Fotos vintage dos anos 70 mostram uma artista a descobrir a sua sexualidade
Todas as fotos por Meryl Meisler.
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Fotos vintage dos anos 70 mostram uma artista a descobrir a sua sexualidade

Tirar auto-retratos em casa dos pais, "empurrou" Meryl Meisler para fora do armário.
13 February 2018, 2:21pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Ao crescer em Long Island, Nova Iorque, EUA, durante os anos 1950 e 60, Meryl Meisler tinha uma típica vida suburbana: fazia parte do grupo de escuteiras, tinha aulas de ballet e sapateado e ia aos bailes da escola. Mas, apesar de adorar a família e amigos, não se sentia efectivamente enquadrada. Cedo percebeu que não queria ser dona de casa, professora, enfermeira ou secretária - praticamente as únicas opções para as mulheres jovens da época.

À medida que Meisler entrava na vida adulta, começou a descobrir a sua sexualidade como lésbica, além da sua identidade como artista. “A fotografia está nos meus genes”, assegura Meisler. O avô do lado do pai, Murray Meisler, o tio, Al, e o próprio pai, Jack, eram praticantes da arte.

Meisler teve a sua primeira câmera quando ainda andava na escola primária, mas só quando se matriculou na Universidade de Winsconsin em Madison, em meados dos anos 70, começou a investir seriamente no formato, ao mesmo tempo que tirava o mestrado em Artes. Durante as férias, regressava à casa onde cresceu e onde fez uma série de auto-retratos que exploravam o seu passado, presente e futuro. Nessa altura, Meryl ainda não tinha ouvido falar de Cindy Sherman, mas tinha o mesmo instinto que ela e tentava examinar a construção do género feminino, dos rituais às poses e às personas que construía.

Uma selecção dessas fotografias aparece em Purgatory & Paradise: SASSY 70s Suburbia & The City (Bizarre), enquanto outras só recentemente viram a luz do dia, numa altura em que Meisler se prepara para lançar o próximo livro. Nesta entrevista, a artista fala sobre esse período seminal da sua vida e partilha auto-retratos da época em que era uma jovem pronta para voar.

Auto-retrato, The Girl Scout Oath, Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.

VICE: Como era a vida de uma criança que cresceu em Long Island durante os anos 50 e 60?
Meryl Meisler: Sou de Massapequa. Chamávamos-lhe “Matzo Pizza”, porque viviam lá muitas famílias judias e italianas. Tínhamos irlandeses, alemães, gregos e até uma ou duas famílias chinesas e cubanas. Mas, era - e ainda é - uma cidade muito segregada.

Quando era criança, toda a gente era da primeira ou segunda geração de norte-americanos. A maioria dos pais vinham do Bronx, Brooklyn e Queens e tinham comprado as suas casas nos subúrbios por menos de 15 mil dólares. Estava tudo a começar. Os terrenos agrícolas e quintas estavam a transformar-se em condomínios.

Os meus pais, Sunny e Jack Meisler, investiram neste estilo de vida suburbano e garantiram que eu e o meu irmão tivéssemos tudo o que eles não tiveram, porque quando eram crianças eram muito pobres. Tive aulas de piano, ballet, sapateado... tudo menos artes plásticas! Também fui escuteira até chegar a cadete.

Era tudo muito provinciano. Por sorte, o meu pai levava-nos bastante à cidade. Ele tinha um negócio de impressão e a minha mãe adorava teatro. Víamos muitos espectáculos da Broadway. Acho que é possível ver isso no meu trabalho - é muito teatral.

Auto-retrato, The Ballerina, Massapequa, NY, Junho de 1975 ©Meryl Meisler.

Em que ponto percebeste que não te encaixavas completamente e não ias começar a tua vida adulta nos subúrbios?
Se queres falar sobre o facto de ser gay, sim, eu tinha sentimentos. Mas, também namorava, ia a bailes, aniversários de 16 anos e tinha namorados. E gostava de tudo isso. Sabia que era diferente, mas não sabia no quê.

O meu irmão e eu fomos a primeira geração da nossa família a ter o luxo de ir para a universidade. Entrei para a Buffalo State. Não sabia o que queria fazer. No primeiro dia, recebemos uma bateria de testes e o resultado foi que eu podia tentar educação ou artes. Fiz uma aula de artes e adorei. O professor perguntou-me se não queria tornar-me estudante de artes e o meu coração saltou.

Liguei aos meus pais e disse-lhes que queria estudar artes. No entanto, eles pediram que eu também tirasse educação, para ter uma forma de ganhar a vida. Era uma coisa de que também gostava e formei-me em educação como a melhor aluna da turma.

Acontece que Cindy Sherman também estudou na Buffalo State. Era estudante de artes, formou-se um ou dois anos antes de mim e também é de Long Island, o que é muito engraçado. Mas, lá nunca tive aulas de fotografia.

