A fossil of AirPods.
Imagem: Fossil by Heartless Machine. Foto por Jason Koebler.  

AirPods são uma tragédia

A Apple diz que AirPods estão construindo um “futuro wireless”. Muitas pessoas acham que eles são um símbolo de riqueza descartável. A verdade é mais sombria.
9.5.19

Future Relics é uma coluna sobre objetos que nossa sociedade está fazendo atualmente, e como eles podem explicar nossas vidas para as futuras gerações. Em cada artigo, focamos num item que pode ser descoberto por alguém daqui 1000 anos, e tentamos explicar de onde esse item veio, pra onde vai e o que sua existência explica sobre nosso momento atual.

AirPods são um produto do passado.

Eles são de plástico, feito com uma combinação de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio, cloro e enxofre. Eles são feitos com tungstênio, estanho, tântalo, lítio e cobalto.

As partículas que formam esses elementos foram criadas 13,8 bilhões de anos atrás, durante o Big Bang. Os humanos extraem esses elementos do solo, os aquecem e refinam. Enquanto trabalham, os humanos respiram partículas no ar, que se depositam em seus pulmões. Os materiais vêm de lugares como Vietnã, África do Sul, Cazaquistão, Peru, México, Indonésia e Índia para fábricas na China. Literalmente uma cidade de trabalhadores cria quatro pequenos chips de computador e os montam em placas lógicas. Sensores, microfones, grades e uma antena são colados e montados num exoesqueleto estranho de plástico branco.

São os AirPods. Eles são coleções de átomos nascidos no começo do universo, enfiados sob a superfície da Terra, e condensados num paralelo antropogênico do Big Crunch – uma versão proposta da morte do universo onde toda a matéria encolhe e se condensa. Trabalhadores são pagos em mais de uma dezena de países para tornar esse produto possível. Depois ele é vendido pela Apple, a primeira empresa trilionária do mundo, por US$ 159 nos EUA [no Brasil eles saem por mais de R$1 mil].

Por cerca de 18 meses, os AirPods tocam música, podcasts ou são usados para fazer chamadas telefônicas. Depois a bateria de lítio vai perdendo capacidade, e os AirPods vão lentamente se tornando inutilizáveis. Não dá para consertar porque os aparelhos são colados numa coisa só. Eles não podem ser jogados fora, porque a bateria de íons de lítio pode começar um incêndio no compactador de lixo. Eles não podem ser reciclados, porque não há um jeito seguro de separar a bateria de lítio da capa plástica. Em vez disso, os AirPods vão ficar na sua gaveta para toda a eternidade.

Kyle Wiens, CEO da iFixit, que desmonta aparelhos eletrônicos e vende ferramentas e partes para reparo, disse a Motherboard que AirPods são “malignos”. Segundo a equipe de avaliação de fones da Rtings.com, AirPods estão “abaixo da média” em termos de qualidade de som. E para as pessoas de todas as redes sociais, AirPods são uma ostentação de riqueza.

Mas mais que um par de fones, AirPods são um produto não reutilizável de cultura e classe social. As pessoas das classes trabalhadora ou pobres são responsáveis pelo trabalho exaustivo, violento e que coloca a vida em risco de remover suas partes do solo e os montar. Enquanto isso, pessoas da classe alta do mundo fizeram o design e compram os AirPods.

Mesmo que você só tenha AirPods por alguns anos, a terra vai ficar com eles pra sempre. Quando você morrer, seus ossos vão se decompor em menos de um século, mas o exoesqueleto de plástico dos AirPods não vai se decompor por pelo menos mil anos. Milhares de anos no futuro, se a vida humana ou seres conscientes ainda existirem na Terra, talvez arqueologistas encontrem AirPods em cantos esquecidos das casas. Eles provavelmente vão ficar imaginando por que eles foram feitos, e por que tantas pessoas os tinham. Mas podemos nos fazer essas mesmas perguntas agora.

Por que fabricamos tecnologia que só dura 18 meses, morre e nunca apodrece?

