'Erotica', da Madonna, continua muito necessário 25 anos depois
Madonna e sua persona dominatrix Dita em 'Erotica'. Imagem: Reprodução/YouTube
Noisey

'Erotica', da Madonna, continua muito necessário 25 anos depois

Zeca Camargo: "A sacada da Madonna é que ela sempre vai fazer essa leitura de erotismo e pornografia de acordo com o nosso tempo."
20.10.17

Em 20 de outubro de 1992, começa oficialmente a era Erotica na carreira de Madonna. Personificada através de Dita, uma referência à atriz polonesa Dita Parlo, a nova persona da cantora trazia uma mulher dominatrix sexualmente liberal. Pense que em 1992, no bafo pós-guerra fria, Madonna esquentou o clima e alimentou tensões da sociedade cheia de moral e bons costumes contando seus segredos e fantasias sexuais através da música.

Madonna provocou um furor de verdadeiras proporções globais. O lançamento do livro SEX, com fotos eróticas e sensuais da cantora, unida à trupe de modelos e atrizes que estavam na crista da onda na década de 1990, deu mais combustão à fase, acompanhado do CD Erotica e clipe do lead single de mesmo nome, que foi censurado na MTV norte-americana e em outros países.

"Eu era muito jovem na época em que o álbum foi lançado, mas me lembro bem porque já era muito fã da Madonna e foi um acontecimento", conta o professor universitário Dheisson Figueredo da Universidade Federal da Bahia. "Foi um clamor, uma loucura, acho que nada que aconteceu depois do Erotica teve o mesmo nível de repercussão midiática internacional, porque só se falava nisso, só se falava em Madonna, só se falava em Erotica", complementa.

O jornalista e apresentador Zeca Camargo acompanhou a premiere do clipe na extinta MTV Brasil e conta que "havia uma disputa para saber quem passava os artistas mais famosos primeiros, às vezes a MTV, às vezes o Fantástico. Mas nesse clipe, até o final foi um suspense, a notícia é que ele era muito ousado para passar na televisão aberta e, talvez, a MTV ganhasse esse clipe em primeira-mão porque a TV aberta não ousaria em passar. No final das contas o Fantástico passou primeiro e passamos minutos depois."

"Acho que a cena mais forte era a Madonna nua, no meio da rua pedindo uma carona e ninguém a reconhecia. Ela estava no auge, ela teve muita coragem de fazer uma coisa dessa e ter falado: 'bom, se eu quero quebrar limites e tudo, eu acho que vou ser a primeira a falar isso'", reflete Zeca.

O rebuliço foi geral. Madonna passou de cantora à pervertida e desbocada, sendo proibida de pisar no Vaticano e censurada nas rádios dos Estados Unidos. A jornalista musical e embaixadora do Spotify Brasil Débora Cassolato diz que a dor de cotovelo nada mais era porque Madonna mostrou "os desejos sexuais da mulher, as fantasias, o BDSM, práticas que a família tradicional americana nem sabiam que poderiam existir embalada de um jeito pop, cool, com ela protagonizando", querendo dizer de um jeito simples "galera, isso aqui existe, é normal e mara."

Foi nesse momento que Madonna explorou a homossexualidade e se aproximou ainda mais da comunidade LGBTQIA+. "Nesse sentido ela revolucionou, porque ela começou a falar de sexualidade de forma mais aberta, ainda englobando a questão da homossexualidade", explica Dheisson. "Nos anos 1980, a Madonna era uma artista pop que todo mundo ouvia. Nos anos 1990, ela foi se tornando uma artista cada vez mais vista como uma artista voltado ao público LGBT", recorda.

Débora acrescenta que "até pouco tempo, AIDS era considerado coisa de gay, que hétero nem tinha que se preocupar com isso, que gay era 'sujo, carregava doença, promíscuo'. Madonna usou seu alcance para as pessoas botarem a mãozinha na consciência e repensar, e o público LGBTQIA+ sentir-se amparado."

"É um disco ousado até, musicalmente", aponta Zeca. "As críticas na época eram de: 'um disco menor', 'a Madonna só quer provocar' e 'musicalmente isso não significa nada'. Reescutando o disco hoje em dia você vê uma Madonna curiosa; ela sempre quer trabalhar com novos produtores, descobrir um caminho musical, às vezes acerta mais, às vezes acerta menos. A própria batida de 'Erotica' é como um transe. Talvez não seja o mais popular, mas é um disco que você percebe a Madonna tentando um novo caminho. A polêmica em torno do álbum atrapalhou um pouco isso", ressalta.

Revisitando a história nessas bodas de prata, o jornalista evidencia que "o Erotica não poderia existir hoje se a Madonna não tivesse feito há 25 anos atrás, então, dificilmente não teríamos tido outros livros, filmes, clipes com tanto erotismo assim. Para você ter o impacto que o livro causou, teria que ir um pouco mais além, uma tarefa extremamente difícil". E complementa que "a sacada da Madonna é que ela sempre vai fazer essa leitura de erotismo e pornografia de acordo com o nosso tempo."

Para quem chegou até 2017 sem ouvir sequer um som ou visto algum clipe que compõe a fase Erotica, Zeca aconselha: "dá uma olhada no que era Erotica, imagina o mundo em 1992 e vê a revolução que isso significa. Essa pessoa que você acha que é muito careta, que faz shows e que não provoca, vem de uma trajetória como essa. Vai ouvir para ver como é possível ter uma pessoa inventiva em toda a sua carreira."

Leia mais no Noisey, o canal de música da VICE.
Siga o Noisey no Facebook e Twitter.
Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.