Auto-retrato, Smoking Dishwasher, Massapequa, NY, 1973 ©Meryl Meisler.

Como é que te interessas-te por fotografia?
A fotografia sempre fez parte da minha vida. Sempre que via o meu avô, ele tinha uma câmera e um fotómetro. O meu pai tinha um olho de águia e fotografava com uma Rolleicord. O meu estilo é muito influenciado por ele. Ele fotografava amigos, família e ocasiões especiais. Era muito bom.

No segundo ano da universidade, o meu namorado deixou-me. Disse-me que eu não era uma verdadeira artista. Então, o que é que eu fiz? Fui ao Museu de Arte Moderna ver a exposição de Diane Arbus. Era uma consciência de “Sou uma artista, sim, foda-se!”.

Enquanto estava na universidade, decidi fazer uma aula de fotografia porque queria aprender a usar uma câmera à séria. Comprei uma Minolta STR-101. Estava a ler o manual de instruções no avião de regresso a casa, deixei-a cair e achei que a tinha estragado.

Assim que cheguei a casa, comecei a fotografar-me e a fotografar amigos. Agora estou a rever os meus primeiros rolos de filme 35mm, para o meu próximo livro. Descobri uma das primeiras fotos que tirei, em que estou a fumar à frente da máquina de lavar louça. Não sei se foi o primeiro ou segundo rolo, mas fiz imediatamente um auto-retrato.

Essa fotografia chocou-me. Nunca a revelei. Estava a usar apenas o vestido da minha mãe de andar por casa e agarrei nos cigarros dela, mesmo não fumando. Estava a questionar-me: “Sou uma futura dona de casa?”. Foi um momento muito privado.

Auto-retrato, Shaving, Massapequa, NY, 1973 ©Meryl Meisler.

De que forma é que os auto-retratos te permitiram explorar esse momento de transformação na tua vida?
Queria fotografar essa vida que conhecia, que tinha visto e vivido durante tantos anos. Voltei para casa e fui aos armários e ao sótão, onde guardávamos as coisas para ocasiões especiais. As fotos são sobre a vida entre a infância e a vida adulta, onde eu me pergunto “Quem sou eu? O que quero ser?”.

O teatro foi uma grande influência. Iluminei as divisões de casa como um palco, uma luz muito directa e crua, usando as cortinas como cortinas de teatro e os objetos como cenários. A casa era como um membro da família, porque morei ali desde os dois anos. Tinha 21, ia fazer 22, quando comecei a tirar estas fotos e, definitivamente, estou a dizer “Sai do armário! Sai já!” (risos). Eventualmente aconteceu, mas muitas dessas fotos são no meio de tudo isso. Estava a questionar o meu futuro nos subúrbios. Não via como me encaixar.

Hoje consegues ver algo nas fotos de que não estavas consciente quando as tiraste?
Vejo essas fotos como muito corajosas - e até ousei revelá-las. Fico surpreendida ao ver o quão determinada eu era.

Untitled Film Still, Massapequa, NY, Acção de Graças, 1976 ©Meryl Meisler.

Por falar em ousadia, conta-me sobre a foto de Lynda Benglis e como te inspirou a criar um dos teus auto-retratos mais radicais.
Há um cartaz da exposição de Lynda Benglis pendurado no corredor do departamento de artes da Universidade de Wisconsin. Ela está de pé, nua, a usar um vibrador enorme! Não sabia de onde tinha tirado inspiração para essa foto até termos essa conversa. Para mim, a minha câmera era o meu poder. Tirei essa foto mais de uma vez. Uma vez, um tipo com quem andava a sair ajudou-me, outra acho que foi a minha futura noiva (risos). Certamente que não foi o meu irmão!

Quando, em 2016, Steven Kasher estava a considerar dar-me uma exposição, estava a olhar para as minhas fotos impressas e escolheu essa! Fiquei tipo, “Tenho de lhe dar um título”. Resolvi chamar-lhe “Untitled Film Still”, como referência a Cindy Sherman.

É uma imagem corajosa. Basta mostrar esta e toda a gente fica “Ohh!”. Sou muito crítica sobre o que é uma boa foto. Não pode ser só chocante, só composição ou história - tem que ser um pouco de tudo. Olhei para esta imagem e percebi que tem isso tudo. Também houve um momento em que pensei: “Se não for agora, quando será?”. Sabes uma coisa? Esta é uma imagem perfeita.

Auto-retrato, My Childhood Bedroom Mirror, Massapequa, NY, Fevereiro de 1976 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Girl Scout Applying Lipstick, Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, A Falling Star, Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Dancing with my Brother Mitch, Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Playmate Hostess, Nova York, NY, Dezembro de 1978 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Tap Dancing with Mom, Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Whopping it up with Leslie After Chauffeuring Mitch to the Prom, Huntington, NY, Junho de 1976 ©Meryl Meisler.

Auto-retrato, Dining Room Table, North Massapequa, NY, Janeiro de 1975 ©Meryl Meisler.


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