A Vida Social dos AirPods

AirPods não são os fones de ouvido sem fio mais caros do mercado. Alguns fones wireless de luxo custam mais de US$ 730. Outras empresas como a Sennheiser vendem fones por US$ 300. A Bose vende seus pares por cerca de US$ 200.

Mark Henny, chefe das avaliações de fones do Rtings.com, disse que os AirPods até oferecem um bom valor pelo preço, apesar de serem avaliados como “abaixo da média” na questão de qualidade de som. “Você tem modelos bem mais baratos, mas a qualidade da fabricação dos AirPods, da caixa até os fones em si, e também da conexão confiável wireless, a vida da bateria – o preço dos AirPods na verdade é bem justo”, Henny disse a Motherboard.

E ainda assim, pelo menos nas redes sociais, AirPods se tornaram um meme que automaticamente introduz os proprietários deles na burguesia.

Parte da graça pode ter a ver com os AirPods serem, bom, muito pequenos. Eles são muito fáceis de perder, ou serem acidentalmente lavados com as suas roupas. Só pela questão do tamanho, AirPods são uma compra arriscada. AirPods comunicam que você tem dinheiro para comprá-los, mas também para perdê-los.

Tem uma ironia aqui, já que você não pode consertá-los eticamente ou de maneira prática, reciclar ou jogar fora seus AirPods. Eles são dois objetos pequenos e soltos que ficam pendurados na orelha das pessoas e são pensados para serem usados a qualquer momento – especialmente quando você está indo pro trabalho, caminhando ou fazendo exercícios. Muita gente acaba perdendo seus AirPods.

Mas vamos dizer que você não perca seus AirPods, em vez disso você os joga no lixo quando a bateria parar de funcionar. Os AirPods não desaparecem. Eles se tornam problema de outra pessoa. Aí, muito tempo depois de mortos, AirPods ainda vão estar aqui, sem se decompor, na crosta de Terra.

Ter AirPods encarna o que significa ser “rico” do mesmo jeito que essa foto do Kanye West segurando seu notebook sem muito cuidado.

Antes, a ideia de riqueza descartável era limitada a pessoas multimilionárias como West. Mas agora, os AirPods normalizaram a ideia que qualquer um pode ostentar riqueza para o mundo. Se você é “corajoso” o suficiente para investir num par de AirPods, parece que perdê-los não é grande coisa. No TikTok, esse sentimento alimentou um meme onde as pessoas fingem jogar seus AirPods na privada.

Outro meme comum de AirPods é alguma interação de “Meu deus, fulano está usando AirPods, ela não vai nos ouvir”, apresentando uma foto de alguém numa situação mortal. A piada sugere que pessoas que usam AirPods agem como se fossem celebridades, desligadas e acima de seu ambiente, superiores demais para ouvir as pessoas ao seu redor. Na verdade, AirPods têm um isolamento de som ruim (Rtings.com deu aos AirPods a péssima nota de 3,6 de 10 nessa categoria.)

O meme também sugere que pessoas que usam AirPods nunca querem tirá-los. Eles também mostram ao mundo que a pessoa é rica, mesmo que isso a leve para a morte. É um jeito de tirar sarro dos ricos e rotular suas vidas como descartável.

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Imagem: Dopl3r.com.

Comparados com outros fones wireless, AirPods são visualmente distintos. Enquanto muitas marcas optam pela sutileza e fazem seus fones pretos e sem antena, a Apple fez seu produto parecer a cabeça de uma escova de dentes elétrica.

As primeiras avaliações do AirPod chamavam o produto de “brega” e descreviam sua aparência como “controversa”. Mas mesmo que AirPods sejam estranhos, eles são muito visíveis e instantaneamente reconhecíveis. Estar disposto a ignorar a aparência dos AirPods passa uma declaração: se você está disposto a ignorar o quanto eles são estranhos, você pode muito bem ter orgulho de usá-los.

Na verdade, a maioria das pessoas não está realmente querendo fazer uma declaração ao usar AirPods. De maneira prática, há boas razões para comprar um: diferente de outros fones Bluetooth, eles se conectam instantaneamente com o iPhone. Além disso, como a Apple tirou o plugue de fones de seus aparelhos, fones com fios normais só podem ser usados com um dongle pequeno e fácil de perder também (ou os fones Lightning, outra propriedade da Apple).

