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Emojis quebram a barreira de linguagem entre mim e meu pai

E fazem o mesmo por muitas famílias de imigrantes que falam vários idiomas.
Imagem por Lia Kantrowitz para a VICE.

Quando minha mãe fugiu da guerra na Libéria para os EUA, ela não sabia se veria meu pai de novo. Ele era senegalês e não tinha condições de vir com ela. Mais tarde, ela me disse que inicialmente manteve contato, e que eu falava com ele em francês. O quanto uma menina de dois anos conseguia falar, claro. Não me lembro disso, mas sei que ficamos sem contato com ele até recentemente.

Agora, reconectados depois de muito tempo, quase toda mensagem que envio para o meu pai contém algum tipo de emojji – geralmente aqueles que espero que transmitam exuberância ou uma felicidade geral com as coisas. Ele responde à altura, com mãos fazendo joia, corações ou – seu emoji favorito – uma galinha sorridente. Mas como não sou fluente em francês e o inglês dele é igualmente rudimentar, geralmente temos problemas até nas conversas mais básicas.

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Uma vez ele me perguntou se eu tinha uma mesa no meu trabalho. Eu tinha esquecido a palavra para mesa em francês, e disse isso pra ele. Ele me provocou dizendo que eu precisava estudar mais minha língua nativa, e me mandou um gif de um personagem animado numa mesa e uma foto do local de trabalho dele. Entendi imediatamente, e mesmo me sentindo ridícula por esquecer uma palavra tão simples, respondi com uma foto com a legenda “Essa é a minha mesa”, e acrescentei o emoji de lágrimas de felicidade para dar ênfase. Geralmente, mando mensagens cheias de erros de gramática e frase incorretas em francês em vez de abrir o Google Tradutor – iniciando uma troca ao redor do conceito ou do termo que fica segundo o quanto entendi errado alguma coisa.



Dependo dos emojis para me comunicar com ele. E o meio é especialmente adequado como ponte entre línguas na internet, segundo Salikoko S. Mufwene, professor de linguística da Universidade de Chicago especializado em contato de línguas e linguística evolutiva.

“Naturalmente, mostramos através da nossa linguagem corporal, através de expressões faciais, se estamos tristes, felizes e assim por diante, e não importa se você é japonês, chinês, senegalês ou francês: você vai reconhecer isso”, disse Mufwene. “E é isso que os emojis estão fazendo.”

Mufwene explica que, como os emojis são essencialmente imagens, eles funcionam de maneira similar à linguagem corporal. Eles lembram fisicamente o que representam, e no caso das expressões faciais, podem servir como um tipo de tradução do sentimento das pessoas. Mas os emojis também tomam um significado além do nível literal. Laurel Mackenzie, professora-assistente de linguística da Universidade de Nova York, me explicou que famílias geralmente têm significados internos para emojis, frases e gestos. As pessoas basicamente usam os emojis para construir a língua da própria família.

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Isso é muito verdade para Zoë Haylock, uma mulher de 21 de Palmdale, Califórnia, nativa e filha de imigrantes belizenses, dizendo que seu pai geralmente manda um emoji ou bitmoji por dia para ela. Essa prática começou quando ela entrou na universidade, depois que o pai dela compareceu a uma reunião de pais de calouros. “[Isso significa] que ele está pensando em mim, ou que está preocupado comigo, e é a coisa mais fofa”, me disse Haylock. No caso da estudante Elli Hu, 20 anos, da Universidade de Nova York, a linguagem de sua família está ligada a coisas como falar com os avós. Hu explica que quando fala mandarim com os avós, muitas vezes eles passam para xangaiês no meio da conversa, uma língua que Hu não entende. “Então acabo perdendo o que eles estão tentando dizer”, ela disse.

Ela define a maior parte da língua de sua família como baseada em piadas com o idioma ou tirando sarro dela e outros parentes. O emoji de rosa, em particular, representa “tenho orgulho de você” ou “bom trabalho” na sua família. Além disse, Hu aponta uma série de figurinhas do WeChat que se tornou sinônimo dela no grupo da família.

“É um sapo e um cavalo humanóides animados, que dançam e fazem coisas engraçadas como figurinhas de reação”, diz Hu. “Uso tanto alguns desses que acho que minha família já sabe o que quero dizer quando mando um sapo. Eles simplesmente sabem – porque acho que vários gestos deles são muito 'eu'.”

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A Dra. Rachael Tatman, cientista de dados com base acadêmica em sociolinguística computacional, esclarece que piadas internas entre amigos é algo muito similar à língua de família. “Basicamente, quando mais experiências compartilhadas duas pessoas têm, mais informação elas compartilham”, explicou Tatman. “Isso significa que você precisa de menos informações para indicar um evento específico. Em termos de teoria da informação, há menos entropia.”

Sempre penso se teria continuado próxima do meu pai se tivesse a chance de crescer com ele por perto. Mas posso usar algo tão simples como um emoji para criar uma ponte e construir conexões mais profundas com ele em meus próprios termos. Pode ser só um emoji de sorriso, mas ele substitui todas as vezes que meu pai não teve a chance de ver sua primeira filha sorrir. E sou grata por isso. Alternância de código linguístico – ou mudar o jeito como você fala dependendo de quem está ouvindo – não é um conceito novo, o que mudou foi o meio pelo qual fazemos isso.

Essa tecnologia ainda está evoluindo, o que significa que a tradução nem sempre é perfeita. Fazemos piadas culturalmente específicas que o outro não entende ou, com mais frequência, meu pai usa uma frase que não conheço. Ainda assim, emojis estão aqui quando quero reclamar do calor mandando uma série de soizinhos, ou ele me deseja feliz Dia da Independência Liberiana com um emoji de confete. Às vezes até as trocas mais simples ainda empacam por causa da barreia de língua entre nós. Mas toda vez que superamos essa barreira, a ponte que estamos construindo se torna mais forte.

Matéria originalmente publicada na VICE US.

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