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Este parque temático da Arca de Noé custou 100 milhões de dólares e é homofóbico e chato que dói

O parque Ark Encounter, no Kentucky, EUA, foi pensado para entreter criacionistas e não-criacionistas. Eu não me diverti.

Por Jamie Lee Curtis Taete; Traduzido por Madalena Maltez
26 Outubro 2018, 6:00am

Todas as fotos pelo autor.

Este artigo foi publicado originalmente na VICE USA.

Parece que o Ark Encounter, um parque temático dedicado à Arca de Noé, situado no Kentucky, nos EUA e que custou 100 milhões de dólares [perto de 88 milhões de euros], não está a ir muito bem.

Segundo o Louisville Courier Journal, entre Julho de 2017 e Junho de 2018 foram vendidos para o parque cerca de 860 mil bilhetes, bastante aquém dos dois milhões que Ken Ham, o criador da Arca, tinha previsto vender anualmente antes da inauguração (um porta-voz do parque disse ao Courier que as vendas de entradas não reflectem o número real de visitantes, se se tiver em conta passes anuais e bilhetes grátis para menores de cinco anos. Dizem, por isso, que receberam cerca de um milhão de pessoas).

Ham já culpou vários factores para a fraca performance do parque de atracções. Desde os donos de negócios locais, aos ateus. Mas, haverá uma explicação mais simples? Será possível que as pessoas não queiram visitar a Arca por ser um passeio demasiado chato?

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Antes de examinar isso, vale a pena observar o que as mentes por detrás do projecto queriam fazer. Segundo Ham, o objectivo era produzir entretenimento que atraísse cristãos e não-cristãos. “Como é que se atinge o público em geral de maneira mais alargada?”, perguntou ele numa entrevista no ano passado ao Washington Post. “Porque não criar algo para as pessoas da mesma forma que vão à Disney, à Universal ou ao Smithsonian?”. Para isso, contratou Patrick Marsh, um designer de atracções, que já trabalhou com a Universal Studios e com o parque temático da Sanrio, no Japão.

Sendo assim, a Arca pode realmente atrair visitantes da mesma maneira que a Disney, a Universal ou o museu Smithsonian? Visitei o parque para descobrir.

Chegar à Arca

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Depois de pagar 61,48 dólares [cerca de 53 euros] pelo bilhete, mais estacionamento, embarquei num autocarro que me levou até à Arca, que ficava do outro lado da colina. A Arca – que se vê do autocarro no topo do monte – é realmente impressionante. Como dizem nos anúncios, é uma réplica mesmo muito grande da Arca de Noé.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. Para além do inicial “Uau, que grande”, a visão da Arca não tem muito valor como entretenimento. É só um prédio grande, num formato que não vês normalmente por aí. É como levar pessoas de uma tribo da Amazónia a ver um supermercado vazio. Certamente achariam a estrutura interessante, mas duvido que quisessem pagar 79 dólares para lá passar o dia.

A entrada da Arca

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Ao entrar na Arca, passas por uma área de controlo de filas extremamente optimista. Aquelas típicas de parque temático, que dão várias voltas para fazer caber o maior número de pessoas juntas num espaço pequeno. Estimo que a área poderia receber umas mil pessoas. Mas, quando passei por ali, éramos só uns 10 visitantes.

Depois, entra-se na primeira secção da Arca. Que, estranhamente, é outra área de fila, desta vez pensada para parecer um estábulo. Aqu,i há espaço para umas 100 pessoas. Essa área também estava vazia.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. Mas, acho que não importa, porque parece bastante improvável alguém ter que realmente esperar nessa área.

O Estábulo

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A primeira exposição propriamente dita da Arca é uma sala com várias jaulas de madeira com modelos de animais lá dentro.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não muito. Os animais não são interactivos nem se mexem. Talvez se fores um entusiasta de modelos de animais? O plano original, aparentemente, era ter animais vivos nesta parte. O que significaria muitos animais stressados a fazerem barulho e a cagarem em jaulas, num espaço pequeno e sem luz natural. Dependendo da tua tolerância à crueldade animal, seria um espectáculo interessante, acho.

