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Os Sons of an Illustrious Father querem salvar o Mundo com punk queer... e adoravam ressuscitar mamutes

Entrevista exclusiva em Lisboa, com a banda norte-americana que é muito mais do que apenas o projecto musical do actor Ezra Miller.

Por Sérgio Felizardo
03 Julho 2019, 3:41pm

Sons of an Illustrious Father, nos camarins do Music Box, em Lisboa. Foto por Lara Luís.

Este artigo contou com a colaboração da Madalena Maltez, e da Raquel Zas, da i-D Espanha.

Estão 34 graus em Lisboa. São cinco da tarde de uma segunda feira de Maio e estou à porta do Music Box, no Cais do Sodré, à espera de uns ligeiramente atrasados Sons of an Illustrious Father. Já me ofereceram "coca" e "erva" tantas vezes como num sábado à noite. Nessa noite, a banda nova-iorquina estreia-se em Portugal com um concerto na sala lisboeta que marca o arranque de uma digressão europeia.

Os Sons of an Illustrious Father são o projecto musical - profusamente apelidado "queer-punk" - do actor Ezra Miller, que poucos dias antes tinha sido o grande destaque da Gala Met, em Nova Iorque, com os seus agora icónicos sete olhos. É também, claro, o projecto musical de Lilah Larson e Josh Aubin. E é para falar da banda que temos entrevista marcada com os três. "A carreira de Miller enquanto actor e modelo não deve ser abordada", pediram-nos. Compreende-se. Nos últimos anos, Ezra Miller, o actor e modelo, está por toda a parte. Em capas de revistas, no grande ecrã - na pele de Flash, ou de Credence Barebone em Monstros Fantásticos e Onde Encontrá-los, por exemplo -, na televisão, nas passerelles, enfim... uma estrela em ascensão por direito próprio, com um currículo invejável para quem ainda nem aos 30 anos chegou. Sobre a música que cria em conjunto com Lilah e Josh há mais de uma década, todavia, escreve-se e fala-se menos.

Pessoalmente, não conhecia e arrisco a dizer que a maioria dos que nessa noite acorreram ao Music Box terão chegado ao trabalho dos Sons of an Illustrious Father por causa de Ezra. Mas, ainda que talvez ligeiramente ofuscados - ou, como explicaria Lilah a dada altura na nossa conversa, "atrapalhados em termos de agenda" - por causa do sucesso cinematográfico de Miller, os norte-americanos já levam quatro disco editados desde 2009 e ao vivo são bastante surpreendentes. Ezra é um baterista pouco ortodoxo e um vocalista possante. Lilah e Josh vão trocando de instrumentos e de responsabilidades vocais quase a cada música, por entre incursões punk, rock de formato quase clássico, ou pop espacial de base electrónica. Divertem-se em palco e isso nota-se. Para Ezra, parece quase um escape de toda a pressão mediática a que está sujeito enquanto actor reconhecido e poster boy queer para o movimento LGBTQ+. Parece e, provavelmente é.

Na estrada são só eles os três, um road manager e um personagem com pinta de guru espiritual, enorme, de túnica e bengala trabalhada na mão, que mesmo antes de entrarmos nos camarins do Music Box para a entrevista, nos recorda: "Só perguntas sobre a banda, please!". Pouco antes, enquanto descarregavam o material da carrinha, o Cais do Sodré parecia indiferente à presença de uma estrela de Hollywood. Até que, um dos jovens trabalhadores da indústria dos estupefacientes de venda não autorizada que por ali circulavam se dirige a mim e, no momento em que Ezra passa com a bateria às costas, diz: "Eu conheço este gajo... Este gajo não é actor?!!?". Respondo-lhe que sim e, depois de uns segundos a puxar pela cabeça, dispara: "Já sei caralho, É O FLASH!". "Ó Flashh, Flashhh", gritaria depois a um timidamente sorridente Miller. Gente informada, atenta ao seu entorno e à actividade cultural que a rodeia. É isso que se quer.

Um entusiasmo, no entanto, mal compreendido por um dos colegas do tal jovem trabalhador da indústria dos estupefacientes de venda não autorizada, que não tarda em resmungar: "Foda-se, desgraçado do Flash que tem de vir a esta merda do Cais do Sodré...". Pois, bem falámos com uns bem humorados "Flash", Lilah e Josh sobre isso, sobre mamutes, sexo, atitude punk anti-patriarcal e o fim dos dias entre outras coisas.

VICE: Olá Ezra, Lilah e Josh, tenho 10 perguntas rápidas para vocês...
Ezra Miller: Nós só temos nove respostas! Vai ser como o jogo das cadeiras... [risos].

