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O gol contra numa Copa que terminou em assassinato

Em 1994, o narcotráfico mandava no futebol colombiano. E punia.
3.7.18
Andrés Escobar (à esquerda) na Copa do Mundo de 1994 .

Muito se fala no futebol moderno sobre a pressão e o estresse que sofrem os jogadores de elite.

As seleções da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos, eram formadas por 22 homens brutos e mal pagos, mas a pressão sobre uma equipe em particular era quase inimaginável, paralisante: a Colômbia, um pais que parece só agora se recompor de décadas de conflitos em torno do tráfico de cocaína.

Quando começou o torneio, Pablo Escobar – notório garoto-propaganda das guerras do tráfico, responsável, dizem, pela morte de mais de 500 policiais, milhares de gângsters, juízes e políticos, e pelo menos um árbitro – estava morto fazia seis meses, mas a guerra civil entre o governo e as gangues guerrilheiras ainda dominava o vácuo deixado pelo falecimento do chefão. Muito dinheiro colombiano passava pelas gangues do narcotráfico, então era inevitável sentir a influência delas no mundo do futebol. Mas ninguém contava com um impacto tão cruel, brutal e sem sentido quanto o daquele verão.

Andrés Escobar na Copa do Mundo de 1994 Créditos: Allstar Picture Library / Alamy Stock Photo

Andrés Escobar era, acima de tudo, um atleta. Posto isso, seria um desserviço debater sua morte sem apresentar o contexto todo da competição, para ilustrar como a seleção colombiana, liderada por ele até a Copa, poderia ter se saído bem, caso não tivesse ficado paralisada de medo.

Entre as 26 partidas que antecederam a Copa do Mundo, a Colômbia perdeu apenas uma vez. No decorrer das qualificatórias, tomaram apenas dois gols, e na última rodada, ainda atropelaram a Argentina de Fernando Redondo, Diego Simeone e Gabriel Batistuta com 5 a 0 em plena Buenos Aries, resultado que conferiu a eles o maior dos elogios: aplausos de pé dos torcedores cuja seleção tinha acabado de ser atropelada. A Colômbia tinha seus próprios craques: Freddy Rincón, Carlos Valderrama e Faustino Asprilla sendo os mais óbvios. Sem brincadeira, a seleção como um todo era uma grande estrela, e a equipe chegou onde chegou graças a Andrés Escobar, um homem reservado, dedicado à família e a Deus, que passava boa parte do tempo protestando pela paz.

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“É difícil seguir focado, mas encontro motivação nas coisas boas por vir”, disse Escobar aos 27 anos, às vésperas do torneio, depois do qual ele planejava se mudar para a Itália para jogar pelo Milan de Fabio Capello, fenômeno da série A da Champions. “Tento ler um trecho da Bíblia todo dia. Meu marcador de páginas são duas fotos, uma da minha falecida mãe e outra da minha noiva.” Os amigos e familiares descrevem um homem que acreditava que o futebol poderia salvar a Colômbia.

Quem pinta esse retrato é Michael Zimbalist, que junto ao irmão, Jeff, dirigiu The Two Escobars, documentário meticuloso e frenético sobre esses dois homens não-relacionados, e como as vidas deles se entrelaçaram à imagem da sociedade colombiana.

“Até hoje, paira sobre os colombianos uma negatividade pesada em termos de percepção de fora”, Zimbalist explica. “A seleção colombiana, à época, liderada pelo capitão Andrés, estava tentando mudar essa imagem negativa, e acho que isso ainda se aplica hoje, não só no futebol, mas entre todos os colombianos. Eu, pessoalmente, nunca vi um povo tão dedicado à forma como as pessoas de fora do país o veem.”