O Mundo pré-dilúvio

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Pensando em conteúdo, esta área tinha um grande potencial. Mostra como o Mundo era antes do dilúvio. Aparentemente, eram várias batalhas entre pessoas e dinossauros, sacrifícios humanos e pessoas a serem comidas por tubarões. Mas, infelizmente, fora três dioramas, tudo isso é mostrado usando apenas alguns desenhos e textos em placas na parede.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. Acho que podiam ter usado uma parte do orçamento geral para fazer esta secção em modo comboio fantasma.

Vários cartazes numa parede

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Depois de ler as placas na secção pré-dilúvio, chegas à próxima atração: vários cartazes nas paredes. Os cartazes explicam as falhas da teoria da evolução e como Noé e a sua família, em teoria, podem ter lidado com questões como a eliminação de resíduos e ventilação. Também havia figuras de cera da família de Noé.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. As pessoas não gostam de ficar a ler cartazes nas paredes. Pensa no Epcot da Disney. Tem lá um brinquedo chamado Test Track, que ensina sobre design automóvel, mas também é tipo uma montanha-russa que chega a mais de 100 km/h. Fica-se em média uma hora na fila para andar no brinquedo. A alguns metros de distância, eles têm uma sala de exposição, estilo museu, que explica as inovações tecnológicas da indústria automóvel. A sala é tão sossegada que podias lá deixar um cadáver que ninguém ia perceber durante dias.

As acomodações da Arca

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As acomodações – uma série de salas que mostram como Noé e a sua família poderiam ter vivido. Há um cartaz na entrada a explicar que tiveram que tomar algumas liberdades artísticas para criar essa área, porque a Bíblia não dá muitas informações sobre o tema.

Podiam ter usado essa liberdade artística para fazer uma coisa mais fixe, tipo uma Wakanda Bíblica. Em vez disso, inventaram um nome para a mulher de Noé (Emzara) e criaram uma exposição de teares, o objecto menos interessante à face da Terra.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. Podes ver quartos e salas falsos em qualquer loja de móveis de graça. E sem precisares de ler uma única palavra sobre teares.

Encontros com animais assustadores

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Aqui há alguns túneis escuros com animais empalhados e efeitos sonoros assustadores.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Provavelmente é a coisa mais interessante do barco, mas não consegue ser um entretenimento no sentido tradicional. Só mesmo quando comparado com as outras atracções.

A Arca de conto de fadas

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Como podes ver pela foto acima, a entrada desta área, que é rodeada de animais gigantes fofinhos, parece promissora.

Mas, é só um isco. A exposição, na verdade, foi pensada para te ensinar que animais fofinhos, como os que te atraíram para a exposição, são maus. Os livros infantis que contam a história da Arca – ou seja, a história de um homem do Neolítico que constrói um barco suficientemente grande para carregar dois representantes de cada espécie da Terra inteira – usam isso para fazer a coisa parecer implausível.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Categoricamente não. E, sinceramente, é muito cruel para as coitadas das crianças enganadas a entrar na exposição.

Filmes

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A Arca tem duas áreas de exibição que, durante a minha visita, passavam dois filmes em loop. O primeiro, Entrevista com Noé, passa-se no tempo de Noé e mostra-o a ser entrevistado sobre a Arca por um repórter do jornal local. Noé é bonito, equilibrado e simpático. O repórter é mau, tem sotaque britânico e diz coisas como “Há quanto tempo estás a trabalhar nesse... projectinho?” enquanto revira os olhos. O fundo em CG da entrevista parece um clip dos Linkin Park.

O outro filme, Como nos Dias de Noé, mostra os mesmos actores, mas passa-se no presente, com um membro da equipa da Ark Encounter a ser entrevistado por um repórter de um tablóide de Nova Iorque, que publica manchetes como “Os melhores cirurgiões de troca de sexo da Costa Leste”, “Comecem a andar, meninas! Na xaria só homens podem conduzir!” e “Hipsters já não são fixes”.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
O único entretenimento aqui não é intencional, por isso provavelmente não. A menos que te convertas ironicamente.

