sexo

Perguntámos a casais porque é que decidiram abrir a relação

Do problema de se ter um micropénis, à dificuldade de viverem em continentes diferentes, casais não monogâmicos respondem às perguntas que os amigos têm vergonha de lhes fazer.

Por Mica Lemiski
07 Junho 2017, 10:13am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Passa por algumas bios do Tinder e é certinho que vais encontrar algo do tipo "estou num relacionamento, mas quero divertir-me!". Ou então um subtexto assim não tão subtil, do género "tenho um parceiro, mas temos uma relação aberta, por isso vamos foder".

Um em cada cinco norte-americanos diz que já esteve numa relação aberta em algum ponto da sua vida romântica. Mas o que é que "aberta" quer realmente dizer? E como é que essa conversa surge? Certamente não é tão simples como pausar o Netflix e perguntar "então, queres sair com outras pessoas?". Ou será que é? Para descobrir, a VICE falou com três casais sobre porque é que escolheram um estilo de vida não monogâmico, que regras - se há alguma - estão envolvidas e porque é que para eles funciona.

Kasara, 24 anos e Chris, 23

1496787322444-1496082778049-Chris-and-Kasarapng

VICE: Há quanto tempo estão juntos?
Chris: Fazemos três anos em Outubro.

E qual é a vossa história original como casal?
Kasara: Na realidade conhecemo-nos no Tinder. Naquela primeira noite, bebemos alguns copos e fomos para casa dele. Não esperava ter notícias depois, mas de repente começámos a encontrar-nos sempre. Chamávamos ao que tínhamos de "fucklationship", porque não conhecíamos termos como relação aberta, ou não monogâmica.

Chris: Nesse ano em que conheci a Kasara só queria relaxar e curtir, porque não andava a divertir-me muito com a minha ex.


Vê o primeiro episódio da segunda temporada de "Slutever"


Kasara: Eu também tinha saído de uma relação quando nos conhecemos, por isso queria manter aquele elemento casual. Depois, quando o Chris foi à Austrália pela primeira vez - periodicamente vai lá visitar a família - acabei por conhecer alguém por quem desenvolvi sentimentos. O nome dele era Yanis, mas falei com o Chris sobre isso e ele disse: "Está tudo bem". Fomos de uma situação de relação aberta para uma coisa mais poliamorosa.

Chris: Inicialmente foi um bocadinho estranho ela sair com o Yanis, porque eu estava longe e sentia muita a sua falta, mas também fiquei muito feliz por ela ter encontrado alguém que a fazia tão feliz como eu. Isso, efectivamente, abriu-me os olhos sobre como estabelecer ligações com outras pessoas pode beneficiar um relacionamento. Quer dizer, eu ainda não tive nenhuma ligação emocional com outra pessoa, mas já tive bons encontros e "quases". Não é algo com que me preocupe muito. Estou bastante contente como estou e com o que faço.

O que é que os vossos amigos e família pensam sobre a vossa relação?
Kasara: Quando andava a sair com o Yanis, convidei-o para ir a minha casa enquanto o Chris estava na Austrália. Mas, ainda morava com os meus pais e a minha mãe puxou-me de lado e disse: "Tu e o Chris vão morar juntos entretanto! Como é que lhe podes fazer isto?!". Disse-lhe que não havia problema e que tínhamos concordado com esta situação. Portanto, os meus pais sabem, acho eu, mas nunca falam sobre isto.

Chris: Uma das piores experiências foi quando decidimos definir-nos como poliamorosos. Foi uma fase chata, em que eu queria contar a toda a gente, por isso mencionei o assunto com a minha equipa de vólei e eles gozaram comigo sem dó nem piedade. Disseram coisas como "Ela vai andar por aí a pinar com outros gajos e tu estás na boa?". Tentei explicar-lhes que não era assim que funcionava, mas nunca entenderam. Para eles, era só uma coisa estranha e engraçada que eu andava a fazer.

