Cultura

As fotos de Alice Mann mostram a magia das jovens majorettes na África do Sul

"Drummies" mostra um mundo onde jovens mulheres podem desafiar estereótipos e criar espaços positivos para si próprias.

Por Sarah Moroz
11 Julho 2019, 11:21am

Todas as fotos por Alice Mann.

Este artigo foi originalmente publicado pela i-D US.

O trabalho de Alice Mann é guiado pelo seu interesse em raça e comunidade. A nova série da fotógrafa sul-africana, Drummies, documenta a vida de jovens majorettes, através de imagens que destacam o comprometimento das raparigas com o desporto e a sua comunidade. Muitas das que pertencem à equipa, com idades entre cinco e 18 anos, vêm de lares pobres, mas o seu envolvimento no desporto fornece-lhes estrutura, foco e mobilidade através de bolsas de estudo e digressões nacionais. Vestidas com uniformes de cores vibrantes bordados com lantejoulas, o olhar de cada uma delas transmite determinação, disciplina e confiança – uma exibição emocionante de amor-próprio que desejamos para todas as raparigas.

Drummies é a mais recente série do portfólio de Mann focado em subculturas que afirmam de maneira positiva uma identidade colectiva. Ela já documentou membros do La Sape d'Europe, um grupo congolês que usa a moda como meio de empoderamento e captou os visuais coloridos de domingo da Igreja Metodista Walworth em retratos de estúdio. Também fotografou membros da sua própria comunidade suburbana de classe alta na Cidade do Cabo e as trabalhadoras domésticas que cuidam das suas casas, naquele que é um projecto poderoso de desconstrução das dinâmicas raciais pós-apartheid.

Falámos com a fotógrafa sobre carisma natural diante da câmara, o poder do uniforme e a importância de dar a jovens mulheres o crédito que merecem.

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i-D: As majorettes têm entre cinco e 18 anos... Trabalhar com esse espectro de idades significa níveis diferentes de constrangimento à frente da câmara?
Alice Mann: Isso é interessante. A primeira escola em que trabalhei era de ensino básico: meninas dos cinco aos 13 anos. Trabalhar com as mais novas foi o motivo para começar o projecto. Havia uma de cinco anos... era sensacional. Nem precisei de lhe dar qualquer direção; ela sabia exactamente o que queria fazer e como queria ser fotografada. Era muito confiante e tinha um sentido muito claro de si própria. Ver isso numa pessoa tão jovem é espantoso!

Trabalhar com crianças pode ser incrivelmente desafiador. Há pequenas coisas que podes sempre fazer para melhorar uma imagem como fotógrafo, mas gosto que as pessoas sintam que há um espaço onde podem projectar o que querem. Fiquei muito impressionada com o sentido de identidade dessas meninas tão novas. Percebi que o facto de se envolverem neste desporto melhora a sua confiança – tornam-se muito empoderadas.

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A parte da moda parece ter um papel importante no teu trabalho. Como é que isso muda quando estás a fotografar pessoas com uniformes específicos?
Trabalho para destacar situações em que as pessoas se sintam confiantes. Gosto que as pessoas vejam as imagens que criei com elas e sintam que captámos um momento positivo – que sintam orgulho da imagem. Os uniformes que estas raparigas usam faz parte do que para elas se torna uma identidade enquanto majorettes. O uniforme representa isso. Inicialmente também as fotografei com roupas normais, mas percebi que, quando estavam a usar os uniformes, inconscientemente mudavam a linguagem corporal. Ficavam paradas, de queixo erguido e a levantar as pernas bem alto com as botas calçadas [risos]. É como se fossem as miúdas mais populares da escola.

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De que forma é que equilibras retratos introspectivos e cenas em grupo?
Sempre me foquei em retratos formais. Com este trabalho, foi a primeira vez que tentei expandir isso e criar imagens num estilo mais documental. Expandir a narrativa é uma coisa boa; ter retratos formais combinados com coisas que estavam a acontecer naturalmente foi uma forma de tentar levar isso a cabo. Sinto-me, literalmente, honrada de poder trabalhar com elas. São jovens mulheres incríveis. Acredito que a fotografia é uma coisa subjectiva – gosto de pensar que p meu respeito e afinidade com as pessoas com quem trabalho aparecem no resultado final.

