Por dentro do banheirão brasileiro
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Sexo

Por dentro do banheirão brasileiro

Sexo gay anônimo em lugares públicos.
9.8.17

Digamos que o banheirão pode ser comparado ao Voldemort. Todo mundo conhece, mas ninguém fala em voz alta pra não dar ruim. Isso porque a prática diz respeito a sexo gay, anônimo, discretíssimo feito em banheiros públicos. Num universo exclusivamente masculino, a pegação conta com silenciosas regras de conduta enquanto personagens vivem um misto de tesão e tensão.

Felipe* debutou num banheirão com 17 anos. Ao trocar olhares com outro cara no ônibus, desceram no mesmo ponto e se masturbaram ao mesmo tempo em um banheiro público. Uma plateia masculina assistiu e, assim, Felipe descobriu um point para homens em busca de uma transa anônima. Achou um tesão.

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O sexo gay em banheiros públicos talvez explique por que alguns homens dizem não gostar de urinar quando o mictório do lado está ocupado. Ou, como corre nas regras de conduta dos banheiros masculinos, sacudir muito o pênis significa que você está se insinuando no banheiro para outro homem.

O banheirão, aliás, vai além dos limites nacionais. O cantor George Michael, por exemplo, precisou assumir sua orientação sexual para o mundo após ser flagrado cometendo um "ato obsceno" em um banheiro público perante um policial disfarçado em Beverly Hills. O caso, ocorrido em 1998, repercutiu na imprensa internacional. Na Inglaterra, onde a sodomia era crime até o final dos anos 1960, homens gays se encontravam em banheiros de parques para pegação. A prática ganhou o apelido de "cottaging", em referência às casinhas inglesas que abrigavam os mictórios.

Para o ativista e consultor LGBTQ Gustavo Bonfiglioli, o banheirão foi essencial no processo de assumir sua orientação sexual. Aos 16 anos, ele tinha medo de ser descoberto homossexual. "Entrei na cabine do banheiro de uma loja na Avenida Paulista pra bater uma punheta porque tinha acabado de folhear um livro do Tom of Finland morrendo de medo", conta ele. "Estava naquela adrenalina e tesão teen quando vi um boyzinho, carinha de nerd, me assistindo bater punheta. Gozei olhando no olho dele e saí correndo."

Ilustrações por Luza Formagin.

Casos como o de George Michael ajudaram a manter a prática do banheirão num submundo conhecido apenas por homens homossexuais. Reportagens dos anos 2000 em colunas GLS alertavam para os homens evitarem o "vexame" do banheirão. O shopping Frei Caneca, conhecido point LGBTQ em São Paulo, chegou a colocar placas alertando que sexo em lugares públicos é crime. Uma conhecida rede de academias na capital paulista também colocou um segurança nos chuveiros para travar eventuais escapadas por lá.

A justificativa do "atentado ao pudor", no entanto não foi capaz de barrar a existência do banheirão. Os espaços se tornaram um escape para homens (gays ou não) transarem e realizarem fantasias. Um local onde a classe social, cor e aparência física não interferem no tesão. Não à toa, existe um Guia Gay completíssimo do Brasil inteiro feito em conjunto por simpatizantes anônimos.

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Os banheiros mais comuns para pegação costumam estar localizados em lugares de grande movimento. "Trabalhei muito tempo no bunker coxinha de São Paulo, a Berrini, mas a melhor coisa era o banheirão da CPTM", diz Bonfiglioli. "Um boy já chegou até a me entregar um currículo depois que bati umazinha pra ele, caso soubesse de uma vaga por ali."

O jornalista baiano Tedson Souza sabia de todo o estigma do banheirão depois de escrever reportagens sobre points de pegação em Salvador. Por isso mesmo, em 2012 estudou e vivenciou as experiências sexuais no banheiro masculino da estação de metrô da Lapa, no centro da capital. "Lá, era também um lugar onde as pessoas passavam a caminho de casa e era propício para o anonimato", explica Souza, hoje professor universitário e mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia.

Nas suas jornadas ao banheiro masculino da Lapa, Tedson descobriu figuras como o viciado em drogas que dedurava a pegação pra polícia e o próprio policial que extorquia dinheiro de homens hétero pegos com outro homem. Ele viu travestis serem expulsas do banheirão, além de constatar o papel da "bicha vigia", que avisa caso a polícia apareça. "E claro, existia a Elza [gíria para roubo] generalizada."

Se existem regras de conduta no banheirão? O pesquisador Tedson Souza diz que, sim. "Não existe uma receita de bolo, existe todo um clima e toda uma coisa de olhar e da condução do silêncio. Naquele espaço, o silêncio diz tudo."

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Ainda assim, para o pesquisador, o que mais chama atenção na prática do banheirão é a busca da virilidade. "Não vou negar que é uma experiência masculina, onde as trans são excluídas e onde se busca o homem de verdade." O resultado de sua pesquisa está na dissertação Fazer Banheirão: As Dinâmicas das Interações Homoeróticas nos Sanitários Públicos da Estação da Lapa e Adjacências.

Bonfiglioli finaliza dizendo que "o mesmo homem que te xinga de viadinho na rua te mama no banheiro do shopping sem ninguém saber. Muitos machos que vivem como héteros continuam gozando desse privilégio, sem deixar de exercer seus desejos secretos 'no sigilo' de um banheiro."

Ensinamentos do banheirão segundo Gustavo. Ilustração por Luiza Formagin.

*O nome foi mudado para preservar a fonte.

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