Kasara: Sim, quando conto a outras pessoas sobre o meu relacionamento, é hilariante ver a cara que fazem enquanto tentam assimilar. Fazem uma cara de reflexão e depois dizem "Ahh, então tu e o teu namorado não andam a pinar" e eu digo "Não, claro que andamos". Fazem uma pausa e dizem "Ahh, então é uma coisa de conveniência". E eu digo "Não!". Portanto, são sempre momentos engraçados.

Porque é que uma relação poliamorosa é a melhor escolha para vocês?
Kasara: Demorei algum tempo a perceber, mas não sou uma pessoa monogâmica. Sempre consegui ter sentimentos por outras pessoas. Acho que o ciúme não deveria ser perpetuado como a norma para os relacionamentos, como é com a monogamia.

Chris: Penso da mesma forma. Nunca colocámos limites nas emoções que não são o amor, não dizemos que só podes ficar triste e feliz com uma coisa, mas na monogamia é como se só uma pessoa tivesse permissão para sentir o teu amor. E amor é uma emoção tão boa, porque não experimentar com várias pessoas? Poliamor é altamente, pessoal! Não somos esquisitos.


Vê também: "O movimento hedonista e poliamoroso dos unicórnios londrinos"


*Lyndsay, 24 anos e Tyler, 24

VICE: Quando é que a conversa sobre "relação aberta" começou para vocês?
Lyndsay: Diria que foi depois de dois anos juntos, agora namoramos há cinco. Ele abriu-se e disse que, se eu quisesse ir para a cama com outro gajo, tudo bem. Porque ele tira muito prazer do meu corpo - os meus peitos são enormes -, mas não consegue ter a mesma performance de alguém com um pénis maior.

Tyler: Sim. Estávamos a passar por alguns problemas na nossa relação, porque ela não estava sexualmente satisfeita. Tenho um micropénis, não há muita coisa com que trabalhar, portanto senti que não podia dar à Lyndsay o tipo de prazer que ela era capaz de sentir. E, como quero o melhor para ela, começámos a falar sobre alternativas.

Lyndsay: Primeiro falámos sobre usar brinquedos para aumentar o meu prazer, mas um pénis de plástico não é a mesma coisa que um verdadeiro! E descobrimos que os mais realistas tinham, tipo, uns 20 centímetros, e isso eu não ia aguentar. Ir de um micropénis para um vibrador gigante não ia funcionar.

Tyler: Pensei que nada seria melhor que a cena real. Ela merece ter o mesmo tipo de prazer que tenho com ela. Porque não deixá-la ter o melhor?

Muito generoso. Mas há aí algum elemento de sacrifício? Ter uma relação aberta só para um lado não cria um tipo de desequilíbrio?
Lyndsay: Sinto um pouco de medo e culpa só de pensar em pinar com outra pessoa, mesmo sendo algo que o Tyler realmente quer. Tipo, ele quer que eu tenha esse prazer. Na verdade, eu ainda não fui para a cama com mais ninguém.

Ah, então neste ponto é mais uma fantasia? Vocês estão abertos a serem abertos?
Lyndsay: Sim. Porque não quero ter sexo com alguém e depois sentir vergonha. De momento estamos mais interessados na ideia. Estamos a criar cenários e a brincar com a ideia.

E quão importante é "consumar" essa fantasia?
Tyler: Para mim, desde que ela esteja feliz, não me importo se aconteça ou não. Acho que ela tem que aproveitar se realmente tentar. Tenho muitas esperanças de que ela o consiga fazer.

Acham que há aí um aspecto kinky? Tipo uma fantasia de traição...
Tyler: Comecei a pensar nisso quando tinha uns 16 anos. Tinha uma amiga colorida que era fascinada pelo meu micropénis, porque nunca tinha visto um como o meu. Ela fazia sexo com outros gajos, mas voltava sempre para mim. Não fazíamos mesmo sexo, mas ela fazia-me sexo oral e tudo o mais, porque gostava de mim e queria ficar comigo. Acho que isso preparou-me para a possibilidade do relacionamento aberto.

