A história do Dorsal Atlântica e do metal no Brasil virou HQ
Imagem: Divulgação
Noisey

A história do Dorsal Atlântica e do metal no Brasil virou HQ

Roteirizada e desenhada pelo líder da lendária banda carioca, Carlos Lopes, a obra faz um raio-x da música pesada do país nas últimas décadas.

Conhecido no Brasil e no mundo pelo seu trabalho com a Dorsal Atlântica, o vocalista e guitarrista Carlos Lopes recentemente resolveu mostrar um outro lado do seu trabalho artístico. O músico assina sozinho o roteiro e os desenhos de uma biografia em forma de história em quadrinhos sobre a clássica banda de metal que fundou há mais de 30 anos com o irmão, o baixista Cláudio Lopes.

Produzida de forma independente com a ajuda de uma campanha de financiamento coletivo pela internet, a obra, intitulada apenas Dorsal Atlântica — Uma História em Quadrinhos (2017), começa bem antes de Carlos tocar os riffs que influenciaram bandas como Sepultura e Korzus, mostrando a infância do músico carioca, que teve nos quadrinhos uma primeira paixão, ainda antes do rock entrar em sua vida.

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"Eu comecei desenhando. Mas aí quando conheci o rock, cismei que tinha de ter banda de rock. Aí fui perdendo o interesse em desenho e meio que abandonei, desenhava apenas muito esporadicamente", relembra o músico, que já tinha deixado claro esse amor pelos quadrinhos logo na abertura do seu primeiro livro, o essencial e já clássico Guerrilha — A História da Dorsal Atlântica (1999):

"Houve uma época em que a minha grande meta era ser desenhista de histórias em quadrinhos. Para ser exato, foi o meu primeiro grande sonho, antes de o rock ir tomando conta de mim."

Segundo ele, a ideia de fazer a HQ surgiu ao perceber que precisava retomar o que tinha sido seu primeiro sonho de infância. "Comecei a ficar com um sentimento de que tinha um negócio incompleto, algo que eu tinha largado para trás. E era a questão do desenho", explica Carlos, para quem a música não é o suficiente na hora de se expressar. "É difícil fazer só uma coisa. Se pudesse, estava fazendo filmes, um monte de coisa. Porque não basta. Não é nem uma questão de querer abraçar tudo, mas é que não basta mesmo, a linguagem parece pequena."

Sem ler uma HQ desde o início dos anos 1980, o músico trabalhou durante cerca de um ano para transformar a história da sua banda (e da sua vida) em uma autêntica história em quadrinhos. "Retomei tentando encontrar uma linguagem, que é o mais difícil. Como não queria fazer igual a ninguém, então testei tudo que pude. E vou te falar que não foi fácil. Porque primeiro você tem que ter um roteiro. E o roteiro não estava servindo para nada, não era o que eu queria. Aí comecei a desenhar. E depois que eu desenhei é que olhei e coloquei os textos por cima."

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Carlos Lopes. Foto: Luciana Sendyk

Ao longo das mais de 100 páginas da HQ, o leitor é levado em uma viagem por toda a trajetória da Dorsal, que voltou à ativa em 2012 após um hiato de cerca de dez anos. Desta forma, conhecemos de perto desde os primeiros ensaios da banda, no início dos anos 1980, quando ainda tocavam covers com as letras modificadas para o português com críticas aos militares, até a volta da formação clássica há alguns anos, com o baterista Hardcore, que já rendeu os discos 2012 (2012), Imperium (2014) e o ainda inédito Canudos, cujas gravações foram finalizadas recentemente (a campanha de financiamento coletivo do disco também está rolando aqui).

Também marcam presença no livro outros momentos importantes da banda, como o show em Lambari, em 1985, que marcou a saída do baterista Animal e que tinha dois ainda jovens irmãos Cavalera na plateia; a rápida evolução do trio para lançar o clássico absoluto Antes do Fim, em 1986; a histórica apresentação com a banda punk Desordeiros e o marcante fim no Monsters of Rock de 1998, ao que se seguiu uma época longe do metal à frente de bandas como Mustang e Usina LeBlond, além do trabalho como jornalista musical.

"Olha que coisa engraçada. Dá para entender como ciclos de 10 anos. Eu saí do Monsters of Rock de saco cheio em 1998. E exatamente 10 anos depois, em 2008, quando me apresentei pela última vez com o Mustang, durante uma Virada Cultural, eu achei que já tinha dado, não estava mais afim", relembra Carlos, que diz não ouvir metal desde que parou de tocar ao vivo com a Dorsal, no final dos anos 1990.

Além disso, as memórias do músico também ajudam a recontar parte importante da história do rock e do metal no Brasil. Estão lá, por exemplo, o clássico clube Caverna, do Rio de Janeiro, onde a Dorsal tocou diversas vezes, a histórica turnê de Venom e Exciter no país, em 1986, que teve abertura do trio carioca, e também shows internacionais que marcaram um ainda jovem Carlos antes do Rock in Rio mudar tudo, como o Genesis, em 1977, e o Kiss, em 1983.

Como não poderia deixar de ser, a HQ também traz comentários e críticas sobre política, religião e outros assuntos que sempre interessaram a Carlos, uma característica essencial das letras da Dorsal. Para ele, chama a atenção o fato dos fãs da banda compreenderem melhor as letras da banda atualmente. ""As pessoas me escrevem e elas entendem o que eu falo no Imperium, que saiu em 2014 e continua vendendo até hoje. Elas conseguem entender, fazer um paralelo entre a queda do império e a queda da Dilma Rouseff", aponta o músico, que destaca que isso não acontecia há 30 anos. "Então o que acho mais fantástico é que, por mais que eu esteja desacreditado de tudo, você tem um pouco de esperança quando vê que o disco vende e que as pessoas estão entendendo o que está lá. Então isso também é recompensador."