Imagem: "Fossil by Heartless Machine". Fotografia por Jason Koebler.

Os AirPods são uma tragédia

A Apple diz que os AirPods estão a construir um “futuro wireless”. Muitas pessoas acham que são apenas um símbolo de riqueza descartável. A verdade é ainda mais sombria.

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21 Maio 2019, 2:53pm

Imagem: "Fossil by Heartless Machine". Fotografia por Jason Koebler.

Este artigo foi originalmente publicado na Motherboard - Tech by VICE.

"Future Relics" é uma coluna sobre objectos que a nossa sociedade está actualmente a produzir e como é que estes podem explicar as nossas vidas às futuras gerações. Em cada artigo, focamo-nos num item que pode ser descoberto por alguém daqui a mil anos e tentamos explicar de onde esse objecto vem, para onde vai e o que a sua existência explica sobre o nosso momento actual.

Os AirPods são um produto do passado. São de plástico, feito com uma combinação de carbono, hidrogénio, oxigénio, nitrogénio, cloro e enxofre. Têm tungsténio, estanho, tântalo, lítio e cobalto. As partículas que formam esses elementos foram criadas há 13,8 mil milhões de anos , durante o Big Bang.

Os humanos extraem esses elementos do solo, aquecem-nos e refinam-nos. Enquanto trabalham neles, as pessoas respiram partículas que ficam no ar, que se depositam nos pulmões. Os materiais viajam de países como o Vietname, África do Sul, Cazaquistão, Peru, México, Indonésia e Índia para fábricas na China. Depois, uma cidade de trabalhadores - literalmente - cria quatro pequenos chips de computador e monta-os em placas lógicas. Sensores, microfones, grelhas e uma antena são colados e montados num estranho exoesqueleto de plástico branco.

São os AirPods. Colecções de átomos nascidos no amanhecer do Universo, enfiados debaixo da superfície da Terra e condensados num paralelo antropogénico do Big Crunch – uma versão proposta da morte do Universo, em que toda a matéria encolhe e condensa. Há trabalhadores a serem pagos em mais de uma dezena de países para tornar este produto possível. Depois, ele é vendido pela Apple, a primeira empresa trilionária do Mundo, por 159 dólares nos EUA [em Portugal, os mais baratos custam 179 euros].


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Durante cerca de 18 meses, os AirPods tocam música, podcasts ou são usados para fazer chamadas telefónicas. Depois, a bateria de lítio vai perdendo capacidade e os AirPods vão, lentamente, tornando-se inutilizáveis. Não é possível consertá-los, porque os aparelhos são colados numa coisa só. Não podem ser deitados fora, porque a bateria de iões de lítio pode causar um incêndio no compactador de lixo. Não podem ser reciclados, porque não há uma forma segura de separar a bateria de lítio da capa plástica. Em vez disso, os AirPods vão ficar na tua gaveta para toda a eternidade.

Kyle Wiens, o director executivo da iFixit, uma empresa que se encarrega de desmontar produtos electrónicos e de vender ferramentas para reparação, assegura à Motherboard que os AirPods são “malignos”. Segundo a equipa de avaliação de auriculares da Rtings.com, os AirPods estão “abaixo da média” em termos de qualidade de som. E, de acordo com a opinião de pessoas em todas as redes sociais, os AirPods são uma ostentação de riqueza.

Mas, mais que um par de headphones, os AirPods são um produto não-reutilizável de cultura e classe social. As pessoas das classes trabalhadora ou pobres são responsáveis pelo trabalho exaustivo, violento e que lhes coloca a vida em risco de remover as partículas do solo e de os montar. Enquanto isso, globalmente, pessoas da classe alta fizeram o design e compram os ditos AirPods.

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Image: Screenshot from Twitter/@dnanian

Mesmo que tenhas AirPods apenas durante alguns anos, a Terra vai ficar com eles para sempre. Quando morreres, os teus ossos vão-se decompor em menos de um século, mas o exoesqueleto de plástico dos AirPods não se vai decompor durante pelo menos mil anos. Milhares de anos no futuro, se a vida humana ou seres conscientes ainda existirem na Terra, talvez arqueólogos encontrem AirPods em cantos esquecidos das casas. Provavelmente, ficarão a imaginar porque é que foram feitos e porque é que tantas pessoas os tinham. Mas, podemos lançar essas mesmas perguntas a nós próprios hoje.