Quero mostrar como em todo o País o desporto afecta as raparigas de uma forma positiva. Trabalhei com seis escolas e assisti a algumas competições – viajei com as alunas no seu autocarro, vi todas as etapas de preparação. As competições são uma loucura: uma foi num estádio gigante com milhares de pessoas, com churrasco à beira do campo. É como uma excursão de um dia. É muito interessante ver todo o apoio que elas recebem porque, muitas vezes, jovens mulheres e os seus direitos não são enfatizados como deveriam ser.

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Como é que sabes que um determinado tema é algo com que te vais querer comprometer a longo prazo?
Todos os meus trabalhos são bastante intencionais. Gosto de planear – não saio por aí com uma máquina fotográfica só porque sim. Quando descobri as majorettes fiquei cativada por elas e sabia que, se pudesse, queria investir nesse projecto. Quando começo a trabalhar em alguma coisa, faço-o durante alguns anos. É importante que as pessoas se sintam completamente confortáveis quando trabalho com elas. No trabalho de todos os fotógrafos de que gosto, vês a evolução da relação entre as pessoas e o fotógrafo.

Que fotógrafos citarisa que possuem esse relacionamento evidente com as pessoas?
Gosto muito de Donna Lixenberg, o projecto Imperial Courts é de puro amor, voltando várias vezes e registando as pessoas a envelhecerem. Há um fotógrafo francês que expôs em Arles em 2017 e que está a passar muito tempo com uma família: Mathieu Pernot. Esse tipo de coisas, que são um pouco sentimentais...

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Explica-me como constróis essa ternura interpessoal?
Muitas vezes, passo bastante tempo com as pessoas antes sequer de levar a câmara. Quando estou a trabalhar, algumas pessoas querem ser fotografadas e outras podem ser meio tímidas – não tento construir coisas que não estão lá. Trabalho com as pessoas da forma que elas querem. E gosto de fazer as coisas de maneira muito colaborativa – é mais um diálogo. É muito importante para mim que as pessoas se dirijam a si próprias, especialmente com retratos.

É mais uma questão de apanhar as coisas onde elas já estão e enfatizar aquele momento, em vez de criar algo que não está lá. Também é muito importante para mim, sendo uma fotógrafa branca em África, que haja um relacionamento. Não quero só fazer o trabalho e ir-me embora com as fotos. É importante para mim estar sempre a regressar e a dar essas imagens às pessoas – um envolvimento sustentado.

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Há uma discussão aberta sobre raça com as raparigas?
Estou sempre muito consciente da minha posição enquanto fotógrafa branca. Como qualquer fotógrafo que trabalha com pessoas, a nossa posição é muito importante. O que é que isso significa em relação às pessoas com quem estás a trabalhar? Por isso tento colaborar bastante, em vez de apenas chegar e dirigir.

Quero que as pessoas sintam que há um espaço em que elas podem mostrar-me o que querem, em vez de eu lhes mostrar algo que vejo. Não discuto raça – não com todos os treinadores por perto –, mas sou muito aberta sobre a minha posição e o que isso significa. Acho que é sempre uma coisa para negociar. Para mim, é uma abordagem: como é que te estás a envolver? É isso que tento levar em conta. A forma como trabalhas com os temas é fundamental.


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Actualmente vives em Londres, mas dirias que a África do Sul é intrínseca para o teu trabalho?
Fiz um projecto bastante longo – que também acho que vou continuar em breve – com congoleses em França e Reino Unido. Mas, foco-me muito na África do Sul. Sou sul-africana, cresci lá e tenho um insight do espaço. Mas, agora estou no Reino Unido, portanto posso perceber como um público ocidental vê a África do Sul – que muitas vezes é uma visão estereotipada, unidimensional e negativa. Perguntam-me sempre sobre crime, por exemplo.

A ideia que as pessoas têm do país e do espaço é muito distorcida – particularmente das mulheres sul-africanas e mulheres não-brancas. São vistas como vítimas, sem agência. Claro que isso tem uma história muito complexa. Acho que há muitas falhas e tento criar representações com nuances, para mostrar realidades alternativas e desafiar esses estereótipos. Quis desafiar isso em particular com esTe projecto. Há jovens mulheres a criarem um espaço positivo para si próprias na África do Sul.


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