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Fotografias do inventor não oficial das selfies com celebridades

Jean Pigozzi começou a tirar selfies com gente famosa em 1973.

Por Miss Rosen; Traduzido por Madalena Maltez
27 Junho 2018, 4:34pm

"Andy Warhol and ME", 1986.


Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Em 1973, o fotógrafo e filantropo Jean “Johnny” Pigozzi era um estudante de Harvard quando viu a actriz Faye Dunaway numa festa e pediu para tirar uma foto com ela. “Todos os anos o Hasty Pudding, um clube de teatro de Harvard, convida uma estrela de cinema [para uma festa]”, explica Pigozzi à VICE. E acrescenta: “Toda a gente queria um autógrafo, mas eu sentia que os autógrafos podiam ser falsificados”.

Quando Dunaway disse sim à fotografia, Pigozzi fez algo extraordinário (para a época). Pôs-se ao lado dela, esticou o braço, apontou a câmera para os dois e click! - tirou uma selfie com uma celebridade, décadas antes da invenção do Instagram. “Agora tens um iPhone com uma câmara e podes ver-te no ecrã e tirar muitas fotografias. Mas, quando comecei a fazer selfies, tinha apenas uma oportunidade de tirar a fotografia, tinha que acertar”, recorda Pigozzi.


Vê: "Como as selfies modificaram as nossas vidas"


Depois da universidade, Pigozzi tornou-se um insider num mundo em expansão. Em 1974, exibiu trabalhos no Musée d'Art Moderne de Paris. Logo depois, a sua grande amiga Bianca Jagger ajudou-o a conseguir um papel num filme (que acabou por nunca ser lançado). Uma noite, Jagger convidou Pigozzi para um jantar íntimo com Liza Minelli, que lhe falou sobre um novo clube nocturno de Nova Iorque, chamado Studio 54. As noites passadas na discoteca renderam-lhe fotografias com celebridades como Grace Jones, Andy Warhol, Helmut Newton e Ai Weiwei. Depois, nos anos 80, Pigozzi começou a dar luxuosas festas na piscina da sua casa em Cannes e voltou as suas lentes para os convidados, captando momentos singelos com os seus amigos famosos.

Antes da inauguração da exposição de Pigozzi na IMMAGIS Fine Art Photography, em Munique, que está patente desde 22 de Junho e pode ser vista até 4 de agosto, a VICE falou com o fotógrafo sobre o poder da cultura moderna das selfies e sobre como foi usar uma máquina fotográfica para coleccionar momentos da sua vida carregada de glamour.

"ME and Lady Gaga", 2012. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

VICE: Como é que te envolveste com fotografia?

Quando era criança queria fazer um diário, mas nunca conseguia ler o que escrevia, porque a minha letra é horrível e também porque sou disléxico. Então, o meu pai deu-me uma pequena câmara Brownie. Quando fiz 10 anos, deu-me uma Leica bastante velha e comecei a usá-la. O meu pai morreu quando eu tinha 12 anos e comprei uma câmara melhor. Tiro fotografias todos os dias desde então e tenho agora 66 anos. Para minha surpresa, ainda gosto muito.

Como é que as pessoas reagiam quando lhes pedias para tirar uma selfie com elas?
As pessoas não entendiam o que estava a fazer. Tirava a foto rapidamente e só uma, portanto não havia tempo para a pessoa reagir. Naquela época as pessoas até faziam auto-retratos, mas sempre de uma forma organizada, num estúdio. Pintores e escultores fazem isso há séculos, mas fazer algo assim com uma máquina fotográfica era novidade.

"Helena Christensen and Bono and ME", 2010. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

Podes descrever a vida nocturna de Nova Iorque nos anos 70/80, época em que muitas dessas fotos foram tiradas?

Eu frequentava o Studio 54 e tenho que dizer - já estive em milhões de clubes na minha vida, mas aquele era, de longe, o clube nocturno mais divertido, excitante e louco que já vi. Anteriormente, os clubes eram escuros, com uma só fonte de luz. Era deprimente, OK? E o Studio 54 era enorme e tinha uma música fantástica. Tinha centenas de frequentadores, desde freiras a andar de patins a Calvin Klein e Iman.

Não havia área VIP, o que era óptimo. Uma noite podias estar sentado ao lado de uns gajos de Nova Jérsia com as suas namoradas foleiras, na outra sentavas-te com Andy Warhol e os seus amigos cheios de estilo. Steve Rubell estava à porta e decidia quem entrava. Ele era muito bom a misturar públicos – era como um tipo a escolher o elenco de um filme.

"Sergio Leone and ME", 1978. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

Quais foram alguns dos teus momentos preferidos ao tirares estas fotografias?

A sensação vem quando estou a apertar o obturador. O resultado depois, não é assim tão fixe - excepto quando faço uma impressão em tamanho grande e a vejo num museu ou galeria. Não me interessa por ver as minhas fotografias nem sequer em editá-las. Agora que há um ecrã na tua câmara, sabes se a foto ficou boa ou não, mas, muitas vezes, nem sequer olho.