Porque é que fabricamos tecnologia que só dura 18 meses, morre e nunca apodrece?

A Vida Social dos AirPods

AirPods não são os auriculares sem fio mais caros do mercado. Alguns auriculares wireless de luxo custam mais de 730 dólares. Há outras empresas, como a Sennheiser, que vendem headphones por 300 dólares. A Bose vende os seus pares por cerca de 200 dólares.

Mark Henny, responsável da área de avaliações de auriculares do Rtings.com, diz que os AirPods até oferecem um bom valor pelo preço, apesar de serem avaliados como “abaixo da média” no que toca a qualidade de som. “Há modelos bastante mais baratos, mas, tendo em conta a qualidade de fabrico dos AirPods, da caixa e até dos headphones em si, como também da conexão confiável wireless, ou a vida da bateria, o preço dos AirPods na verdade é justo”, diz Henny à Motherboard.

E ainda assim, pelo menos nas redes sociais, os AirPods tornaram-se um meme que, automaticamente, introduz os proprietários dos mesmos na burguesia. Parte da graça pode ter a ver com os AirPods serem, bem, muito pequenos. São muito fáceis de perder, ou de serem acidentalmente lavados com as tuas roupas. Só pela questão do tamanho, os AirPods são uma compra arriscada. Ter AirPods significa que não tens só dinheiro para os comprar, mas também para os perder.

Há aqui uma ironia, já que não podes reparar eticamente ou de maneira prática, reciclar ou deitar fora os teus AirPods. São dois objectos pequenos e soltos que ficam pendurados na orelha das pessoas e são pensados para serem usados a qualquer momento – especialmente quando estás a ir para o trabalho, a caminhar ou a fazer exercício. Muita gente acaba por perder os AirPods. Mas, vamos assumir que tu não vais ser uma dessas pessoas. Em vez disso, vais metê-los no lixo quando a bateria deixar de funcionar. Os AirPods não desaparecem. Tornam-se o problema de outra pessoa. Muito tempo depois de estarmos todos mortos, os AirPods ainda aqui vão estar, sem se decomporem, na crosta da Terra.

Ter AirPods personifica o que significa ser “rico”, da mesma forma que esta foto de Kanye West a segurar o seu computador sem cuidado.

Antes, a ideia de riqueza descartável era limitada a pessoas multimilionárias como West. Mas agora, os AirPods normalizaram a ideia de que qualquer um pode ostentar riqueza perante o Mundo. Se és suficientemente “corajoso” para investir num par de AirPods, parece que perdê-los também não é assim um grande problema. No TikTok, esse sentimento alimentou um meme em que as pessoas fingem deitar os AirPods na retrete.

Outro meme comum sobre AirPods é do tipo “Meu Deus, ele está de AirPods, não nos vai ouvir”, com uma fotografia de alguém numa situação mortal. A piada sugere que as pessoas que usam AirPods agem como se fossem celebridades, desligadas e acima do seu ambiente natural, demasiado superiores para ouvirem as pessoas à sua volta. Na verdade, os AirPods têm um mau isolamento de som (o Rtings.com deu aos AirPods a péssima nota de 3,6 em 10 nessa categoria).

O meme também sugere que as pessoas que usam AirPods nunca os querem tirar. Também mostram ao Mundo que a pessoa é rica, mesmo que isso a leve à morte. É uma maneira de gozar com o ricos e rotular as suas vidas como algo descartável.

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Imagem: Dopl3r.com.

Comparados com outros headphones wireless, os AirPods são visualmente distintos. Enquanto muitas marcas optam pela subtileza e fazem os seus phones pretos e sem antena, a Apple fez com que o seu produto se pareça com a cabeça de uma escova de dentes eléctrica.

As primeiras avaliações do AirPod apelidavam o produto de “foleiro” e descreviam a sua aparência como “controversa”. Mas, mesmo que os AirPods sejam estranhos, são muito visíveis e instantaneamente reconhecíveis. Estar disposto a ignorar a aparência dos AirPods passa uma declaração: se estás disposto a ignorar o quanto eles são estranhos, podes muito bem ter orgulho em usá-los.

