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Saúde

Os probióticos funcionam mesmo?

Consumimos estas bactérias para a digestão, imunidade, depressão e várias outras coisas. Faz sentido?

Por Elizabeth Brown; Traduzido por Madalena Maltez
29 Maio 2018, 2:58pm

Crédito:  Alex Bueckert / Getty

Este artigo foi publicado originalmente na nossa plataforma Tonic.

Durante grande parte da minha vida, pensava em probióticos como algo que só tomaria se perdesse uma aposta. Até que um Síndrome do Intestino Irritável (SCI) causado por stress transformou o meu trato intestinal num rio de merda constante – estamos a falar de semanas a fio com tudo o que eu comia a sair directamente pelo meu rabo em forma líquida.

A Internet dizia que probióticos eram a melhor aposta não farmacêutica para ajudar o meu sistema digestivo a acalmar, portanto engoli o meu orgulho (e a minha primeira kombucha) e meio que vi a luz. O meu SCI não foi totalmente curado, mas os probióticos ajudaram-me a passar menos tempo na casa-de-banho com os olhos arregalados de terror e mais tempo a fazer o que realmente importa – ver televisão com a minha família.


Vê: "Matar o Cancro"


Embora os probióticos existam desde que descobrimos as bactérias, só foram oficialmente identificados pelos seus benefícios para a saúde no começo do século XX, pelo biólogo russo Élie Metchnikoff. Metchnikoff acreditava que “bactérias boas”, como aquelas que produzem ácido láctico, podiam prolongar a vida, adiar a senilidade e até recomendava beber leite azedo para uma saúde melhor. Apesar das teorias de Metchnikoff terem sido descartadas por muitos dos seus contemporâneos, o primeiro probiótico comercial, o Yakult, chegou ao mercado em 1935 e continua nas prateleiras até hoje.

Mais de 80 anos depois, os probióticos tornaram-se incrivelmente populares e muito lucrativos. Uma investigação de 2012 do National Institute of Health mostrou que 3,9 milhões de norte-americanos diziam ter usado alguma forma de probióticos ou prebióticos (um tipo de fibra que alimenta o teu intestino com bactérias benéficas) nos últimos 30 dias – três milhões de pessoas a mais que no mais recente estudo anterior, datado de 2007.

Probióticos estão agora disponíveis em quase todas as formas imagináveis – comprimidos, tabletes, iogurtes, sumos, cereais e barras energéticas. Prometem benefícios não só para a saúde digestiva, mas para transtornos de humor, cancro, prevenção de gripes e constipações e questões de saúde reprodutiva.

Quando perguntei a amigos e familiares sobre as suas experiências com probióticos, tive respostas mistas. Alguns disseram que lhes mudaram a vida, outros que nunca sentiram nenhum efeito. Deixei as anedotas de lado e falei com Ben Lebwohl, gastroenterologista e director de investigação clínica do Centro de Doença Celíaca da Universidade de Colúmbia, nos Estados unidos, para tentar perceber se os probióticos são um milagre ou um mito.

Primeiro, Lebwohl acredita que parte da moda mais recente dos probióticos se deve a um reconhecimento maior de que os antibióticos são usados em excesso. “O uso excessivo de antibióticos tem consequências”, diz. E acrescenta: “As pessoas estão à procura de tratamentos que possam reequilibrar a saúde, mas que não envolvam perturbar o microbioma da forma como os antibióticos fazem”.

“Microbioma” refere-se aos biliões de bactérias e microorganismos que passam a vida a entrar e a sair dos nossos corpos. “Há cada vez mais reconhecimento das várias formas como o microbioma afecta a saúde”, explica Lebwohl. E adianta: “E, com esse reconhecimento, vem a observação verdadeira de que muitas bactérias são boas para nós. Isso vai contra a ideia de que bactérias são iguais a germes, o que é igual a dano. Acontece que muitas bactérias nos mantêm saudáveis e os probióticos podem apoiar essa noção”.

Mas noção não é igual a prova e Lebwohl alerta contra a corrente de pensamento que olha para probióticos como uma cura para tudo e sublinha que é preciso examinar as formas como esses produtos se mostraram eficazes e aquelas em que não. Então, para quais condições médicas é que os probióticos se mostram promissores e que afirmações têm a mesma credibilidade de um vendedor manhoso de carros usados?

Probióticos ajudam com o síndrome do intestino irritável?