Algumas pessoas abraçaram abertamente a aparência distinta dos AirPods. Por exemplo, a usuária do Twitter @bloodorgy fez brincos para AirPods chamados “Airrings”, que ela vende por US$ 20.

Vários vendedores do Etsy vendem capas piratas de AirPods com logos de marcas de luxo como Gucci, Louis Vuitton e Supreme. (Nenhuma dessas empresas realmente faz acessórios de AirPod que entram no cânone oficial de produtos da Apple.)

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Donos de AirPods reconhecem o status que o produto projeta, mas resistem à noção de que eles demonstram riqueza descartável, ou riqueza no geral. “Frequento uma escola de alto escalão, o que foi uma das razões para querer AirPods, para me encaixar melhor”, disse a usuária do Reddit CrispViolet, que se identifica como Ally, a Motherboard. Ally já postou no subreddit focado em AirPods r/airpods.

Ally também disse que acha que AirPods não ostentam riqueza. “Alguns amigos não têm AirPods porque têm fones mais caros que usam para jogar videogame”, disse Ally. “Mas acho os memes engraçados, e o som dos AirPods honestamente não é tão bom assim, pelo menos tanto quanto deveria ser pelo preço.”

Outro redditor, weabOO, disse a Motherboard que ganhou AirPods no Natal. “Sim, podemos dizer alguma coisa sobre como eles te fazem parecer básico, mas querem que você pareça descolado, mas eu uso porque é conveniente.”

“Às vezes me sinto meio constrangido porque tenho medo que as pessoas achem que sou metido, por isso o Reddit pode ser bastante tóxico sobre eles”, ele acrescentou. “Mas AirPods são tão comuns agora que usá-los não é mais considerado ostentação. Literalmente todo mundo em LA tem um par.”

A descartabilidade dos AirPods espelha o fato de que eles são feitos com trabalho descartável.

Trabalho descartável se refere aos trabalhadores que estão sujeitos aos caprichos do que os capitalistas chamam de “a mão invisível do mercado”. Quando há procura por um produto ou serviço, essas pessoas têm trabalho. Quando não há, elas ficam desempregadas. Eles podem ser freelancers, trabalhadores de meio período ou trabalhadores de baixo salário que são tratados como “uma parte substituível do processo de produção”, como explicaram os escritores socialistas Fred e Harry Magdoff num artigo para o Monthly Review.

Todo produto eletrônico é resultado do trabalho internacional em minas, refinarias e fábricas, geralmente por trabalhadores mal pagos. Milhares e milhares de pessoas trabalham em dezenas de países ao redor do mundo – Brasil, Indonésia, Taiwan, Tailândia, China, Malásia, Bolívia, Peru, Índia, Filipinas, México, Cazaquistão, Vietnã, Rússia, Japão, Alemanha, Bélgica, Estônia, Macedônia, Coreia, Canadá e Holanda – para extrair e refinar os materiais usados para fazer os eletrônicos modernos.

Há um custo humano para tudo isso. Veja a Foxconn, por exemplo – a empresa chinesa que monta cerca de metade de todos os iPhones, segundo o Business Insider, além de outros produtos da Apple. (A Luxshare and Investec monta AirPods.) A Foxconn tem uma fábrica em Zhengzhou que às vezes é chamada “Cidade iPhone”. Segundo o Business Insider, em maio de 2018, cerca de 350 mil pessoas trabalhavam nessas instalações. Os salários lá começam em US$ 300 por mês. E há anos, a Apple compra cobalto e tântalo – que são usados para abastecer as baterias de íons de lítio e proteger os condutores da placa lógica, respectivamente – da República Democrática do Congo (RDC). Só depois de relatos extensos sobre trabalho infantil, péssimas condições de trabalho e morte de trabalhadores, a Apple parou de comprar esses materiais de pequenas minas da RDC especificamente.

Os consumidores não deveriam saber ou pensar sobre essas histórias. A Apple não quer que você saiba os detalhes da cadeia de fornecimento.

