Grávidas falam sobre fumar maconha durante a gestação
Ilustração: Flora Prospero/VICE
Drogas

Grávidas falam sobre fumar maconha durante a gestação

“O beck me ajudava a combater os enjoos."

Fumar maconha durante a gravidez é um assunto ainda nebuloso para a ciência por conta da escassez de informações sobre o assunto, principalmente no Brasil. Alguns estudos estão em andamento no país, mas ainda não podem ser usados como referência para se bater o martelo sobre o tema.

Entre os motivos para o consumo da erva durante a gestação, o combate a náuseas é um dos argumentos usados pelas futuras mães. A VICE conversou com duas mulheres que usaram cannabis durante a gravidez e que mantém o hábito durante a amamentação de seus bebês.

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Maria*, 37, começou a fumar maconha aos 17 anos e “nunca mais parou”. Quando descobriu que estava grávida pela terceira vez, continuou fumando, inclusive tabaco. Porém, depois de um tempo, passou a sentir enjoos e percebeu que o cigarro convencional “estava fazendo mal” e os com ganja “não”. Em casa, na Zona Norte de São Paulo, Maria enrolava um baseado enquanto conversava com a VICE. “Como a gente olha para a barriga, e a vê lisa, não parece que tem um bebezinho ali ainda. Na hora que passa a crescer é que começa a cair a ficha”, falou.

Ela acabou cortando o cigarro porque o tal mal-estar não passava, mas era minimizado ou extinto após uns tragos em um baseado. “O beck me ajudava a combater os enjoos”, disse. Maria também fumou maconha na primeira gravidez até o quinto mês, e agora na terceira gestação inteira, mas não com a mesma frequência que costumava consumir cannabis antes de engravidar. “Na segunda gravidez não fumei maconha porque ‘não tinha ambiente’. Havia pessoas em casa que poderiam me repreender”. Apesar de ter diminuído a quantidade de erva fumada, ela dá uns peguinhas todos os dias, mas por questões recreativas, pois os enjoos não fazem mais parte de sua rotina.

Questionada se o médico que realizava o pré-natal sabia sobre o consumo de erva, Maria disse que não. “Não achei necessário. Conheci outras mulheres que tiveram filho, que também fumaram maconha, e o nenê não nasceu com sequela nenhuma. Ele também poderia me julgar, já que é um ‘senhor’", mencionou.

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Maria deu à luz no início de abril e falou que também “vai dar uns peguinhas” durante o período de amamentação. Ela embasou sua escolha de fumar durante a gestação em poucas pesquisas que fez na internet, lendo casos parecidos de outras mulheres. “O que vi foram mães afirmando que a gravidez delas foi tranquila, normal – inclusive, a minha saúde está perfeita”. Acrescentou não ter lido estudos ou procurado a opinião de especialistas sobre o assunto.

Mãe de primeira viagem

Joana*, 29, que mora na região central da capital paulista, começou a fumar maconha por volta dos 14 anos, mas era algo esporádico. Porém, após ingressar na faculdade, se “assumiu maconheira”, que em sua definição, “é uma pessoa que gosta, que estuda, que pesquisa, que defende a legalização. Desde então, nunca mais parei de fumar. Eu sempre fumo maconha”.


ASSISTA – Baseado em Fatos: A Legalização da Cannabis no Brasil


Quando ela descobriu que estava grávida, fumava também tabaco e bebia bastante álcool. Interrompeu, imediatamente, o consumo das duas substâncias decidindo, no entanto, continuar fumando erva. “Eram muitas coisas para serem interrompidas ao mesmo tempo. Coisas das quais eu gostava bastante. Além disso, também fiz pesquisas e verifiquei que a quantidade de THC [tetra-hidrocanabinol, princípio ativo da cannabis que proporciona a chapação] que é passada para o nenê, na corrente sanguínea, é muito pouca. Por isso, decidi a continuar a fumar maconha”. O filho dela nasceu na segunda quinzena de março deste ano.

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Joana, porém, diminuiu a quantidade de ganja. Antes da gravidez, fumava, em média, de dois a três baseados diariamente. Depois, diminui para um beck, geralmente após o trabalho, no período da noite. “Cheguei a ficar também uma semana sem fumar”, relembra.

Assim como Maria, ela optou em não informar ao seu médico sobre o consumo de maconha durante a gestação. “Não falei com nenhum profissional que me acompanhou. Foi uma opção minha, para manter minha privacidade e minha segurança. Por isso, ninguém ficou sabendo. Eu me garanti pelas minhas pesquisas, pelas coisas que fui lendo”.

