água?”.

Estás bem? Estás meio pálido”.

Não. Só... meio mal, um pouco”.

O pessoal da "bad trip" é um pesadelo. Tens aquele amigo que, depois de uma certa altura, vai olhar para ti de repente com uma preocupação furiosa, como se a tua cara estivesse a derreter, só para depois dizer “não foi nada". Isto acontece quando percebes que o teu amigo tomou alguma coisa mais forte sem te contar e agora toda a gente tem um saco de supermercado em vez de cabeça. Dito isto, é uma coisa que pode acontecer a qualquer um e pode não ser porque os alucinógenos bateram. Pode acontecer-te uma noite destas. Num minuto estás a sorrir com o hit do Verão, no outro estás convencido de que tens formigas a subir-te pelo corpo.

Nível 14: Matar a larica

“Têm maionese de alho?”.

Pede mais uma dose de batatas”.

Desculpem, já fechámos”.

Fico sempre abismado com a forma como o que deveria ser a parte mais simples da noite se torna, de longe, a mais complicada. O que deveria ser a simples frase “Um kebab e batatas, por favor”, transforma-se numa cavalgada infinita de negociações e condimentos, palavras a derreter sob pressão em “certo, vocês têm batatas fritas... não, espera, vocês têm onion rings?”. O teu grupo vai dissolver-se completamente, alguns a tentarem travar amizade com o pessoal do outro lado do balcão, outros a reclamarem porque a dose pequena de batatas custa sete paus... tudo isto enquanto o pessoal paira pelo sítio como se restaurantes de fast food fossem câmaras de gravidade zero.

Nível 15: Conversa cósmica

Vai ser tipo supermercado online, mas para cinema independente”.

Achas que, foda-se, que o Mike Tyson tem pai?”.

Escadas são uma obra do homem, mas sempre existiram num estado paralelo inalcançável... tipo... olha onde estão estas escadas. Houve um tempo em que elas não estavam aqui, mas o potencial para ir deste nível... para o nível acima... sempre existiu”.

Uau. Chegaste ao nível 15. Deves estar num rico estado. Nesta altura é o vale tudo. Os temas podem variar de “como é incrível olhar nos olhos de um animal selvagem”, para “uma ideia de aplicação que tiveste e envolve um interface de movimento simulado e texto interactivo”.

Completaste os 15 níveis? Provavelmente está na hora de ires dormir.


@a_n_g_u_s

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