Sexo

As mulheres que têm um fetiche com traição

A tara se chama “homewrecker kink” – e com certeza é um bagulho controverso.
KC
ilustração por Kim Cowie
MS
Traduzido por Marina Schnoor
9.12.19
fetiche com traição

Para a maioria das pessoas, a ideia de que seu parceiro está te traindo é horrível. Muita gente já passou por isso, e quer o relacionamento tenha sobrevivido à infidelidade ou não, aquele sentimento inicial de traição pode ser difícil de superar.

Mas para algumas mulheres, o tabu do parceiro de alguém traindo é excitante. Essas mulheres se excitam sendo chamadas de sedutoras, com atrair homens parceiros de outras mulheres. Através de aplicativos de encontro e sites, elas encontram homens em relacionamentos sérios e os convidam para dates e sexo, pedindo a eles para enganar as parceiras e manter o caso em segredo. O fetiche é conhecido como kink homewrecker – e, segundo as pessoas com quem falei, parece se aplicar principalmente a mulheres hétero procurando homens heterossexuais em relacionamentos monogâmicos.

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Segundo um estudo de 2017, o número de pessoas que traem seus parceiros tem caído nos últimos dez anos, e millennials traem menos que as gerações mais velhas. Talvez em parte porque nossas definições de traição mudaram. Relacionamentos abertos e não-monogamia ética estão em ascensão, com um em cinco americanos dizendo estar num relacionamento não-monogâmico. Feeld, um aplicativo que vem sendo chamado de “o Tinder do ménage”, tem mais de 200 mil usuários ativos, muitos deles casais que usam o app juntos. Relacionamentos abertos não são a mesma coisa que trair por uma razão importante: traição envolve mentir.

Descobri o kink homewrecker quando uma mulher fez uma proposta pro meu parceiro de sete anos através do Feeld. Ela explicou por mensagem direta exatamente o que estava procurando: ela queria caras em relacionamentos sérios que se encontrassem com ela num hotel para transar. Era vital que a parceira não soubesse sobre o encontro, ela explicou. Ela também queria fazer vídeos para mandar para o marido dela, que curtia ser voyeur da tara dela.

Meu parceiro recusou educadamente e me mostrou as DMs. Minha resposta inicial foi raiva: enquanto nunca é certo condenar o kink de alguém se ele é consensual, parecia que isso tinha algo diferente. Esse fetiche envolve inerentemente desonestidade e dano emocional em potencial. A mulher que está sendo traída, por definição, não está consentindo. Mas decidi descobrir mais. Talvez houvesse mais no homewrecker kink do que parece à primeira vista. É preciso duas pessoas para trair. Talvez eu estivesse julgando rápido demais.

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No Reddit, postagens no sub r/adultery incluem comentários de dezenas de mulheres que têm o fetiche. “Eu amo”, escreveu uma usuária. “Se esconder, a excitação, o segredo.” Mas muitas mulheres também expressam culpa com o que estão fazendo. “Isso realmente me faz recuar às vezes”, escreveu uma. Outra admitiu: “A culpa me atinge como uma onda às vezes”.

Entrei em contato com Melissa Vitale, diretora de comunicação do NSFW, um clube de sexo privado em Nova York. O NSFW se orgulha de suas políticas de consentimento entusiástico (um dos slogans deles é “consentimento é sexy”). Eu queria saber o que Melissa achava do kink e se, como eu, isso a deixava desconfortável. “Acredito em karma de relacionamento”, Melissa me disse por telefone. “Mas eu diria que traição é sempre culpa do parceiro, não da 'outra'. A pessoa no relacionamento é quem tem a responsabilidade, pra ser honesta.”

Melissa já conheceu várias mulheres que têm kink homewrecker, mas mesmo não sendo algo que ela faz, ela entende as motivações. “É um tabu, é proibido, então o apelo não está tanto na traição em si, mas na emoção de poder ser pego. É uma forma de rebelião.”

Ela me colocou em contato com Amanda, que transou com homens que estavam traindo por 18 anos, até decidir, dois anos atrás, que não queria mais fazer isso. Agora ela se envolve com não-monogamia ética. Contei pra Amanda sobre minha experiência com o kink homewrecker. Minha resposta furiosa, ela diz, é totalmente normal.

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“Sua reação inicial de raiva parece padrão”, ela escreveu num e-mail. “Ouvi isso muitas vezes: 'Como você pode fazer isso com outra mulher?' Minha razão sempre foi que a pessoa traindo é que estava errada. Enquanto eu certamente me sentia uma cúmplice na traição, no final das contas isso ficava entre o homem e sua parceira monogâmica.”

Eu queria saber qual o apelo para ela. Por que Amanda formou tantos relacionamentos com homens que estavam traindo? “A dinâmica joga inerentemente com o fator do medo de ser pego, ou guardar um segredo entre amantes. Isso criava uma conexão além do sexo em si.”

Falei com amigos gays, queer e não-binários para saber se eles já tinham ouvido falar do kink homewrecker – e parece que o fetiche é particularmente associado com relacionamentos heteronormativos. O que era verdade para Amanda, que se envolveu quase que exclusivamente com homens heterossexuais aparentemente monogâmicos por quase duas décadas.

Gigi Engle é uma treinadora e educadora sexual cujo livro, All the Fucking Mistakes: A Guide do Sex, Love and Life, fala muito sobre sexo feminista, prazer feminino e hipocrisia. Perguntei o que ela achava do kink homewrecker e as mulheres que participam dele. “O conceito da 'outra' nasceu da visão da sociedade de que a sexualidade do homem não pode ser contida, que eles não podem fazer nada sobre isso”, ela explicou por e-mail. “E claro eles podem, e devemos responsabilizar toda pessoa num relacionamento por suas ações.”

A sociedade ainda adora condenar mulheres quando se trata de sexo. Vergonha sexual é jogada nas mulheres muito mais prontamente do que nos homens. Percebo agora que também estava pensando assim quando julguei aquela mulher no Feeld. Inegavelmente, jogar toda a culpa numa mulher, quando o homem é quem fez a escolha, não é certo. Enganar seu parceiro nunca é legal, mas a imagem datada da sedutora precisa ser desafiada. Talvez o kink homewrecker seja um jeito de fazer isso.

@mossabigail

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