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Saúde

Para a maioria das pessoas, tomar multivitamínicos é atirar dinheiro pela janela

Muitos estudos sugerem que tomar suplementos não ajuda em nada, a não ser quando receitados por um médico para tratar uma deficiência específica.

Por Kat Eschner
07 Maio 2019, 4:38pm

Luke Mattson/Stocksy

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

A maioria das pessoas quer ficar saudável e continuar saudável. Quer tenhas um objectivo específico de saúde ou fitness, ou queiras apenas alcançar aquela coisa nebulosa de “bem-estar”, provavelmente já pensaste em tomar um multivitamínico. Cerca de um terço dos adultos norte-americanos dizem que tomam multivitamínicos, segundo o National Institutes of Health.

Tudo isto não é surpresa. Há uma indústria gigante devotada a fazer-te acreditar que suplementos nutricionais são importantes – mesmo que muitos estudos sugiram que tomar vitaminas não faz efeito, a menos que estejas a abordar uma deficiência específica monitorizada por um médico. Essa indústria vai muito além dos corredores de alimentos saudáveis dos mercados: empresas agora vendem vitaminas em podcasts populares e no Instagram e criaram negócios de marketing multinível, devotados a publicitar suplementos. Tendo em conta que esses negócios dependem de reivindicações grandiosas para terem lucro, os seus conselhos sobre suplementos não são exactamente confiáveis.


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Uma grande razão para a indústria de suplementos de 40 mil milhões de dólares vender multivitamínicos como se fossem essenciais - até como uma potencial cura para tudo o que é problema -, deve-se ao facto de o governo federal norte-americano não ter muitas maneiras para regular este mercado. Em Fevereiro último, a Food and Drug Administration (FDA) advertiu alguns fabricantes de suplementos para pararem de fazer alegações exageradas sobre os seus produtos, além de pedir ao Congresso norte-americano para implementar leis de protecção mais abrangentes para os consumidores sobre vitaminas e suplementos. Mas, até o Congresso fazer alguma coisa, vamos ter que procurar conselhos noutro lugar.

Aqui vai o que precisas de saber.

Preciso de tomar multivitamínicos?

Geralmente, a reposta para esta pergunta é não: a menos que estejas grávida ou a tentar engravidar, ninguém precisa de tomar multivitamínicos. “Gostaria de poder dizer que são úteis”, assinala Beth Kitchin, professora de Nutrição da Universidade do Alabama, em Birmingham. E acrescenta: "No entanto, não vemos qualquer benefício nos multivitamínicos” (grávidas precisam de quantidades maiores de ácido fólico, ferro e outros nutrientes do que a população em geral, por isso profissionais de saúde receitam multivitamínicos pré-natal).

Uma metanálise de 45 anos de pesquisas sobre os possíveis benefícios dos multivitamínicos para a saúde cardíaca, publicada no ano passado, apoia essa afirmação. A pesquisa acompanhou mais de dois milhões de pacientes por anos e a equipa não encontrou evidências de que multivitamínicos colaborem para a saúde do coração. Um estudo publicado este mês no Annals of Internal Medicine usou dados de mais de 27 mil pessoas e descobriu que tomar multivitamínicos não estava associado com uma vida mais longa, mas tirar nutrientes suficientes de alimentos estava ligado a um risco menor de morrer mais cedo. Outros estudos sugerem uma ligação entre multivitamínicos e risco mais baixo de recorrência de cancro da próstata e um risco menor de ter uma criança no espectro do transtorno de autismo. Mas, nada demonstrou conclusivamente a ligação entre multivitamínicos e qualquer uma dessas coisas. Um grande estudo em andamento em Brigham e no Women's Hospital de Boston pode iluminar um pouco esta questão em algum momento da próxima década mas, actualmente, não há boas provas de que os multivitamínicos em si sejam úteis.

Isso não quer dizer que os nutrientes contidos num multivitamínico de qualidade não sejam reais: algumas pessoas podem precisar de tomar certas vitaminas direccionadas para uma deficiência específica, com acompanhamento médico, mas evidências sugerem que não estás a fazer muito pela tua saúde no geral ao tomares um multivitamínico diariamente.

Todavia, ainda é possível que eles tenham um pequeno efeito. Kitchin diz que, se um paciente saudável quer tomar multivitamínicos, ela não vê problema nisso, desde que não dê demasiada importância a esses comprimidos. “Às vezes, o que podemos fazer pela nossa saúde é só algo que nos faça sentir melhor”, justifica, mas enfatiza que não há evidências conclusivas de que esses comprimidos façam efeito.