Essas percepções ainda carregam uma mancha hoje, pelo que aconteceu depois que a Colômbia enfrentou o time da casa na segunda rodada de grupos da Copa de 94, nos Estados Unidos. A seleção sul-americana já tinha perdido de 3 a 1 para a Romênia, que por sua vez surpreendia por ser genuinamente boa: antes da explosão online do futebol ganhar força e o estilo de todo jogador de elite ser acessível em tempo real, Gheorghe Hagi estampou as telas das televisões como um relâmpago atingindo uma árvore no meio do deserto. Foi quem marcou um dos gols dessa partida de estreia, em um toquinho ridículo da linha de fundo que passou por cima da cabeça do goleiro da Colômbia, Oscar Cordoba. A combinação da elegência dele com a partida inspirada do goleiro romeno, Bogdan Stelea, e os nervos colombianos – logo trataremos disso – assegurou uma vitória surpreendente para os europeus orientais. Também fez da partida contra os Estados Unidos aquela que Escobar não poderia se dar ao luxo de perder.

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Revendo as imagens do jogo contra os americanos, é impossível não se perguntar o que se passou na cabeça de Escobar, debruçado no gramado da Rose Bowl Arena, em Los Angeles, depois de desviar um chute do meio-campista John Harkes para o próprio gol aos 34 minutos. Será que ele já sabia quanto custaria esse gol contra? Para todos os efeitos, seu sobrinho de nove anos de idade, que acompanhava o jogo de Medellin, já sabia. “Na hora, ele me disse, ‘Mãe, vão matar o Andrés’”, conta a irmã do zagueiro em The Two Escobars. “Respondi: Não, meu amor, as pessoas não são mortas por erros. Todo mundo da Colômbia adora o Andrés.”

A Colômbia deu alguns chutes a gol, mas nada deu certo até os 90 minutos de jogo, quando Adolfo Valencia finalmente marcou. Àquela altura, no entanto, perdiam de 2 a 0 já, e não tinham muito mais o que fazer. A geração colombiana de ouro perdeu de novo, e logo viria a retornar ao país, mesmo depois de uma vitória de 2 a 0 sobre a Suíça na última fase de grupos. Jogaram com raça, mas em vão.

Por diversos motivos, os jogadores mal viam a hora de estar em casa; e por diversos motivos, nunca conseguiram de fato dar uma escapada de lá. Muitas pessoas ficaram inflamadas com o primeiro resultado, contra a Romênia, não só pelo esporte, mas porque perderam dinheiro em apostas. Quando os jogadores retornaram ao hotel, em seguida, perceberam que seus televisores haviam sido hackeados, com a típica mensagem de boas-vindas substítuida por ameaças e insultos. Disseram ao zagueiro Luis Herrera que seu irmão tinha morrido em um acidente de carro, avisaram o técnico colombiano, Pacho Maturana, que se ousasse escalar Gabriel Gomez, meio-campista experiente, a equipe toda seria assassinada.

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Foi assim que a Colômbia se preparou para a partida crucial contra os Estados Unidos, um cenário longe de ser ideal. “Em termos psicológicos, estavam sofrendo muita pressão. Na época, ameaças de morte não eram vazias”, explica Zimbalist. “Pessoas eram assassinadas na Colômbia a uma taxa alarmante. Não é difícil de entender, com as famílias sob ameaça, como era difícil pra eles jogar.”

A maioria das pessoas mal conseguiria fritar um ovo caso soubesse que um familiar poderia levar um tiro a qualquer momento, quanto mais vencer uma Copa do Mundo em nome de um país que buscava neles doses cavalares de orgulho, alegria e alívio. Apesar da eliminação da Colômbia, Andrés voltou para casa determinado a manter a cabeça erguida. O jogador publicou uma carta aberta no jornal El Tiempe, de Bogotá, em que pedia para o país se unir contra o ódio e a violência. “A vida não acaba aqui. Precisamos seguir em frente… Por mais difícil que seja, precisamos nos levantar de volta”, ele escreveu.

