Mundial 2018

Choro de Neymar escancara a importância de tratar a saúde mental no futebol

O comportamento do camisa 10 depois do jogo contra a Costa Rica pode ter demonstrado que não levar uma equipe de psicólogos para a Copa foi um erro e tanto da CBF.
27.6.18
Foto: Pedro Martins / MoWA Press

Quem acompanhou o jogo do Brasil contra a Costa Rica sabe que o Neymar desabou no campo após o apito final. Chorando feito uma criança, o camisa 10 e maior astro da seleção brasileira ficou no círculo central e foi abraçado por seus companheiros. A torcida desse imenso país e muitos comentaristas da mídia mais uma vez atacaram o rapaz de 26 anos, considerado por muitos um dos três melhores jogadores do mundo. Mas por que será que o ex-menino da Vila caiu no meio do campo? Será que esse é um problema muito grande? Voltemos ao passado.

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Em 1958, no jogo entre Brasil e Inglaterra, na segunda partida da fase de grupos, Mazzola, então atacante do Palmeiras, chorou no campo após perder um gol feito aos 20 minutos do segundo tempo. O capitão da equipe Bellini tentou dar um tapinha nele pra ver se o ânimo do jogador melhorava, mas não adiantou lá muita coisa. Depois do 0x0, o jogador foi o primeiro a descer pro vestiário e lá dentro continuou chorando. Naquele mesmo campeonato, Pelé, com apenas 17 anos, fez dois gols na final contra a Suécia, não conteve as lágrimas e protagonizou uma das fotos mais simbólicas do primeiro título brasileiro em uma Copa do Mundo.

Foto: EBC

É fato que uma seleção desequilibrada emocionalmente assusta a torcida, principalmente pelo o que aconteceu em 2014 e da imagem de uma equipe completamente abatida depois do pior fracasso de um elenco vestindo a camiseta verde e amarela no maior torneio de futebol do mundo. "Esse choro ficou com uma cara de repetição. Na última Copa a gente viu a seleção brasileira muito emotiva em campo e quando você vê uma cena dessa, instantaneamente a gente retoma a memória daquela época, de que isso não deu certo e não por menos, isso vira objeto de preocupação", explica o psicanalista Rodrigo Alencar. "Não dá pra dizer que é o mesmo choro, mas com certeza, falando como torcedor também, quando a gente vê esse choro começa a pensar em um enredo que a gente já sabe o final, ainda que o 7x1 não necessariamente tenha a culpa do Neymar, mas tem um clima do torcedor não querer que o que aconteceu com a seleção do Felipão se repita."

Desde que a Alemanha enfiou aquela sacolada no Brasil, trabalhar o psicológico dos jogadores é algo que, de acordo com essa matéria do Extra, é um tabu dentro da CBF. Ou seja, após um vexame na Copa do Mundo e de uma seleção visivelmente abalada emocionalmente, a entidade máxima do futebol prefere jogar a responsabilidade pra cima do Tite, que por mais que seja elogiado como um ótimo gestor de pessoas, talvez não tenha toda a capacidade necessária para lidar com os ânimos de atletas como o próprio Neymar. "Na época da Democracia Corinthiana o próprio time avaliou que era importante ter um psicólogo na equipe, era uma demanda dos próprios jogadores. Olha quanto tempo passou! Acho que a questão de não levar psicólogo não cabe muito agora. Ficou claro, no caso do Neymar, que ele estava num clima distinto dos outros jogadores. Ele acabou se excedendo e isso é algo que preocupa a torcida porque ele não tá focado no jogo e talvez esteja preocupado com outras questões naquele momento. É muito importante ter uma equipe de profissionais de psicologia, tanto pela atenção que o campeonato tem, quanto no sentido de cuidar desses jogadores, não apenas na ideia de compromisso com a vitória, mas questões de saúde mental que podem ser vivenciadas durante o torneio", conta Rodrigo.

"Dá pra entender que em torno daquele choro existem outras questões além do próprio futebol"

Apesar de a gente saber que homem chora, como o rap nacional já nos ensinou algumas vezes, um pouco de machismo, claro, paira em cima de atletas que são mais emotivos e que não demonstram aquela postura do macho clássico: um ser sisudo, que faz cara de mau e bate em qualquer um. Entretanto, diz Rodrigo, as críticas não são tão relacionadas com isso no caso do último jogo. "Eu não interpreto essa crítica ao choro pela via do machismo, apesar de sim, o esporte ser muito machista. No Brasil a gente tem a ideia de que o título da Copa é obrigação, o brasileiro espera que o time chegue no mínimo até a semifinal e qualquer coisa fora disso é um choque. O choro desse jogo está dentro de um contexto. Se emocionar depois de um título ou uma eliminação é normal, mas neste caso, sem dúvida alguma, é algo que transmite uma fragilidade que preocupa, porque é um momento que se espera uma concentração. Dá pra entender que em torno daquele choro existem outras questões além do próprio futebol".

Uma coisa é fato: de uns tempos pra cá a saúde mental de jogadores de futebol tem estado cada vez mais frágil. Além do simbólico caso do Adriano Imperador, atletas como Nilmar e Thiago Ribeiro foram afastados de suas equipes para tratar depressões que atrapalharam suas carreiras. "A gente tem essa figura quase mitológica no Brasil, que é do moleque que aparentemente não tem perspectivas de futuro e aí se consagra como jogador profissional. Além disso, tem o fato de ser uma carreira curta, de umas décadas pra cá os jogadores saírem jovens do país com uma ideia de que a Europa sempre é melhor que o Brasil, a questão da publicidade, como ela é explorada. Esses jogadores não estão apresentando só futebol, eles estão apresentando o ideal da felicidade, e isso é bem complicado. Então suponho que tudo isso tenha um impacto muito grande em cima deles", comenta o psicanalista.

O importante, no final das contas, é ter fé de que as coisas vão mudar. "Fica tanto a questão da imprensa em volta do ídolo do time e ver que o cara está nessa situação preocupa, porque a chance de ele repetir esse comportamento é grande, ainda que pode não acontecer. Esse jogo bateu como o maior presságio pra gente, já que isso não favorece muito se formos levar em conta o histórico. Não está nada determinado. Pode acontecer algo que faça o Neymar mudar de postura ou o próprio Tite pode conseguir movimentar a dinâmica do time para não ficar daquela forma", prospecta Rodrigo.

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