Entendi. Mas, se ainda assim quero tomar multivitamínicos, como devo escolher?

Quando se trata de escolher um multivitamínico, é melhor ter cuidado. “Suplementos nutricionais dizem que fazem muitas coisas”, diz Kitchin. A FDA tem alguma jurisdição nesta área, mas “é pequena”, assegura. Segundo o Dietary Supplement Health and Education Act de 1994 (que podes ler aqui) a FDA tem que avaliar se drogas são seguras, enquanto os fabricantes de suplementos só precisam de fornecer evidências limitadas sobre se os seus produtos são seguros e eficazes. E, como o mercado de suplementos está a crescer, a agência já está sobrecarregada.

Tendo em conta a falta de supervisão, a especialista tem algumas sugestões para quem ainda assim quer tomar multivitamínicos diários. As duas principais: não gastes muito e não tomes nada que possa acabar por te prejudicar.

“Consegues encontrar um multivitamínico decente por um preço baixo”, garante Kitchin. Drogarias vendem multivitamínicos que provavelmente são tão úteis como aqueles vendidos em lojas especializadas, explica. Os comprimidos mais caros não oferecem mais benefícios: certamente não os benefícios de prevenção de Alzheimer e cancro que alguns fabricantes apregoavam até Fevereiro.

Depois, há a questão da segurança dos suplementos. Como não há muita supervisão, é preciso ter muita atenção. Mesmo quando vitaminas são vendidas em farmácias e têm embalagens que parecem de medicamento, elas não são regulamentadas da mesma forma pela FDA. “Acho que esse é um grande desafio para o consumidor”, sublinha Kitchin. Ela sugere, por isso, procurar pelo selo de "aprovação USP” na embalagem. Isso significa que o produto foi avaliado pela United States Pharmacopoeia e considerado seguro. A USP também tem um site em que destaca os suprimentos que certifica, se estiveres a comprar pela Internet.

Tratando-se da nutrição que o teu corpo precisa, Kitchin alerta que é possível exagerar na dose das coisas benéficas. “Digo sempre aos pacientes para não comprarem suplementos com doses altíssimas de nutrientes. Vejam as quantidades diárias recomendadas no rótulo e evitem multivitamínicos que contenham mais de 100 por cento da recomendação diária de qualquer vitamina", alerta. Já extrais nutrientes dos alimentos e pode ser prejudicial ter uma overdose de certas vitaminas, especialmente vitaminas lipossolúveis, como as A e D e suplementos minerais, como ferro. Passando ao largo das opções não-testadas ou caras, vais provavelmente encontrar um multivitamínico que funciona para ti – ou que pelo menos não te prejudique.

Há outra forma de ter certeza que estou a absorver os nutrientes de que preciso?

Falar com o teu médico vai ajudar-te a descobrir se precisas de tomar algum suplemento específico: deficiência em vitamina D e cálcio são as mais comuns, recorda Kitchin. Mas, no geral, se estás preocupado em não estar a conseguir todos os nutrientes de que precisas, podes prestar mais atenção à tua alimentação em vez de tomares multivitamínicos. “Toda a gente gosta de tomar um comprimido que vai resolver tudo”, salienta David Jenkins, professor de Nutrição da Universidade de Toronto, no Canadá e médico do St. Michael's Hospital. Mas, esse comprimido não existe. Felizmente, é possível conseguir tudo o que precisas a partir da tua dieta (isso pode exigir mais planeamento se és vegetariano ou vegan, mas ainda é possível).

Jenkins trabalha no campo da nutrição há mais de 40 anos, mas recentemente começou a defender uma dieta baseada em vegetais. Em vez de gastar mais em suplementos, ele sugere “cortar a carne vermelha e aumentar o consumo de verduras, legumes e sementes”. Talvez até experimentar alternativas para a carne, como tofu ou hambúrgueres vegetarianos, afirma, já que esses produtos são geralmente fortificados com nutrientes como vitamina B12, que é algo mais difícil de conseguir para quem não come carne. A principal sugestão de Kitchin para acertares na tua dieta é simples: tenta comer uma variedade de alimentos.

Como sempre, se achas que tens uma deficiência ou uma questão de saúde específica, procura um médico ou um nutricionista. Esses profissionais podem descobrir o que está errado e ajudar-te a resolver o problema, seja com suplementos ou com uma mudança na dieta. Mas, se há algo realmente errado, multivitamínicos provavelmente não te vão ajudar.


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