Drogas

Nos EUA, o "velho Oeste" da erva está a acabar. Mas, o que o vai substituir?

Trabalhar com canábis era crime nos EUA. Agora, parece uma boa carreira profissional que vem com os seus próprios benefícios.

Por Danielle Simone Brand
29 Abril 2019, 10:36am

Ilustração por Seth Laupus.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Alicia Ashley trabalha naquilo que é basicamente uma fábrica de erva. O seu trabalho é enrolar charros à mão, usar a impressora de rótulos e colocar os rótulos nos potes de flores de canábis, tudo isso enquanto garante que os produtos pareçam e cheirem de maneira atractiva. Ashley trabalha na Flow Kana, uma empresa de processamento e distribuição de canábis em Mendocino, Califórnia, basicamente um armazém que junta as colheitas de várias quintas der erva mais pequenas da região. Pelos padrões modernos, é um trabalho muito bom: ela tem um horário regular, seguro de saúde, recebe horas extras e tem a paz de espírito que advém de trabalhar no lado legal da indústria.

O emprego de Ashley é um dos muitos criados pela indústria legal de canábis. Embora tenha os seus vencedores e perdedores, a legalização da erva tornou possível que pessoas como Ashley trocassem um trabalho em empreendimentos mais ou menos legais por negócios legítimos. No processo, trabalhar com canábis foi de uma aventura praticamente fora da lei para um bom plano de carreira profissional.


Vê o primeiro episódio de "Weediquette"


Mas, nem sempre foi assim. Ashley passou pelos mercados negro e "cinzento", cultivando e processando erva “na colina”, como muitos do Triângulo Esmeralda do norte da Califórnia se referem a centenas de pequenas quintas espalhadas pelas elevações da região. Naquela época, passava dias seguidos a fazer a colheita – ou seja, a podar galhos e folhas estragadas de cada botão à mão e a transformar erva crua num produto que as pessoas quisessem comprar. Era um trabalho demorado e aborrecido e comportava os seus riscos.

Quando não era época da colheita, irrigava e cuidava das plantas, além de ajudar com as tarefas da quinta. Ashley acredita que parte do que ela ajudou a cultivar foi para dispensários de canábis medicinal da Califórnia e outra parte para o mercado recreativo underground. “Não fazia muitas perguntas”, recorda. Havia pouca ou nenhuma comunicação entre os exploradores e os trabalhadores das colinas. Mesmo os motoristas, que levavam quilos e mais quilos de erva das plantações para a cidade, não interagiam muito com os trabalhadores – quando estás numa indústria ilegal, é melhor não saberes o que acontece nos outros pontos da cadeia de abastecimento.

Poda e cultivo faziam parte do trabalho a tempo inteiro de Ashley, mas era algo em que, muitas vezes, ela podia definir as suas próprias horas e trabalhar de pijama se quisesse. Durante os longos dias com as tesouras de poda e cabeços nas mãos, os trabalhadores socializavam nos sofás das casas das quintas ou a ouvir podcasts. Todavia, o que este trabalho tinha de relaxado, faltava-lhe em confiabilidade. As explorações podiam fechar ou mudar de dono a qualquer momento. E, apesar de Ashley nunca ter sido apanhada numa rusga da polícia, estas aconteciam com frequência no Triângulo Esmeralda. “Ficava preocupada sempre que ouvia um helicóptero”, salienta.

Para além disso, as trabalhadoras podem tornar-se alvos numa indústria dominada principalmente por homens. Apesar de Ashley ter tido sorte de só ter boas experiências durante os seus anos no mercado irregular e não ter passado por coisas como assédio sexual, não receber salário ou temer pela sua segurança - situações que aconteciam e estão bem documentadas -, também sentia a necessidade de manter as suas opiniões só para ela. “Conhecer as pessoas, usar a cabeça, ser clara sobre aquilo em que te estás a envolver, confiar no teu instinto” – era assim que ela se mantinha segura.

“Quando tens um comportamento proibido ou underground, isso torna-se inerentemente mais perigoso para toda gente envolvida”, salienta Amanda Reiman, especialista em canábis e investigadora na área da saúde pública e que agora é vice-presidente de relações públicas da Flow Kana. E acrescenta: “Antes da legalização, a indústria da canábis era só outro exemplo do que acontece quando ninguém está a cuidar do bem-estar das pessoas com menos poder”. No mercado legal, garante, os trabalhadores têm protecções que não estão disponíveis no mercado informal, além de acesso a coisas desejáveis, como plano de saúde pago pelo empregador.

E não são poucas as pessoas que trabalham no mercado regulamentado e que antes faziam parte do mundo ilegal. Mesmo com a automação, ou automação parcial, a substituir alguns dos métodos de poda e pesagem, ainda há muitas posições na indústria que necessitam de ser preenchidas com mão-de-obra humana. Nos EUA, em 2018, estima-se que trabalhavam na indústria da canábis - avaliada em 10,4 mil milhões de dólares - entre 200 a 250 mil pessoas. Em 2021, a previsão é que haverá um trabalho envolvido em canábis para cada mil pessoas nos EUA – quase 325.700 empregos em todo o país.