E então, dez dias depois do gol contra na partida com os Estados Unidos, Andrés decidiu sair em público pela primeira vez, para tomar umas com os amigos, no bar El Indio, em Medellin.

Herrera o aconselhou a não sair. Maturana também. Em um determinado momento da noite, um grupo de quatro homens seguiu Andrés do bar até o estacionamento, provocando-o, chamando de “viado”. Abalado, o capitão da Colômbia se dirigiu até o quarteto em seu veículo, insistindo que não queria ter desviado a bola até a própria rede, pedindo que tivessem bom senso. Seis balas depois, Andrés encontrava-se estirado no banco de passageiro. Uma equipe de resgate tentou ressuscitá-lo, sem sucesso.

Créditos: Allstar Picture Library / Alamy Stock Photo

“Claro que ficamos a par do que aconteceu na época”, conta Terry Phelan, um dos zagueiros da Irlanda no campeonato. “Matar alguém a tiros por marcar um gol contra… Alguém precisa mesmo perder a vida por isso? Lembro de conversar com o Valderrama sobre isso uns dois anos atrás, e ele chegou a chorar quando mencionei o caso. Ele comentou que ainda era um assunto delicado pra ele. Você se pergunta mesmo, ‘Mas por quê?’”

É uma pergunta pertinente, que talvez jamais será devidamente respondida. Na época, presumiram que o assassinato foi motivado por perdas em apostas. Muitos ainda acham que é verdade – relatos que testemunhas prestaram à polícia indicam que o veículo em que os agressores escaparam estava registrado como propriedade de Pedro e Juan Gallón, irmãos traficantes que trabalharam sob o comando de Pablo Escobar antes de se juntar ao cartel rival, chamado Los Pepes. Na época, contudo, os Gallón foram liberados, e um de seus guarda-costas – Humberto Castro Muñoz – confessou o assassinato e serviu 11 dos 43 anos de prisão da sentença.

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Entretanto, um dos capangas de Pablo Escobar, chamado Jhon Jairo Velásquez Vásquez – ou "Popeye", conforme é conhecido em sua terra-natal, onde se tornou uma espécie de celebridade de YouTube –, insiste que os Gallóns subornaram as autoridades com três milhões de dólares para enquadrar Muñoz. Vásquez também mantém que o assassinato não foi motivado por perdas em apostas. “O erro de Andrés foi conversar de volta com esses caras”, ele declarou em uma das divesas entrevistas que deu sobre sua relação com o falecido chefão das drogas. “O ego dos irmãos Gallón era tão inflado, que depois de derrubar Pablo, não deixariam barato pra ninguém, nem mesmo Andrés. Não teve nada a ver com apostas. Foi uma briga, só isso.”

Já que as acusações e defesas dos narcoatiradores e a reputação questionável do sistema judicial colombiano dificultam a definição clara de quem exatamente apertou o gatilho naquela noite de verão em Medellin, nos anos 90, talvez seja melhor desencanar. Por mais estranho que soe, com o papel que Andrés buscou desempenhar na sociedade naquele tempo, quiçá o mais importante para ele não seria ter seu assassino preso, mas o país que tanto amava livre da guerra civil que já tomou e arruinou milhões de vidas.

“Nosso intuito era fazer um filme sobre quem matou Andrés Escobar, mas acabou virando um retrato de um país. Acho que é disso que a vida e a morte de Andrés se tratam; é algo muito maior que a pergunta ‘Quem puxou o gatilho?’”, explica Zimbalist. “Andrés era um vislumbre de esperança em tempos sombrios, e por conta do que ele representava, o assassinato balançou as estruturas da psiquê nacional. Não sei se algum dia o luto por ele terá fim. Foi um choque e tanto, para os colegas de time, amigos, familiares, e para o país. Acho que se alguém fosse condenado pelo assassinato dele, teríamos um pouco de paz, mas um ponto final de fato para Andrés e para a Colômbia seria ver o país tomar um novo rumo, positivo.”

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