Mais cartazes

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Chegou a hora de mais cartazes. Sala atrás de sala com cartazes. Mais cartazes do que alguma vez vi num só sítio. Mais cartazes do que na Marcha das Mulheres inteira. Cartazes com títulos como “Deposição Cros-continetal”, “Paraconformidade”, “Fóssil Poliestrata” e “A Enigmática Stonehenge”.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. Desafio-te a pensar numa coisa menos divertida do que ler um cartaz sobre o que diabos é um fóssil poliestrata.

Uma novela gráfica cristã

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Uma das novas adições da Arca é uma exposição feita para parecer uma BD, que conta a história de um universitário a questionar a sua fé (spoiler: Deus acaba por se mostrar porreiro).

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Ken Ham descreveu a exposição como “andar pelas páginas de um livro”. Uma descrição alternativa poderia ser “ler vários cartazes numa parede”.

Zoológico

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Fora da Arca, podes visitar uma área de jardim zoológico com zebras e camelos e fazer festinhas a animais como burros e cabras. Claro que há cartazes – a explicar como cada animal contradiz a teoria da evolução.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Acho que depende de como te sentes em relação a jardins zoológicos. Ver animais em cativeiro deixa-me meio triste, por isso para ir é para ver algo um pouco mais emocionante do que uma cabra.

Tirolesas

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Fora da Arca têm tirolesas em que podes descer, por uma taxa extra de 49 a 119 dólares. Não desci nenhuma tirolesa, porque tirolesas são notoriamente coisas sem graça. Fora os instrutores de tirolesa e o pessoal do American Gladiators, ninguém faz tirolesa mais que uma vez na vida.

Intolerância em relação a pessoas LGBTQ

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Intolerância a pessoas LGBTQ encontra-se por todo o lado, é uma grande atracção do parque. Todos os voluntários e funcionários da Arca são obrigados a assinar uma “declaração de fé”, que proíbe explicitamente gays, bis ou pessoas que “tentaram alterar o seu género por cirurgia ou aparência”.

Na minha visita, vi vários anúncios a um evento na Arca chamado “Sagrado: Abraçando o Design de Deus da Sexualidade”, que aparentemente é um tipo de evento de conversão gay transfóbico. Não contente com tirar empregos e a identidade a pessoal queer, Ken Ham também está numa de fazer campanha para “recuperar de volta o arco-íris”, promovido por um espectáculo de luzes nocturno e merchandising disponível na loja de souvenirs.

É DIVERTIDO O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Segundo o Gallup, o número de pessoas que não gosta de pessoas LGBTQ está a cair a cada ano. Incorporar isso na atracção é, provavelmente, um mau uso de recursos.

Conclusão

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A ARCA É DIVERTIDA O SUFICIENTE PARA TE CONVERTER A UM SISTEMA DE CRENÇA CRIACIONISTA?
Não. É basicamente um armazém de cartazes de 100 milhões de dólares, que custa mais de 50 paus para entrar. O que é desanimador. Todas as crianças, mesmo aquelas arrastadas para atracções criacionistas pelos pais, merecem divertir-se. Lá porque os seus pais preferem gastar dinheiro nesta cena em vez de numa viagem ou num jogo de PS4, não significa que mereças ter uma infância depré.

Vi notícias de que o pessoal da Arca planeava uma expansão que incluiria uma atracção dedicada às Dez Pragas do Egipto. Mas, Patrick Kanewske, porta-voz do parque, disse-me que isso está congelado enquanto estão focados em construir um novo auditório, uma área de lojas e praça de restauração e uma Torre de Babel para conter “várias exposições a falar sobre o relato bíblico do dilúvio”.

Parece-me muito improvável, mas esperemos que pelo menos uma dessas coisas tenha menos cartazes.


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