Ainda apaixonada por canábis, Ashley, que tem 30 anos e é mãe de uma menina de nove, está a estudar administração para tentar ascender na Flow Kana. Um dia, gostava de trabalhar como supervisora e pessoa de contacto com as quintas e está entusiasmada com o futuro da indústria e o seu papel no mesmo.


Vê: "O ouro verde do Líbano: o debate sobre a legalização da canábis"


Mas, nem toda a gente está feliz com a forma como a legalização se está a desenrolar. Na Califórnia, há negócios que reclamam sobre regulamentação intrusiva e alguns continuam a actuar, pelo menos parcialmente, no mercado negro. Ainda assim, a história de Ashley mostra o melhor cenário possível de como a legalização pode funcionar e muitos outros estão a fazer a transição do lado informal para a indústria de canábis legal. “Estou no mercado legal há oito meses”, diz Ashley, “e só de pensar em voltar agora para o mercado negro... de forma alguma!”.

Uma detenção por drogas pode acabar com as tuas possibilidades de singrar na indústria em alguns sítios, o que críticos dizem que só prejudica ainda mais as minorias afectadas desproporcionalmente pela guerra às drogas. E muitos defensores da legalização estão decepcionados com as centenas de milhares de pessoas, muitas delas não-brancas, que ainda são presas todos os anos por posse de erva. Mas, há reformas que estão a tentar abordar essas desigualdades: na Califórnia, certas pessoas que desobedeceram às leis de canábis ainda podem trabalhar na indústria e em algumas cidades ter sido condenado por algo que envolva erva dá até mais possibilidades de conseguir licença para operar legalmente. Para muita gente a tentar passar para o lado legítimo, o rápido crescimento da indústria legal é muito benéfico.

Jennifer Mehta é uma dessas pessoas. A mulher de 47 anos trabalhou com erva durante 30, em várias posições, poda, cultivo, clonagem, comestíveis, Bubble Hash e óleo de haxixe. Nos dias de proibição, Mehta era paga em produtos e ganhava dinheiro a vender erva e haxixe depois da temporada de colheita. Hoje, é uma empreendedora de canábis a trabalhar exclusivamente com produto legal, através das suas duas empresas, Cannalina e Shine.


Vê: "A Legalização da Canábis no Brasil"


A transição da empresária para o mercado legal foi feita através do mercado cinzento, nos primeiros dias da implementação da canábis medicinal – o período a que Mehta chama de “o velho oeste da erva”. Trabalhar no sul do Oregon, depois de a lei da erva medicinal entrar em vigor, deu-lhe a oportunidade de aprimorar as capacidades que implementa hoje nos seus negócios de canábis. Na época, os dispensários aceitavam os produtos desde que o vendedor tivesse uma licença medicinal e o empreendedorismo das pessoas que trabalhavam há anos com canábis era inacreditável.

“Toda a gente estava a ganhar dinheiro”, recorda Mehta. E sublinha: “Fazia fudge e açúcar medicinal na minha cozinha, sem certificado – mas fui lá e vendi tudo aos dispensários”. Aprendeu clonagem – um método de cultivo alternativo com sementes – e começou também a vender os seus clones aos dispensários. Lembra-se desse tempo como um tipo de era dourada do seu trabalho. “Recebi sinal verde da indústria”, realça, “quando antes trabalhava nas sombras”.

Criada no extremo sul dos EUA, filha de dois imigrantes de primeira geração – um da Irlanda e outro de Gujarate, Índia – “parecia-me com toda a gente que as pessoas odiavam depois do 11 de Setembro”, afirma. Metha ainda acredita que a cor da sua pele afecta as suas oportunidades na indústria da canábis. “Algumas lojas [agora no seu novo lar, a Carolina do Norte]”, garante, “não aceitam os meus produtos. Mas, quando mando outra pessoa para me representar – um homem branco, por exemplo – as transações fluem muito melhor”.

O maior obstáculo é trabalhar de forma totalmente legal, revela Mehta, já que as restrições para a preparação de comestíveis e envio atrapalham os negócios. O seguro – para quem consegue um – é caro. Mas, apesar das dificuldades, Mehta está comprometida com a indústria. “Se eu desistir e todos como eu desistirem, quem sobra? Não podes tirar todo o açúcar da receita”, considera, referindo-se a pessoas como ela que arriscaram a sua liberdade nos dias da proibição para levar canábis medicinal a quem precisava. Essa é, para Metha, uma conexão metafísica. “EsRa planta e eu somos simbióticas”, assegura. E justifica: “Deixo de existir sem ela”. E é uma questão de orgulho, além de consideração prática, continuar na indústria que ela conhece melhor. “Vou desistir e deixar esses gajos apoderarem-se das minhas plantas e da minha indústria?”, questiona. E responde: “Claro que não!”.