Na verdade, a maioria das pessoas não está realmente a querer fazer uma declaração ao usar AirPods. De maneira prática, há boas razões para comprar uns: ao contrário de outros auriculares Bluetooth, estes conectam-se instantaneamente ao iPhone. Além disso, como a Apple tirou o plug de auriculares dos seus aparelhos, headphones com fios normais só podem ser usados com um adaptador pequeno e também fácil de perder (ou os auriculares Lightning, outra propriedade da Apple).

Algumas pessoas abraçaram abertamente a aparência distinta dos AirPods. Por exemplo, a utilizadora do Twitter @bloodorgy fez brincos para AirPods chamados “Airrings”, que vende por 20 dólares.

Vários vendedores do Etsy vendem caixas piratas de AirPods, com logotipos de marcas de luxo como Gucci, Louis Vuitton e Supreme (nenhuma destas empresas faz realmente acessórios para AirPods que entrem no cânone oficial de produtos da Apple).

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Imagem: captura de ecrã de uma entretanto removida publicação no Etsy, em que se anunciava uma suposta caixa da Supreme para AirPods, pelo preço de 36 dólares.

Donos de AirPods reconhecem o estatuto que o produto projecta, mas resistem à noção de que demonstram riqueza descartável, ou riqueza no geral. “Frequento uma escola de alto nível, o que foi uma das razões para querer AirPods, para me encaixar melhor”, garante no entanto, à Motherboard, a utilizadora do Reddit CrispViolet, que se identifica como Ally. Ally já publicou no subreddit sobre AirPods r/airpods

Ainda assim, Ally assegura que acha que os AirPods não são uma forma de ostentar riqueza. “Alguns dos meus amigos não têm AirPods, porque têm headphones mais caros, que usam para jogar videojogos. Mas, acho os memes engraçados e o som dos AirPods honestamente não é assim tão bom, pelo menos tanto como deveria ser tendo em conta o preço”, salienta.

Outro redditor, weabOO, revela à Motherboard que recebeu AirPods no Natal: “Sim, podemos dizer alguma coisa sobre como te podem fazer parecer básico, que queres apenas seguir uma tendência, mas eu uso-os porque são práticos”. “Às vezes sinto-me meio constrangido, porque tenho medo que as pessoas achem que me estou a armar e o Reddit pode ser bastante tóxico em relação a isso. No entanto, os AirPods são agora tão comuns que usá-los já não é considerado ostentação. Literalmente toda a gente em Los Angeles tem um par”, acrescenta.

A descartabilidade dos AirPods espelha o facto de serem feitos com trabalho descartável.Trabalho descartável refere-se aos trabalhadores que estão sujeitos aos caprichos do que os capitalistas chamam de “a mão invisível do mercado”. Quando há procura por um produto ou serviço, essas pessoas têm trabalho. Quando não há, ficam desempregadas. Podem ser freelancers, trabalhadores em part-time ou trabalhadores de baixo salário, que são tratados como “uma parte substituível do processo de produção”, como explicaram os escritores socialistas Fred e Harry Magdoff num artigo para o Monthly Review.


Vê: "Os 'engenhocas' que reciclam baterias de laptops para alimentarem as suas casas"


Cada produto electrónico é o resultado do trabalho internacional em minas, refinarias e fábricas, geralmente levado a cabo por trabalhadores mal pagos. Milhares e milhares de pessoas trabalham em dezenas de países pelo Mundo – Brasil, Indonésia, Taiwan, Tailândia, China, Malásia, Bolívia, Peru, Índia, Filipinas, México, Cazaquistão, Vietname, Rússia, Japão, Alemanha, Bélgica, Estónia, Macedónia, Coreia, Canadá e Holanda – para extrair e refinar os materiais usados para fazer os aparelhos electrónicos modernos.

Há um custo humano para tudo isso. Pensa na Foxconn, por exemplo – a empresa chinesa que monta cerca de metade de todos os iPhones, de acordo com o Business Insider, para além de outros produtos da Apple (a Luxshare and Investec monta os AirPods). A Foxconn tem uma fábrica em Zhengzhou que, às vezes, é chamada de “Cidade iPhone”. Segundo o Business Insider, em Maio de 2018, trabalhavam nessas instalações cerca de 350 mil pessoas trabalhavam. Os salários começam em 300 dólares por mês. E há anos que a Apple compra cobalto e tântalo – que são usados para abastecer as baterias de iões de lítio e proteger os condutores da placa lógica, respectivamente – à República Democrática do Congo (RDC). Só depois de relatos extensos sobre trabalho infantil, péssimas condições de trabalho e morte de trabalhadores é que a Apple parou de comprar esses materiais provenientes pequenas minas da RDC, especificamente.

