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Saúde

10 Perguntas Que Sempre Quiseste Fazer a alguém que esteve em coma

Depois de um problema cardíaco grave, Lauren ficou em coma induzido durante quase três semanas.

Por Tom Usher
06 Dezembro 2017, 12:43pm

Foto ilustrativa. Via PhotoAlto / Alamy Stock Photo

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Imagina que um dia, do nada, começas a sentir-te meio estranho. Nada muito intenso ao início, só o suficiente para ficares preocupado. Só que, nos dias seguintes, esse mal-estar não só não passa como depois fica claramente pior, até que acabas numa cama de hospital, com um médico a dizer-te que têm de te colocar em coma induzido para que haja alguma hipótese de te salvar a vida.

Parece uma loucura, mas foi a experiência real de Lauren Banton Williams, 28 anos, que – aproximadamente por esta altura no ano passado – apresentou repentinamente síntomas de miocardite fulminante. Basicamente, uma inflamação do coração, causada geralmente por infecção viral ou doença auto-imune. Consequentemente, Lauren foi colocada em coma induzido durante quase três semanas, período durante o qual teve uma paragem cardíaca que durou 30 minutos. Contrariando as estatísticas - porque as probabilidades de sobreviver a isto eram literalmente de 0,1% -, Lauren está hoje viva.

Falei com ela para descobrir como é estar em coma e chegar tão perto da morte.

Lauren

VICE: Lembras-te como foi entrar em coma?
Lauren Banton Williams: A última coisa de que me lembro antes de ficar inconsciente é de me dizerem que seria posta em coma, mas que não sabiam por quanto tempo. Estimavam duas semanas. Fiquei muito triste, porque faltavam apenas alguns dias para o meu aniversário e tinha planos! Quando percebi que ia mesmo perder o meu aniversário, comecei a preocupar-me se estaria acordada para o Natal. Os médicos disseram-me que não tinham certeza de nada, mas que entrar em coma era a minha única possibilidade de sobreviver. Comecei a explicar freneticamente que queria muito ficar viva. Uma das últimas coisas de que me lembro é de olhar para o meu peito e dizer “Vamos lá, coração, tu consegues”. Nesse ponto sabia que havia a hipótese de nunca mais acordar, mas tinha de acreditar que havia alguma esperança.

No tempo que estiveste em coma, tinhas alguma consciência do que estava a acontecendo?
Estar em coma é, basicamente, dormir durante semanas. Não me lembro de ter consciência de alguma coisa a acontecer ao meu redor, ou de alguém me dizer alguma coisa. No entanto, disseram-me que a dada altura, levantei a mão e levei-a à boca, onde tinha o tubo de ventilação e a enfermeira disse-me para meter a mão do lado do meu corpo e eu meti, portanto acho que alguma coisa se estaria a passar.

Tens algum sonho ou memória subconsciente do teu tempo em coma?
Tenho memórias, mas quando digo “memórias” não tenho a certeza se eram sonhos ou outra coisa. O sonho mais memorável é que eles me tinham montado outra vez e diferentes partes do meu corpo eram de madeira. Estava num mecanismo, juntamente com outros corpos, à espera da minha vez de sair, a saída era através de uma garra mecânica que abria periodicamente e os corpos eram atirados para fora, para um campo enlameado... foi bizarro.

Tinhas consciência de que estavas perto da morte?
A minha paragem cardíaca aconteceu cerca de uma hora depois de ter ficado inconsciente e a minha mãe foi a primeira pessoa a reparar que eu estava toda gelada, porque estava a segurar-me a mão. Ela avisou a enfermeira segundos antes das máquinas dispararem. Eu, claro, não tinha ideia do que estava a acontecer.

Como te sentiste quando finalmente acordaste?
A minha primeira memória é de alguns dias depois de acordar: ver o meu irmão e colocar a mão sobre a mão dele, mas não conseguia falar, o tubo de ventilação tinha feito muitos estragos. Lembro-me de sentir um movimento, como quando estás no deck de um barco. Não tinha ideia do que me tinha acontecido, ou porque estava no hospital, mas lembro-me de me sentir aliviada por ver rostos familiares - lembro-me que fiquei com lágrimas nos olhos.

Como é que foi atualizares-te com tudo o que tinhas perdido?
Lembro-me de ficar muito surpreendida quando perguntei que dia era. Não entrei em contacto com os meus amigos, nem quis olhar para o telemóvel durante uma semana ou duas depois de acordar, porque descobri que conseguia lidar melhor com a minha situação se não a visse no contexto da minha vida antes do coma; saber que todos os meus amigos estavam a viver as suas vidas normais fazia-me sentir que a situação era ainda pior.

Quais os grandes equívocos sobre o coma que tinhas e que agora sabes que são totalmente diferentes da realidade?
Acho que o equívoco mais comum é que alguém em coma pode ouvir ou sentir o que acontece ao seu redor. Acho que, subconscientemente, podes sentir certas coisas, mas, no geral, estás completamente desligado. O que também acho que muita gente não entende, e é importante salientar, é que, na verdade, é difícil para os médicos tirarem alguém do coma quando acham que é a hora certa; são precisas várias tentativas e o processo pode demorar muito e ser muito tenso para toda a gente envolvida.

Mudaste drasticamente algum comportamento por teres estado em coma?
Mais por ter algo drasticamente errado com meu coração, não como resultado do coma. Mas sim, mudei o meu comportamento em algumas coisas. Não sei se é porque encarei a minha mortalidade de frente, mas tenho um desejo de cuidar melhor de mim própria - percebi que a vida é preciosa e quero agarrar-me a ela. Basicamente, já não saio tanto quanto costumava! Gosto de me deitar cedo e acordar cedo e aquela atitude de “que se foda” desapareceu.

Como é que estar em coma mudou a tua visão da vida e da morte?
Agora, penso muito mais na vida e na morte. Sei que soa sombrio, mas não consigo evitar: morte é parte da vida e chegar tão perto dela fez-me ver, claramente, essa realidade. Acho que ganhei mais respeito pela vida. Tive que lutar com todas as forças pela minha e, muitas vezes, aguentei muitas dores ou um tremendo mal estar por causa dos efeitos dos medicamentos. Foi uma experiência muito assustadora e solitária que não desejo a ninguém.

A tuas prioridades mudaram depois que recuperares totalmente?
Desde a experiência os meus valores e prioridades ficaram muito mais claros. É difícil explicar, mas sinto que agora sei o que é importante para mim. A minha família sempre foi importante, mas agora é-o de uma forma diferente - coloco-os à frente de tudo. Também sinto que eles, mais que quaisquer outros, têm uma ideia melhor do que essa experiência foi para mim. Eles sentiram os efeitos em primeira mão, portanto sinto que é mais fácil falar com eles do que com outras pessoas. Acho que tudo o que quero é estar cercada de pessoas que se importam comigo e vice-versa e ser feliz e saudável. É a mesma coisa que sempre quis, só que agora preciso de todas as partes extras.

Obrigado, Lauren.


@williamwasteman

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