Joana ficou com um pouco mais de receio em fumar durante a amamentação, no entanto continua fumando com maiores intervalos de um beck para outro.

Bebês podem nascer menores, aponta pesquisador

Renato Filev, pesquisador do Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), entidade sem fins lucrativos que funciona no Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), disse que estudos demonstram existir um maior risco de diminuição do peso dos bebês, ao nascerem, em mães que usaram maconha semanalmente em relação àquelas que consumiram erva com menor frequência. “Este estudo também mostra que as mães que fazem o uso semanal apresentam maior probabilidade de parto prematuro, anterior a trigésima sétima semana, em relação às mães que usaram com menor frequência”, pontuou.

Ele acrescentou também que não há relação de consumo da cannabis com mortalidade perinatal (período que precede imediatamente o nascimento) ou natimorto (quando ocorre morte dentro do útero). Os estudos também são dificultados pelo fato de algumas mães consumirem também tabaco durante a gestação, não podendo ocorrer análises isoladas da maconha.

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Sobre fumar erva durante a amamentação, o pesquisador afirmou “não haver consenso” na medicina quanto a possíveis danos ao bebê.

Um estudo divulgado em abril deste ano pela Texas Tech University aponta que mães que fumam maconha podem concentrar um substrato da droga em seu leite. Oito mulheres, que amamentavam crianças de dois e cinco meses, foram analisadas. Após 24 horas de abstinência da erva, as mulheres inalaram 0,1 grama da planta, com 23% de THC. Amostras de leite materno foram coletadas 20 minutos, duas horas e quatro horas após o consumo da ganja. Analisando os resultados, os cientistas concluíram que os bebês chegam a ingerir 2,5% da dose consumida pelas mães.

Segundo cartilha do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, são necessárias mais pesquisas sobre a relação maconha e gravidez. Mas apesar disso, o órgão de saúde ressalta ser importante “compreender” como a maconha pode afetar a mulher e o bebê dela durante a gravidez. O CDC afirma ser contra o consumo da erva durante o período de gestação.

Teste em ratos no Brasil

No Brasil, um estudo feito pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP) propõe desvendar as consequências da inalação de maconha na gravidez usando camundongos como exemplo.

A pesquisa de mestrado, capitaneada por Sarah Benevenuto, registrou – a partir de teste de comportamento – prejuízo à memória, aos reflexos, à força muscular e à coordenação motora nos filhotes do grupo cujas “as mães” foram expostas à fumaça de maconha.

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Procuramos a pesquisadora, mas ela não retornou contato. Para a Agência Universitária de Notícias, declarou, no entando que “os modelos animais são muito utilizados em avaliações neurobiológicas e são uma ferramenta valiosa para a investigação de períodos críticos do desenvolvimento do cérebro humano".

Por isso, testes comportamentais com animais podem complementar os estudos em humanos, explicou a pesquisadora. "Uma vez que já foram encontrados paralelos nas janelas de suscetibilidade a estresse ambiental ou materno. Então, eu diria que sim, você pode fazer essa extrapolação."

Pesquisas em animais não são referência para humanos

O médico Dartiu Xavier da Silveira, que trabalha há 30 anos com o tratamento de dependentes químicos, além de ser professor do departamento de psiquiatria da Unifesp, afirmou ser necessário muito cuidado quando se realizam estudos em animais, com o foco em situações vivenciadas por seres humanos. “Falaram muito dos problemas causados pelo ecstasy, com base em estudos feitos em macacos. Mas a quantidade da substância usada nos animais mataria um ser humano”, justificou.

Sobre uso de maconha na gravidez, o especialista afirmou que concretamente existem somente duas coisas. A primeira é que mulheres grávidas devem evitar o consumo de qualquer tipo de substância nos três primeiros meses de gestação, quando o cérebro do embrião está em formação. Outro ponto apontado por ele é que, com base em 31 trabalhos de pesquisa feitos sobre maconha e gravidez, a única “coisa conclusiva” que mostraram foram dois efeitos: que o parto pode ser prematuro e a criança nascer abaixo do peso. “Porém, estes estudos foram revistos no sentido de ver se havia outros fatores e descobriram que as mães que deram à luz bebês menores usaram também tabaco e álcool, além da erva. As que usaram somente maconha não tiveram nenês com problemas de peso”. O mais recomendado, pondera, é que a grávida não consuma nenhum tipo de substância durante a gestação. Mas, com base nos estudos e consciente da realidade, o especialista conclui: “Melhor fumar um baseado do que um cigarro durante a gravidez”.

*Os nomes das entrevistadas foram alterados Siga a VICE Brasil no Facebook , Twitter, Instagram e YouTube.