Marx argumentava que commodities – ou produtos feitos para satisfazer “desejos” – não derivam seu valor de seu uso. Isso porque, por definição, eles não são necessários para sobrevivência básica. Em vez disso, eles derivam seu valor do trabalho invisível que entra na sua fabricação. Os produtos da Apple tiram valor de terra, sangue, suor e lágrimas que você não vê nas suas embalagens brancas minimalistas. Eles tiram valor de dor e fadiga humana.

Commodities como AirPods são produtos sociais. AirPods passam a mensagem social de riqueza porque tiram seu valor de uma cadeia social invisível de produção que é necessária para fazê-los em primeiro lugar.

A História da Apple dos AirPods

Segundo a Apple, AirPods são parte de uma visão maior de um “futuro wireless”. O site da Apple introduz os AirPods dizendo “Fones sem fio. Finalmente desembaraçado”. Fios, a Apple argumenta, são um fardo. Portanto, os AirPods são um produto de libertação.

É verdade que fios podem ser irritantes. Eles embaraçam. Prendem em coisas. Ficam se mexendo quando você está se exercitando. O plástico que cobre os fios pode rasgar, expondo os cabos de metal e tornando os fones inúteis. Mas o pitch de venda da Apple de libertação não é tão direto. Os AirPods foram introduzidos em 2016 junto com a estreia do iPhone 7 e o 7Plus, que vinham sem plugues para fone. Os fones foram projetados para passar sem problemas do iPhone para o MacBook e para o Apple Watch, dependendo de que aparelho você está usando.

Sendo assim, os AirPods estrategicamente aglomeram um ecossistema de produtos de luxo. Eles só são “convenientes” porque, ao eliminar o plugue de fones, a Apple tornou o iPhone menos user-friendly.

Acabando com o “incômodo” dos plugues de fone veio com dois custos: um, isso prende as pessoas num sistema de produtos limitados, compatíveis e de propriedade que vão inevitavelmente morrer em alguns anos. E dois, isso cria um dilema no fim da vida desses produtos. Se você tenta reciclar AirPods, um trabalhador numa instalação de reciclagem vai ter que fazer a tarefa arriscada e mundana de separar a bateria de lítio colada no plástico. Se você simplesmente jogar fora os AirPods, você arrisca começar um incêndio num compactador de lixo. E se AirPods acabarem num lixão a céu aberto, a terra vai engolir os fones na sua crosta e eles ficarão lá por pelo menos mil anos.

AirPods estão destinados a se tornar e-lixo assim que são fabricados. E AirPods se tornam e-lixo depois de apenas 18 meses de uso, quando a bateria de íons de lítio insubstituível morre.

“Eu colocaria os AirPods na categoria de obsolescência programada, mas na verdade é uma falha programada”, Wiens disse a Motherboard. “Quando fizeram esse produto, eles sabiam que só durariam 18 meses. Eles não colocam essa informação na caixa, sabendo que a bateria não pode ser substituída, e aqui estamos.”

AirPods são produtos descartáveis que são impossíveis de jogar fora.

O som sempre foi importante para a Apple – pelo menos de uma perspectiva de marketing. A empresa basicamente mudou a distribuição de música com a criação do iPod e o mercado de música digital iTunes, que abasteceu a proliferação do MP3. Fones brancos eram o ponto focal das propagandas do iPod no meio dos anos 2000.

Mas a Apple nunca vendeu os AirPods como os fones com maior qualidade de som do mundo. Num vídeo promocional do AirPod de dois minutos, a qualidade de áudio do produto não é mencionada até a penúltima frase. (“E claro, os novos AirPods wireless têm um som incrível.”) A base do marketing dos AirPods da Apple é o fato deles não terem fio.

“Tem muita tecnologia dentro de cada AirPod”, disse o vice-presidente de marketing da Apple quando apresentou os AirPods. “Tem o chip, tem os acelerômetros duplos, sensores ópticos, microfones, antenas, baterias – há um tour de force técnico nesses pequenos fones.”