Sim, podem ajudar. Lebwohl lembra que há estudos respeitáveis que mostram a ligação entre o consumo de probióticos e a redução de sintomas de SCI, citando esta metanálise. Estima-se que 11 por cento da população mundial sofra de cólicas abdominais, diarreia, intestino preso, gás ou muco em excesso nas suas fezes. Enquanto parte desta condição pode ser atribuída a certos gatilhos alimentares, outra parte parece estar relacionada com stress, o que nos leva ao cerne de muitas afirmações sobre a eficácia de probióticos – o eixo intestino-cérebro.

Lebwohl diz que SCI não tem só a ver com desconforto intestinal. Para muitas pessoas com o transtorno, é uma questão de o cérebro receber mensagens sobre dor. Ele descreve o cólon humano como “quase reptiliano”, na maneira como se contrai e relaxa durante o dia, mas diz que essas contracções geralmente ocorrem abaixo dos limiares da consciência, por isso nem notamos. Nas pessoas com SCI, os neurotransmissores do intestino (sim, temos lá neurotransmissores também) podem mandar sinais de perigo para o cérebro sobre contracções que acontecem no trato digestivo.

Nesses casos, SCI é essencialmente uma inibição transmarginal. “Para o cólon funcionar como deve, precisa de se contrair e relaxar de uma maneira condutiva para os movimentos intestinais normais que ocorrem a horas previsíveis e não muito frequentemente, ou muito raramente”, diz Lebwohl. “O intestino precisa de dar feedback infrequente ao cérebro. E as pessoas podem estar a receber actualizações do seu intestino na forma de cólicas, ou a sentir que estão a ter movimentos intestinais com muita frequência. Pessoas com SCI recebem com muita frequência esses 'relatórios de progresso' não solicitados do intestino”, explica.

Como os probióticos conseguem diminuir esse fluxo de “relatórios de progresso” ainda não se sabe exactamente porquê. Mas Lebwohl diz que tem algo a ver com olhar para biliões de bactérias no microbioma e “mudar a comunidade” ao acrescentar probióticos à mistura, o que se tem mostrado capaz de desacelerar a tendência do intestino de partilhar informação em demasia nalguns casos.

Apesar de Lebwohl não se sentir confortável a indicar publicamente uma marca específica, salienta que “há uma marca amplamente usada, cujo principal composto é o bifidobacterium ou lactobacilos, que parece uma forma razoável de um paciente experimentar probióticos, embora seja sempre melhor fazê-lo sob a supervisão de um profissional de saúde”. O especialista aconselha, por isso, que se procure por um suplemento com algo entre mil milhões e 10 mil milhões de unidades formadoras de colónias, ou UFCs.

Então, os probióticos são, provavelmente, bons para diarreia relacionada com antibióticos, certo?

Provavelmente. Lebwohl diz que probióticos podem diminuir o risco de ter diarreia durante tratamento com antibióticos e também podem ter um papel em prevenir especificamente o desenvolvimento da super diarreia relacionada com antibióticos C. difficile. Os antibióticos podem acabar com as bactérias boas que te impedem de ficar doente se fores exposto a C. difficile, ou se já tiveres isso no teu sistema. Sintomas de C. difficile variam de diarreia líquida moderada várias vezes ao dia, a infecções graves que podem ser acompanhadas de febre, sangue nas fezes, batimentos cardíacos acelerados e podem até levar a insuficiência renal. Cerca de 500 mil norte-americanos estavam infectados com C. difficile em 2015 e 15 mil morreram por causa disso.

Para o Síndrome do Intestino Irritável, pacientes que respondem bem a probióticos podem tomá-los a longo prazo, diz Lebwohl, para manter os sintomas sob controlo. Com algo como diarreia relacionada com antibióticos, podes tomar probióticos por um período definido até os sintomas desaparecerem. “Isso já foi estudado em crianças e adultos e, mesmo com resultados variados, a metanálise sugere que os probióticos podem ser uma protecção neste contexto”, acrescenta.

E quanto ao humor? Podes realmente tomar alguns lactobacilos, ou algo do género, para te sentires menos ansioso?