Então, passo já para a segunda. A música dos Sons of an Illustrious Father é complexa e encaixa em vários géneros. Como é que a descreveriam no mínimo de palavras possíveis?
Josh Aubin: Tragédia amorosa tridimensional.

Lilah Larson: Aceito isso.

E. M.: Sam Eliot Smith Family Robinson. [risos]

Bem, acho que conseguiram acrescentar mais um nível de complexidade à coisa... Vamos ver se algum dos nossos leitores consegue decifrar isso. De qualquer forma, genericamente falando, parece haver nas vossas canções um certo posicionamento de luta contra o hetero-patriarcado. A música tem lugar neste combate que é, sobretudo, político?
L. L.: Acho que sempre foi importante, sempre teve lugar e sempre esteve presente na música, só que agora o cenário é mais apocalíptico, dado o estado da política no nosso país e no resto do Mundo.

E. M.: Tudo o que está a vir à superfície leva a que as pessoas estejam particularmente numa situação em que querem algo que reflicta as suas políticas e experiência disforme do Mundo. Nos media, tudo isto, quer de um lado quer de outro, são coisas muito visíveis. A música, a arte, como exploração e exibição através da beleza, é inerentemente anti-patriarcal. Porque desafia classificações, desafia limites e leva-nos numa viagem experiencial interna que, naturalmente, não pode reflectir o estado tão anti-natura do hetero-patriarcado. A arte é o acto de equilíbrio do nosso Mundo e é-o há muito, muito tempo.

Vocês são muitas vezes catalogados como uma banda "genre-queer", "queer punk" e "genre-fluid". A fluidez de género tem um papel consciente na vossa música?
L. L.: É algo que nos é natural. Exploramos, conscientemente, a nossa natureza e predisposições como meio de fazer música. Sermos fluídos no nosso género e na expressão do mesmo permite-nos ser mais fluídos na nossa expressão em geral.

A vossa atitude é também considerada muito punk. Acham que há suficiente música punk hoje em dia?
L. L.: Nunca há suficiente música punk.

J. A.: Mas, é sempre demasiada, se for suficientemente punk.

L. L.: Eu aprecio sempre mais as mensagens punk. E acho que, hoje em dia, há grandes músicas não punk com mensagens punk.

Vocês focam-se em muitas coisas que necessitam muito dessas mensagens e atitude punk, como o activismo climático, por exemplo. Como é que os SOAIF, ou qualquer outra banda podem fazer a diferença nesse combate?
E. M.: Acho que há vários pontos a abordar nesta resposta. Por um lado, a música e a arte no geral podem ser o grito derradeiro para as pessoas se organizarem e desafiarem o estado das coisas e a direcção da espécie humana. Isso é verdade para todos nós, todos podemos ser atraídos para pensamentos e organização dos mesmos pela música. Por outro lado, a música tem o poder de ser ouvida por um magnata do petróleo, por exemplo. De ser ouvida e chegar a qualquer pessoa. Cruza fronteiras, não há sítio onde não consiga chegar. E, nesse sentido, todas as formas de arte são vitais nestas horas finais.

Achas que estamos nas horas finais?
E. M.: Segundo a ciência e o meu entendimento da mesma, estamos, pelo menos, nas ultimas décadas em que podemos atenuar as consequências do aquecimento global.

Na verdade, as canções do vosso álbum mais recente, Deus Sex Machina (2018), soam bastante como música feita para uma era apocalíptica...
E. M.: Sim, sem dúvida. Esse álbum foi como uma viagem. Falámos muito sobre aceitar a perda e reconhecer o que já está feito, o quão horrível é, como não podemos redimir ou desfazer o que fizemos. As espécies que estão extintas, que nunca vamos recuperar. Ou os ecossistemas que estavam presentes nesta Terra e eram sítios lindos onde podíamos ir e viver, que desapareceram. Mas, também, concluímos que aceitar essa realidade pode ser uma forma de termos mais coragem para enfatizar a necessidade de mudança. Quando calculas o que perdeste, tornas-te consciente do que ainda tens e isso é agora muito importante. É importante fomentar isso em nós próprios, esse acto de não dar nada do que temos neste Planeta e na vida como garantido.