O que faz os AirPods terem uma performance melhor com iPhones do que outros fones wireless é o chip W1, que faz três coisas:

- Ajuda os fones a se comunicarem com seu celular, computador e entre eles.

- Permite pareamento rápido de aparelhos, sem necessidade de ir até as preferências do sistema iOS.

- Tornam os AirPods compatíveis com a Siri, e capazes de fazer chamadas telefônicas.

Mas a tecnologia subjacente que torna os AirPods possíveis é o Bluetooth (ou usar ondas de rádio para mandar dados como som de aparelho para aparelho). Jim Kardach – o empregado hoje aposentado da Intel que deu o nome “Bluetooth” – disse a Motherboard que o Bluetooth foi concebido para ser “o wireless do povo”, já que as capacidades do Bluetooth são baratas. Ainda assim, as empresas querem vender luxo quando vendem tecnologia Bluetooth, como se fosse algo caro.

A Apple não respondeu os pedidos da Motherboard para comentar.

Kardach disse a Motherboard o que ele acha quando vê propagandas de carros de luxo dizendo que têm Bluetooth incorporado. “Jaguar é um carro supercaro e eles se gabam de quase qualquer coisa”, disse Kardach. “Colocar esse rádio Bluetooth no Jaguar provavelmente custa cerca de um dólar pra eles, e ainda assim essa é uma das três coisas que eles colocaram na propaganda.”

AirPods têm uma antena de Bluetooth comum. Em sim, eles têm uma tecnologia de wireless que já existe há vinte anos.

Haroldo Dente-Azul, Filho de Gormo

Kardach batizou a tecnologia Bluetooth com o nome de Haroldo Dente-Azul, um rei viking que governou a Dinamarca no século um DC. Segundo Kardach, o objetivo da tecnologia Bluetooth era unir tecnologia de rádio, celular e digital. De maneira similar, o Rei Dente-Azul uniu as antigas Dinamarca e Noruega, criando um reino escandinavo.

“Cheguei no cara do marketing e disse 'ei, a gente devia chamar esse programa de Bluetooth', e ele disse 'você está louco'”, conta Kardach. “Eu disse 'Sim, olha essa runa aqui'. Eu tinha circulado Haroldo Dente-Azul com uma caneta. Escaneei e imprimi o desenho e ele disse 'Ahh, isso é bom. Você pode colocar um celular e um notebook na mão dele?' E eu coloquei um celular e um notebook. Aí ele disse 'Ficou perfeito, vamos usar'.”

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A tecnologia Bluetooth foi inspirada pela arqueologia, e histórias do passado. Agora, ela está sendo usada para criar produtos como os AirPods: tecnologia pensada para viver apenas alguns meses, parar de funcionar e ficar aqui na Terra até muito depois que morrermos.

Claro, os AirPods não são únicos. Muitos dos produtos que usamos diariamente são construídos para virar lixo, e eventualmente fósseis. Plásticos descartáveis – como garrafas de água, copos de café, embalagens plásticas – são baratos paras as empresas e convenientes para os consumidores. Eles também acabam, em grande parte, flutuando no mar e sujando o fundo dos oceanos. Alguns cientistas até já estão se referindo ao presente como o Plásticeno. Eletrônicos não são diferentes. Para empresas como a Apple, poder consertar produtos é algo que prejudica o lucro final, então a empresa faz lobby contra esforços de direito de reparo, e colaborou com a Amazon para expulsar oficinas de iPhone e MacBook do site da Amazon.

Numa escala global, nosso sistema econômico é baseado em desconsiderar a longevidade, porque é mais lucrativo para as empresas fazer produtos que morrem do que produtos que duram.

Então claro, AirPods não são os fones mais caros do mercado, e as piadas sobre o produto como ostentação muitas vezes são irônicas. Mas os AirPods são mesmo um símbolo de riqueza. São manifestações físicas de um sistema econômico global que permite que algumas pessoas comprem e facilmente percam fones de US$ 160, e deixa outras pessoas arriscarem a vida para produzir esses bens. Se os AirPods são alguma coisa, podemos dizer que eles são futuros fósseis do capitalismo.

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