Já algumas das outras pessoas nas fotografias viram o teu trabalho? Qual foi a reacção?
Sim, algumas pessoas já viram e até compraram a fotografia. Fiz uma exposição há dois anos, na Gagosian Gallery, em Nova Iorque, e vendi as fotos todas. Geralmente, não te dizem quem comprou, mas dizem “Ah, um amigo teu comprou essa”. Vou a casa de um amigo e vejo a foto na parede. Acho que as pessoas não conseguem resistir ao verem-se numa fotografia.

"ME with Ai WeiWei and Maurizio Cattelan", 2016. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

Há algum famoso que tenha “escapado” a uma selfie tua?
Há fotografias que eu gostaria de ter, como Stanley Kubrick e Picasso. Há milhões de pessoas que admiro e com quem gostaria de ter tirado uma fotografia, mas, na verdade, não me esforço. Não sou um groupie que fica na fila cinco horas à chuva para tirar uma foto com o Slash dos Guns N' Roses.

Tenho um limite no meu lado groupie. Se a pessoa estiver à minha frente, vou tirar uma fotografia com ela. O engraçado agora é que as pessoas chegam ao pé de mim e perguntam: “Jean, porque é que não tiras uma foto comigo? Não sou suficientemente bom?”.

"Naomi Campbell, Villa Dorane, Antibes", 1993. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

Podes descrever a cena na Villa Dorane, onde a série Pool Party foi feita?
Tenho uma casa no sul de França e todos os anos dou uma festa durante o Festival de Cinema de Cannes. Mas, é uma festa para os meus amigos. Não estou a fazer publicidade a um filme ou a um actor. Tudo bem, relaxe total. As mulheres não usam saltos altos ou vestidos apertados. Os homens não usam smoking. Já recebi várias pessoas incríveis em todos estes anos. Normalmente decorre num dia ensolarado e as pessoas estão simplesmente a curtir. É por isso que tiro fotos.

Nunca vou tirar uma fotografia com alguém a fazer algo embaraçoso ou a parecer mal. Os paparazzi tentam roubar fotos e muitas vezes são desagradáveis. Não publico as minhas fotografias na revista People. As celebridades confiam em mim, não forçam um sorriso. Conheço algumas delas há anos, como Bono e Michael Douglas.

Há três ou quatro anos atrás, decidi fazer um livro. É um livro muito feliz. O mais engraçado sobre as fotografias do livro é que elas foram tiradas num sítio mais pequeno que um campo de ténis. É como fazer um filme no hall do Carlyle. Visualmente, é muito interessante. Era apenas um sítio, mas todas as fotografias são diferentes.

Zebra, 2015, Villa Dorane, Antibes. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

Ainda tiras selfies?
Sim. Tiro menos, porque fiquei um pouco entediado, mas se encontro alguém que realmente me entusiasma... Estava no Japão e tirei uma foto com Murakami. Agora as pessoas pedem-me para tirar selfies. Chegam com o seu telemóvel e querem que eu tire uma fotografia com elas com o meu. Com o meu telemóvel, nunca; eu uso uma câmara Leica.

Na tua opinião, porque é que, hoje em dia, as selfies atraem tanto as pessoas?
Esta é uma cultura “eu eu eu”. É uma coisa bizarra em termos de auto-promoção, que é um fenómeno novo, porque antes não podias fazer tal coisa. No Instagram de qualquer pessoa, 90 por cento das fotos são dela, dos filhos, do que ela come, o que veste. Não acho isso interessante, mas as pessoas acham-se a si mesmas fascinantes.

Sempre pensei nisto como uma brincadeira - as minhas selfies não eram para ser levadas a sério. Mas, vejo pessoas que demoram horas a tirar uma selfie. Querem mostrar que foram para Miami, Aspen, LA; que estão a comer sushi caro, ou a usar Balenciaga. É um estranho "culto do eu", o que acho esquisito.

Qualquer um pode pegar num lápis e num pedaço de papel e fazer um desenho, mas poucas pessoas podem desenhar como Picasso ou Matisse. Portanto, agora que toda a gente tem um iPhone e tira fotografias o dia inteiro, não quer dizer que sejam bons fotógrafos. Toda a gente tem os mesmos instrumentos, a grande diferença está em como os usas.

"Warhol's Stuffed Dog at the Factory and ME", 1978. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
"ME and Nobuyoshi Araki", 2017. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
"ME and Ed Ruscha, 2012". Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
"Fireworks", 2013, Villa Dorane, Antibes. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
"Larry Gagosian and Helmut Newton", Villa Dorane, Antibes, 1991. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
E: "Lewis Hamilton", 2015, Villa Dorane, Antibes. D: "Elle MacPherson", Villa Dorane, Andibes, 1997. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.
"Mick Jagger and girls", 2011, Villa Dorane, Antibes. Foto: ©Jean Pigozzi. Cortesia IMMAGIS.

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