L. L: Viram aquela notícia sobre o pássaro que estava extinto e agora voltou a existir?

Sim! Acabámos de a publicar.
E. M.: A sério? Isso é incrível! Bem, então risca isso, podemos ter algumas espécies de volta [risos]. Aliás, isto é um ponto importante. Há coisas imprevisíveis. Como aquela história dos piratas da Somália que, pelo simples facto de actuarem naquelas águas, levaram a que a pesca industrial fosse suspensa em determinadas zonas. Da mesma maneira que os cientistas nunca previram o quão rápido chegaríamos a este nível catastrófico de alterações climáticas. Ou estes momentos em que parece que subestimamos a capacidade natural da Terra de se curar e regenerar.

L. L.: Sim, mas temos que lhe dar espaço para isso acontecer.

E. M.: Claro, não podemos contar com isto de haver espécies extintas que voltam a existir! Apesar de agora ter ficado entusiasmado com a ideia de poder andar de mamute. Acho que isso vai acontecer brevemente, ainda durante a nossa vida. Tour de Mamutes 2021!

L. L.: Ouviram aqui primeiro!

E. M.: Já tínhamos pensado em fazer uma digressão a cavalo, mas em mamutes era muito melhor.

L. L.: Podíamos todos montar o mesmo mamute! Ia ser tão querido.

J. A.: Pode ser um mamute bebé?

[Risos e pausa para um debate sobre se os mamutes serão ou não vegetarianos ou não. Ezra assegura que só comem humanos que sejam membros de bandas, Lilah acrescenta que só humanos membros de bandas de que eles não gostem e comandados pelos SOAIF. "Isso seria bom!", concorda Ezra. "Assim comiam os membros de bandas de homens brancos sexistas", conclui Lillah]


Vê: "A missão para ressuscitar o lendário mamute"


Há alguma coisa que possa salvar a humanidade? O sexo, talvez?
L. L.: Sexo com mamutes.

J. A.: Parece perigoso.

E. M: Vamos ter que correr alguns riscos...

L. L.: Na realidade, o sexo sempre foi perigoso.

E. M: Verdade. E ainda é, malta!

L. L.: Façam testes! E sexo seguro!

Ezra e Lilah, vocês conhecem-se desde a adolescência. Como é que é estar numa banda com alguém que se conhece há tanto tempo e como é que tudo começou? Como é que, depois, perceberam que precisavam do Josh?
L. L.: É óptimo!

J. A.: Eu fi-los ver que precisavam de mim.

L. L.: É verdade. não sabíamos que precisávamos do Josh até o conhecermos e descobrirmos que precisávamos desesperadamente dele.

E. M.: Lembro-me literalmente do momento de epifania. Levámo-lo em digressão e ao fim de quatro dias já estávamos convencidos de que ele devia ser um membro permanente.

L. L.: Também me lembro que, a primeira vez que ouvimos falar no Josh foi por outro membro da banda na época, que nos comentou que tinha um colega de casa, chamado Josh, que tocava baixo. Mal ele disse isto, eu e o Ezra olhámos um para o outro e dissemos em uníssono “Adoramos o Josh!”. Ele afinal não tocava baixo, mas nós soubemos imediatamente, sem o termos conhecido, que o adorávamos. E tornou-se verdade quando ele veio em digressão connosco.

E. M.: Eu e a Lilah, ao longo de todo este tempo que nos conhecemos, fazemos estas decisões operacionais de como viver a vida com base em intuição psíquica. Esta foi uma das vezes em que correu bem.

[Risos e pausa para dissertação entre os três sobre como um exemplo de uma vez que essa intuição não correu bem foi quando mataram outro membro da banda para entrar o Josh. Lilah diz que talvez essa pessoa volte a existir, como o pássaro extinto. Uma hipótese que Josh vê como péssima. "É sempre nisso que penso quando mato alguém. Que essa pessoa vai voltar a existir", conclui Ezra entre risos].

E como é que trabalham em termos de composição e escrita das canções?
J. A.: Eu escrevo quase tudo.

L. L.: É por isso que precisávamos dele. Antes não tínhamos músicas [risos]. Agora a sério, fazemos quase tudo juntos e acontece de várias formas diferentes. Cada vez mais escrevemos todos juntos no estúdio, mas também acontece um de nós chegar com uma semente e, em conjunto, damos-lhe água, sol e amor.

J. A.: E depois da jardinagem, às vezes também tocamos música.

E. M.: A maioria das vezes, no entanto, enchemo-nos de lubrificante e fazemos wrestling, andamos à estalada um bocado, depois olhamos intensamente nos olhos uns dos outros, como manda a cientologia e vamos dormir. Quando acordamos no dia seguinte está uma música à nossa espera, normalmente na cozinha.

L. L.: Que diz “olá meninos, fiz café!”.

E.M.: E nós gritamos-lhe: "CALA-TE"! [risos]

Obrigado! Foi um prazer falar convosco.


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