As nossas distopias tipo exportação
Fresh Made BR

As nossas distopias tipo exportação

Como a ficção científica brasileira está chamando a atenção do mundo.
25.10.17

ESTE CONTEÚDO É UMA COCRIAÇÃO DE BE BRASIL E VICE ESTÚDIO CRIATIVO.

Que nos últimos anos o mundo parece viver uma obra de ficção científica distópica dessas bem assustadoras, ninguém pode negar. No Brasil, não é diferente. Por aqui os elementos distópicos estão por todos os cantos e, quase sempre, dão a sensação de que o melhor e o pior do país é o brasileiro. Parecia natural, então, que as produções de ficção científica nacionais, antes escondidas nos submundos do audiovisual, chamassem atenção de grandes empresas, de distribuidoras e, claro, dos cinéfilos do mundo todo.

Publicidade

O exemplo mais marcante é o caso de "3%", a série produzida pela Netflix: o que surgiu como um projeto de alunos de faculdade em 2011 com um vídeo no YouTube se transformou em uma produção com atores globais e muito barulho. O mais curioso, no entanto, foi os diferentes tipos de recepção. Enquanto no Brasil o público e a crítica não se empolgaram muito, nos Estados Unidos surgiram diversos textos tratando a série como um respiro de ar fresco no meio de produções tão parecidas.

Beth Elderkin, jornalista do site de ficção científica io9, escreveu que a série não tem premissa das mais inovadoras, mas traz elementos interessantes como ser uma "ficção científica de uma perspectiva não-americana". Esse sentimento, reforçado pelo público americano em resenhas online, surge principalmente pela saturação de histórias repetitivas em filmes de ficção científica produzidas em Hollywood – ninguém aguenta mais as mesmas franquias, os reboots e as mesmas temáticas, certo?

O criador da série Pedro Aguilera, à época do lançamento de "3%" no Netflix, falou sobre a importância do elemento brasileiro. ""A série é uma distopia que já te joga para outro tempo, e os temas são universais. Já nos particulares, queríamos que a série tivesse cara e características bem brasileiras", diz. "É o clichê do: fale sobre sua aldeia e falará para o mundo."

Essa saturação hollywoodiana e o interesse em algo mais local também dá o tom de um dos filmes de ficção científica de maior destaque do Brasil, o "Branco Sai, Preto Fica", de 2014, do diretor Adirley Queirós. Usando um acontecimento histórico – a invasão, nos anos 80, da polícia militar ao Quarentão, um conhecido baile black em Ceilândia, próximo à Brasília – o filme usa o recurso de viagem no tempo para misturar a história real com uma distopia assustadora. "Funciona um pouco como a ideia do realismo fantástico: algumas coisas não tem como ser ditas sem ser dessa maneira espetacular", contou Adirley em entrevista. Com linguagem original, o longa-metragem conquistou a crítica. Além das resenhas positivas, recebeu mais de uma dezena de indicações para prêmios em todo mundo e ganhou o Festival de Cartagena, na Colômbia, e o Festival de Mar del Plata, no Uruguai.

Publicidade

O crítico Alfredo Suppia, professor de cinema da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em artigo publicado sobre o filme de Adirley, dá pistas sobre os motivos desse sucesso recente: o "cyberpunk de Terceiro Mundo", que usa uma estética mais decadente e traz uma nova visão em que, para as populações periféricas, "não resta alternativa senão o uso do lixo como tecnologia, num contexto marcadamente pós-colonial (de contexto ibero-americano)". Para ele, "Branco Sai, Preto Fica" abre o caminho e deixou sua marca por seu discurso (o uso político da ficção científica) e estilo.

A produção desses filmes depende, é claro, de investimentos. Apesar de não produzirmos obras de ficção científica que abusam dos efeitos especiais – e nossa habilidade em improvisar sempre é importantíssima nesses momentos – toda boa ideia precisa de dinheiro para andar. O piloto de "3%", por exemplo, só foi produzido por causa do edital FICTV/Mais Cultura, voltado para produção de séries de ficção, mas que só teve uma edição – a série não ganhou o edital inteiro, mas pôde produzir o piloto da série. Já "Branco Sai, Preto Fica" foi produzido graças a um edital focado em documentários.

Embora tenha havido cortes nos investimentos em cultura por causa da crise, o Brasil continua a aplicar bom dinheiro no audiovisual – são R$ 942,6 milhões para 1310 propostas desde 2009 – e possui uma grande variedade de financiamento. Há projetos como o Núcleo Experimental de Cinema, do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. A edição mais recente do núcleo é focada em ficção científica e, no ano passado, produziu o filme de terror "O Experimento". Dezessete pessoas foram escolhidas este ano para participar da produção de um curta-metragem de ficção científica.

São programas de incentivo como esse que permitem diretores, roteiristas e produtores brasileiros veicularem suas obras ao grande público dentro e fora do país. Não à toa, muitos deles preferem expor alguns dos lados mais críticos do Brasil – aqueles nos fazem parecer um enredo de ficção científica. É como se dissessem: a coisa não vai tão bem quanto gostaríamos, mas estamos aqui. Produzindo.