Não. “Há estudos que sugerem uma ligação teórica entre microbioma e até mudanças no microbioma e mudanças no cérebro”, sublinha Lebwohl. O especialista aponta este estudo, onde mulheres saudáveis com problemas gastrointestinais fizeram ressonâncias magnéticas ao cérebro antes e depois de um mês a consumirem iogurtes com probióticos duas vezes ao dia.

vários estudos adicionais que ligaram stress a mudanças nas bactérias intestinais, por isso parece haver uma ligação. No entanto, Lebwohl diz que isso não é suficiente para recomendar a prática de forma ampla, referindo-se a esses estudos como “estudos de geração de hipóteses”, que podem levar a testes clínicos concretos, onde probióticos são testados contra um placebo. “Esses estudos são importantes. Mas, é prematuro dizer que esses estudos podem mudar as práticas estabelecidas”, alerta.

OK, mas fiquei entusiasmada com a possibilidade de usar probióticos para tratar candidíase. Devo continuar a fazê-lo?

Claro, porque não? Lebwohl diz: “A candidíase é, basicamente, um crescimento excessivo de um tipo de fungo. Em teoria, um probiótico pode ter um efeito no microbioma da vagina, apesar de provas disso ainda não terem sido realmente estabelecidas”. Não há perigo em experimentar, desde que não sucumbas à tentação de colocar iogurte na vagina.

Acho que agora vais dizer que probióticos não vão ajudar com o cancro da minha mãe

E tens razão. Lebwohl diz que não há estudos actualmente que apoiem o uso de probióticos contra o cancro e que ele se preocuparia se alguém com um sistema imunitário comprometido usasse probióticos. “Ainda não há um estudo adequado sobre o cancro e probióticos. E eu preocupar-me-ia com o uso de probióticos por alguém que pode ter o sistema imunitário comprometido pelo cancro, porque há casos raros, mas documentados, de infecções que surgem pelo uso de probióticos”.

Um estudo de 2017 em pacientes com cancro mostrou que mais de 80 por cento deles estavam a tomar algum suplemento, vitaminas, minerais ou ervas para tratar problemas digestivos causados pela quimioterapia. Os investigadores notaram que, apesar de esses suplementos poderem ser benéficos em alguns casos, também podem mudar o metabolismo de drogas usadas no tratamento ou levar a condições perigosas como sepse por causa do sistema imunitário comprometido do paciente.

A página do Memorial Sloan Kettering Cancer Center sobre probióticos diz que mais testes clínicos são necessários para confirmar a eficácia de probióticos e também fornece uma lista assustadora de casos onde os pacientes desenvolveram sepse ou outras infecções bacterianas por tomar probióticos durante o tratamento do cancro.

OK, mas devo continuar a tomar probióticos para melhorar a minha imunidade, certo? Combater gripes? A Jamie Lee Curtis é que disse

Sim, ela disse, mas tu deves ter reparado que já não vês esses anúncios de iogurtes. Isso porque, em 2010, a Comissão de Comércio Federal dos EUA e 39 promotores estaduais proibiram essas campanhas, quando descobriram que a Dannon Company não tinha provas científicas para apoiar tais afirmações e teve que pagar 21 milhões de dólares para resolver as investigações associadas.

Embora um estudo de 2009 tenha mostrado provas de redução de sintomas de gripe e constipações em crianças entre os três e os cinco anos e uma análise de 2015 tenha revelado que probióticos são melhores que placebos para evitar infecções agudas do trato respiratório superior, nenhuma convenceu o National Institutes of Health quanto à eficácia de probióticos para gripes e constipações. O NIH confirma: “As provas são fracas e os resultados têm as suas limitações”.

Então, para o bem-estar geral, os probióticos não são realmente úteis?

Certo. “Não há provas de que tomar probióticos promova intrinsecamente o bem-estar”, diz Lebwohl. E acrescenta: “E alguém que se sente saudável não tem motivo para tomar probióticos”. A Escola de Saúde de Harvard concorda, cedendo um "talvez" quanto aos probióticos: “O melhor que podemos dizer é que não são prejudiciais e que podem ajudar”.

Há ciência que diz que os probióticos podem ajudar com certos tipos de diarreia, mas que, para outras condições, não é uma aposta certeira. Lebwohl refere que a primeira coisa que precisa de mudar para os probióticos se tornarem realmente legítimos na comunidade médica é a sua regulamentação. Como actualmente são vendidos como suplementos alimentares, os probióticos não estão sujeitos aos mesmos padrões do FDA para medicação. Isso significa que não só não têm provas de que os probióticos funcionem, como também não há garantia de que os rótulos desses produtos mostrem o que vem realmente dentro da garrafinha.


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