Lyndsay: Na verdade, uma vez preguei-lhe uma partida e disse-lhe que estava prestes a ir para a cama com alguém. Estava no aeroporto e mandei-lhe mensagem a dizer que tinha encontrado uma pessoa.

Tyler: Fiquei muito empolgado por ela, porque sabia que seria uma nova aventura. Acho que teres este tipo de aventura sexual na tua vida pode ser muito bom. Já tive algumas na minha e quero que a Lyndsay tenha também, mas o problema é que não tenho uma performance que permita isso. Portanto, sim, quando ela me mandou a mensagem a dizer que ia pinar na casa-de-banho do aeroporto, a verdade é que fiquei muito feliz.

Não te sentes ciumento ou inseguro com isso?
Tyler: Sinto-me confortável comigo mesmo, por isso só fiquei mesmo empolgado. Aceito-me como sou. Ainda temos uma boa vida sexual, independentemente do meu tamanho.

Daniel, 42 anos e Regina, 39

1496829731354-1496082831263-Regina_swingers

VICE: Há quanto tempo estão juntos?
Regina: Estamos juntos há seis anos e meio e casados há quatro.

Há quanto tempo têm um relacionamento aberto? E como tomaram essa decisão?
Daniel: A Regina e eu estivemos juntos em exclusividade durante um ano, antes de começarmos a frequentar festas com outros casais. Somos swingers.

Regina: Mas, logo no início, discutimos coisas como as nossas histórias sexuais e de relações. Ele já tinha sido casado, eu também, e já tínhamos saído com várias pessoas ao mesmo tempo. Numa era de Tinder e sites de encontro – que foi como nos conhecemos – podes sair com várias pessoas simultaneamente e não é necessariamente como se fosses não monogâmico, mas sim não exclusivo e sinto que isso é quase um precursor para eventualmente ser não monogâmico.

O que vos atraiu no estilo de vida do swing?
Daniel: Há uns cinco anos, a minha ex-mulher disse-me que se tinha apaixonado por outro homem. Mas, ela ensinou-me a lição mais profunda: não importa quem tu sejas, o teu parceiro pode acordar um dia e apaixonar-se por outra pessoa. E isso não é culpa de ninguém. Percebi que o meu próximo relacionamento tinha de ser aberto, porque já não tinha o desejo de controlar a minha parceira. E controlo é apenas uma ilusão.

Regina: E, para mim, sexo nunca foi um grande problema. Nunca tive uma má experiência sexual, felizmente. Para mim, conhecer novas pessoas é excitante, não tenso ou assustador. Portanto, o swing pareceu-me a escolha certa.

Existe infidelidade numa relação aberta?
Regina: Sim. Se cruzas um limite que os dois estabeleceram. Isso seria muito mau.

Então, quando estão no mundo do swing, como é o vosso processo de selecção? Têm ambos de concordar com uma determinada pessoa?
Regina: Na verdade, posso dar-te um exemplo de uma noite recente. O Daniel foi a um bar e uma rapariga perguntou-lhe: "O que farias comigo se pudesses?". E ele não sabia o que dizer! Então, mandou-me uma mensagem: "Ela quer saber se tenho o teu consentimento". Essa mulher estava a pedir a minha permissão para foder com o meu marido! E eu respondi "só se estiveres mesmo interessado nela". Liguei-lhe no dia seguinte e disse que precisava de atenção: "Só quero que me digas, honestamente, que te divertiste muito ontem, mas que ninguém se compara a mim". Ele riu-se e disse: "Meu Deus, claro. Mal posso esperar para chegar a casa". E esse é o ponto crucial. Depois de o ouvir dizer isso, ouvir o tom de voz, foi a coisa mais honesta e carinhosa que já me disseram. Estava tudo certo.

Daniel: Exacto. Fazemos swing porque é uma grande adição às nossas vidas, não porque sentimos falta de alguma coisa um com o outro. Tudo isto é um bónus. Swing é apenas outro benefício.

*Os nomes foram alterados.


Segue a Mica no Twitter.

Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.