Os consumidores não deveriam saber ou pensar sobre essas histórias. A Apple não quer que saibas os detalhes da cadeia de fornecimento. Marx argumentava que commodities – ou produtos feitos para satisfazer “desejos” – não derivam do seu valor de uso. Isso porque, por definição, não são necessários para a sobrevivência básica. Em vez disso, derivam o valor do trabalho invisível que entra no seu fabrico. Os produtos da Apple tiram valor da terra, sangue, suor e lágrimas daqueles que não vês nas embalagens brancas minimalistas. Desvalorizam a dor e a fadiga humana. Commodities como AirPods são produtos sociais. AirPods passam a mensagem social de riqueza, porque tiram o seu valor de uma cadeia social invisível de produção que, em primeiro lugar, é necessária para os fazer.

A História da Apple sobre os AirPods

Segundo a Apple, os AirPods são parte de uma visão maior de um “futuro wireless”. O site da Apple introduz os AirPods como “Headphones sem fios. Finalmente desembaraçado”. Fios, a Apple argumenta, são um fardo. Portanto, os AirPods são um produto de libertação.

É verdade que os fios podem ser irritantes. Enrolam-se. Prendem-se em coisas. Mexem-se enquanto fazes exercício. O plástico que cobre os fios pode rasgar-se, expondo os cabos de metal e inutilizando os auriculares. Mas, o pitch de libertação que nos é vendido pela Apple não é assim tão honesto. Os AirPods foram introduzidos em 2016, juntamente com a estreia do iPhone 7 e o 7Plus, que vinham sem entrada de auricular. Os headphones foram projectados para passares sem problemas do iPhone para o MacBook e para o Apple Watch, dependendo de que aparelho estás a usar.

Sendo assim, estrategicamente os AirPods aglomeram um ecossistema de produtos de luxo. Eles só são “convenientes” porque, ao eliminar a entrada de auriculares, a Apple tornou o iPhone menos user-friendly.

Acabar com o “incómodo” das entradas de auriculares teve dois custos. Primeiro: prende as pessoas a um sistema de produtos limitados, compatíveis e patenteados que vão, inevitavelmente, morrer dentro de alguns anos. Segundo: cria um dilema relativamente ao fim da vida desses produtos. Se tentares reciclar AirPods, um trabalhador numa instalação de reciclagem vai ter que assumir a tarefa arriscada de separar a bateria de lítio colada no plástico. Se simplesmente os deitares fora, arriscas-te a desencadear um incêndio num compactador de lixo. E se os AirPods acabarem numa lixeira a céu aberto, a terra vai embutir os headphones na sua crosta, onde ficarão durante pelo menos mil anos.

Os AirPods estão, pois, destinados a transformar-se em e-lixo a partir do momento em que são fabricados. E tornam-se e-lixo depois de apenas 18 meses de uso, quando a bateria insubstituível de iões de lítio morrer. “Eu colocaria os AirPods na categoria de obsolescência programada, mas na verdade é mais uma falha programada”, sublinha Wiens à Motherboard.

E acrescenta: “Quando fizeram este produto, sabiam que só durariam 18 meses. Não colocam essa informação na caixa, sabendo que a bateria não pode ser substituída e aqui estamos". AirPods são produtos descartáveis, impossíveis de deitar fora.

O som sempre foi importante para a Apple – pelo menos de uma perspectiva de marketing. A empresa, basicamente, mudou a forma de distribuição de música com a criação do iPod e o mercado de música digital iTunes, que abasteceu a proliferação do MP3. Auriculares brancos eram o ponto fulcral das campanhas publicitárias do iPod em meados dos anos 2000.

Mas, a verdade é que a Apple nunca vendeu os AirPods como os auriculares com melhor qualidade de som do Mundo. Num vídeo promocional de dois minutos, a qualidade de áudio do produto não é mencionada até à penúltima frase (“E claro, os novos AirPods wireless têm um som incrível”). A base do marketing dos AirPods da Apple é o facto de não terem fios. “Há muita tecnologia dentro de cada AirPod”, disse o vice-presidente de marketing da Apple quando apresentou os AirPods. E acrescentou: “O chip, os acelerómetros duplos, sensores ópticos, microfones, antenas, baterias – há um tour de force técnico nestes pequenos auriculares”.