Customers at a marijuana dispensary.
Clientes num dispensário de canábis medicinal em Los Angeles, 2014. Foto por Frederic J. Brown/AFP/Getty.

Muito do trabalho levado a cabo hoje no mercado legal, como cultivo, poda, processamento, transporte e vendas, existiam sob a proibição, mas, como Reiman, da Flow Kana, aponta, “o foco agora é obedecer às regras, não em manter o anonimato”. Isso significa acompanhar as mudanças nas regulamentações estaduais, além de lidar com muita burocracia e consultores jurídicos.

Isso também significa profissionalização, em todos os níveis. Pessoas que nunca consideraram trabalhar com erva, como cientistas e empreendedores, estão a apanhar o comboio. E, enquanto a canábis ganha legitimidade – e o dinheiro entra –, continuam a surgir várias posições em indústrias de apoio. Uma indústria legal “vai sempre trazer uma variedade de outras coisas”, explica Ekaterina Sedia, professora de biologia e coordenadora de estudos de canábis da Stockton University, de Nova Jérsia.

Pessoas especializadas em legislação de canábis, IT e segurança, além de coisas mais comuns como administração, estão em alta demanda à medida que a indústria amadurece, acrescenta Sedia. Um número pequeno de universidades norte-americanas, como a Stockton e a Universidade de Denver, também estão a começar a oferecer cursos relacionados com canábis para jovens que querem começar na indústria.

Anjanique Kent é uma estudante da Stockton que planeia fazer cursos de estudos de canábis e agora trabalha em desenvolvimento de redes sociais como estagiária na Hudson Hemp. Ela diz que o seu interesse por canábis começou como consumidora e a “rir sobre hambúrgueres” com os amigos. Mas, depois de saber que o sobrinho epiléptico da sua melhor amiga era tratado com sucesso com CBD, a paixão de Kent pela indústria cresceu. Como uma mulher jovem não-branca, ela está excitada com a perspectiva de trabalhar num espaço onde as regras ainda não estão definidas, e onde há uma oportunidade de consertar os erros da história. “Há essa ideia de que podemos fazer alguma coisa e temos a oportunidade de fazer como achamos que deveria ser feito. Precisamos agarrar essa chance”, ela disse.

Kent quer trabalhar em comunicação e marketing para uma empresa de bens de canábis para cuidado pessoal e doméstico, que faz desde champô a embalagens reutilizáveis. É o tipo de negócio em que ela gosta de pensar como sendo a “P&G da erva”, referindo-se à Procter and Gamble, uma multinacional dona de marcas como Gillette, Pampers e Tide.

Todavia, a normalização e profissionalização da indústria da canábis são dificultadas por leis federais que continuam a criminalizar a planta, além de percepções negativas que ainda a rodeiam. Emily Burns, uma advogada de Baltimore especializada em legislação de canábis, diz, por exemplo, que universidades que recebem financiamento federal para investigação e manutenção não podem permitir oficialmente consumo de erva no campus, mas podem oferecer cursos relacionados com canábis. No entanto, muitas dessas instituições ainda temem o estigma associado à canábis.

Burns diz que, para alguns jovens que esperam entrar na indústria, um diploma universitário, mais todo o tempo comprometido e (possivelmente) uma dívida estudantil, pode não ser a melhor preparação. Escolas profissionais, acredita, podem ajudar a colocar as pessoas no caminho para uma carreira “que, de outra maneira, estaria fechada para a indústria da canábis devido a considerações financeiras em vez de interesse, desejo ou paixão pelo trabalho”. A Oaksterdam em Oakland, Califórnia, é um desses locais. Muitos programas serão necessários nos próximos anos para atender às necessidades crescentes da indústria.

Enquanto a indústria amadurece, muitos como Reiman esperam que este não se torne apenas outro sector da economia dominado por corporações sem preocupações ambientais e sociais. “Há tempo para evitar os erros do passado”, alerta Reiman. “O cimento ainda está fresco no espaço da canábis. As decisões que tomamos e os valores que abraçamos hoje, tornar-se-ão as tradições da nossa indústria nos próximos anos”.

Para jovens como Kent, a cada vez maior aceitação da canábis significa a possibilidade de embarcar numa indústria em crescimento, que vem sendo percebida não só como normal, mas profissional. E, para pessoas como Ashley e Mehta, isso significa uma hipótese de sair das sombras e seguir um caminho de vida mais convencional enquanto fazem o que sempre gostaram de fazer. “Muita gente como eu”, realça Ashley, “está à procura de estabilidade na indústria em mutação da canábis. Queremos ser legítimos e fazer parte de algo maior e melhor”.

Danielle Simone Branc escreve sobre canábis e maternidade – e as suas ocasionais sobreposições – a partir de San Diego, onde vive com a família.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.