O que leva a que os AirPods tenham uma performance melhor com iPhones do que estes têm com outros auriculares wireless é o chip W1, que faz três coisas:

- Ajuda os headphones a comunicarem com o teu telemóvel, computador e outros produtos Apple.
- Permite emparelhamento rápido, sem necessidade de ir até às preferências do sistema iOS.
- Torna os AirPods compatíveis com a Siri e capazes de fazerem chamadas telefónicas.

Mas, a tecnologia subjacente que torna os AirPods possíveis é o Bluetooth (ou a utilização de ondas de rádio para enviar dados, como o som, de aparelho para aparelho). Jim Kardach – o funcionário, hoje reformado, da Intel que deu ao “Bluetooth” o seu nome –, diz à Motherboard que o Bluetooth foi concebido para ser “o wireless do povo”, já que as suas capacidades são baratas. Ainda assim, as empresas que querem vender luxo, muitas vezes vendem a tecnologia Bluetooth como se fosse algo caro.

A Apple não respondeu aos pedidos da Motherboard para comentar. Já Kardach explica à Motherboard o que pensa quando vê anúncios de carros de luxo a dizer que têm Bluetooth incorporado: “A Jaguar fabrica carros super caros e gaba-se de qualquer coisa. Colocar um rádio Bluetooth num Jaguar custa-lhes, provavelmente, cerca de um dólar e, ainda assim, essa é uma das três coisas que eles colocam nos anúncios”. Os AirPods têm uma antena de Bluetooth comum. E sim, têm uma tecnologia wireless que já existe há 20 anos.

"Harald 'Bluetooth', Filho de Gorm"

Kardach baptizou a tecnologia Bluetooth inspirado por Harald Blaatand "Bluetooth", um rei viking que governou a Dinamarca no século um D.C. Segundo Kardach, o objectivo da tecnologia Bluetooth era unir as tecnologias de rádio, telemóvel e digital. De maneira semelhante, o "Rei Dente-Azul" dinamarquês uniu as antigas Dinamarca e Noruega, criando um reino escandinavo.

“Falei com o gajo do marketing e disse-lhe 'devíamos chamar a este programa Bluetooth', e ele disse 'estás louco'”, conta Kardach. “Eu insisti 'Sim, olha-me isto'. Tinha marcado Harald "Bluetooth" lI com uma caneta. Imprimi o desenho e ele disse 'Ahh, isto é bom. Podes colocar um telemóvel e um computador na mão dele?' E eu coloquei um telemóvel e um computador. Ele aí disse-me 'Ficou perfeito, vamos usar'.

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Imagem: Jim Kardach

A tecnologia Bluetooth foi inspirada por arqueologia e histórias do passado. Agora, está a ser usada para criar produtos como os AirPods: tecnologia pensada para viver apenas alguns meses, deixar de funcionar e ficar aqui na Terra até muito depois de morrermos.

Claro que os AirPods não são os únicos. Muitos dos produtos que usamos diariamente são construídos para se transformarem em lixo e, eventualmente, fósseis. Plásticos descartáveis – como garrafas de água, copos de café, embalagens de plástico – são baratos paras as empresas e convenientes para os consumidores. Também acabam, em grande parte, a flutuar no mar e a sujar o fundo dos oceanos. Alguns cientistas até já se estão a referir ao presente como o Plásticeno. Os aparelhos electrónicos não são diferentes. Para empresas como a Apple, poder reparar produtos é algo que prejudica o lucro final, portanto a empresa faz lobby contra os esforços de direito à reparação e colaborou com a Amazon para expulsar oficinas de iPhone e MacBook do site da Amazon.

Numa escala global, o nosso sistema económico é baseado em desconsiderar a longevidade, porque é mais lucrativo para as empresas fazerem produtos que morrem do que produtos que duram.

Portanto, claro, AirPods não são os auriculares mais caros do mercado e as piadas sobre o produto e a sua ostentação são, muitas vezes, irónicas. Mas, os AirPods são mesmo um símbolo de riqueza. São manifestações físicas de um sistema económico global, que permite que algumas pessoas comprem e facilmente percam auriculares de 180 dólares e deixem outras pessoas arriscarem a sua vida para produzir esses bens. Se os AirPods são alguma coisa, podemos dizer que são futuros fósseis do capitalismo.


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