The Dictators (1976) e Blondie (1977). Fotos por GODLIS.

Estes fotógrafos documentaram a lendária cena punk de Nova Iorque

Dos Blondie aos Ramones, conversámos com Roberta Bayley e GODLIS para percebermos porque é que o CBGB era tão especial.

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22 Janeiro 2019, 12:36pm

The Dictators (1976) e Blondie (1977). Fotos por GODLIS.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D US.

Nos 45 anos que passaram desde que o CBGB abriu portas no Bowery, em Nova Iorque, o estatuto lendário do clube nunca desapareceu da memória colectiva. Talvez graças às muitas fotos icónicas - muitas delas tiradas por Roberta Bayley e David Godlis -, que parecem suspender a cena punk de Nova Iorque no tempo. Como aquela de uma jovem Patti Smith a fumar um cigarro entre os concertos, ou dos Ramones num beco próximo. Se entrasses no CBGB entre 1975 e 1978, provavelmente serias recebido por Roberta, sentada no seu posto perto da porta onde cobrava os três dólares de entrada. Ocasionalmente, ela tirava fotos dos amigos - gente como Richard Hell e os seus Heartbreakers, Talking Heads ou Blondie - essas imagens eram publicadas na Punk Magazine, onde era a fotógrafa principal.

Em 1976, Roberta recebeu David Godlis (a.k.a. GODLIS) á porta do estabelecimento e os dois fotógrafos tornaram-se amigos. Depois de se mudar de Boston para Nova Iorque, onde estudou fotografia com Nan Goldin, GODLIS ficou fascinado com a cena underground do CBGB. Tudo isto é bem documentado no seu livro History Is Made at Night, publicado no ano passado.

“Nos anos 70, as pessoas percebiam Nova Iorque não como um lugar em que queriam estar. Mas, posso dizer que, naquela época, toda a gente que frequentava o CBGB queria realmente ali estar”, salienta o fotógrafo. E acrescenta: “Elas sabiam que algo estava a acontecer. Não era possível não saber... Não tinhas garantias de quanto iria durar e havia uma sensação de que não irias querer perder nada”.

Roberta Bayley at CBGB's
Roberta Bayley, 1977. Foto por GODLIS.

Falámos com Roberta e Godlis, que mora em St. Marks até aos dias de hoje, para tentarmos perceber o que tornava tão irresistível fotografar a icónica sala de concertos de Nova Iorque.

i-D: Como é que vocês se interessaram por fotografia?
Roberta Bayley: Tive algumas aulas no liceu, quando tinha 15 ou 16 anos e aprendi a revelar na minha própria sala escura. Gostava de fotografar, mas não era uma coisa séria e não estudei para isso. Fiz a faculdade em São Francisco e o departamento de fotografia era muito popular. Toda a gente queria ser fotógrafo. No início, vendia as fotos muito baratas. Não via interesse em tirar fotografias que não pudesse vender, o que, pensando agora, era uma idiotice. Hoje, morro só de pensar que poderia ter umas 10 mil fotos mais, especialmente de certas situações. Fiz muitas com os Blondie, porque eles eram fáceis de fotografar e viajei com eles. Todavia, fico feliz de ter parado quando parei. Quando vejo o Godlis, ele tem milhares e milhares de rolos tirados e eu não saberia o que fazer com eles.


Vê: "O rock de ginga na anca dos The Twist Connection"


David Godlis: Comprei uma câmara em 1970, quando tinha 18 ou 19 anos - uma Pentax Spotmatic. Tinha visto o filme Blow-Up, provavelmente alguns anos antes, uma história sobre um fotógrafo muto cool. Então arranjei uma câmara. Era só um hobby, acho eu. Tinha aulas de literatura inglesa e pensava ser escritor, mas depois, comecei a ir à biblioteca para ver livros de fotografia. Tecnicamente, não podia fazer o curso de fotografia, mas convenci o professor de que queria aprender a trabalhar numa sala escura em vez de mandar as minhas fotos para serem reveladas numa farmácia e ele deixou-me ficar. Mais tarde, fui para a Imageworks, em Boston. Eu era o tipo que andava a fazer fotografia de rua. Fazia-o em Boston e pensei: “Acho que tenho que sair para o Mundo. Chega de estudar”. Então, fui para Nova Iorque. E aconteceu que Nova Iorque também era a cidade dos Velvet Underground e, lá chegado, encontrei esta cena que era meio baseada nisso.

Heartbreakers at CBGB's
The Heartbreakers, da esquerda para direita: Walter Lure, Johnny Thunders, Richard Hell e Jerry Nolan (1976). Foto por Roberta Bayley
Ramones at CBGB's
Ramones (1977). Foto por GODLIS

Como é que conheceram o CBGB?
RB: Cheguei a Nova Iorque em Abril de 1974 vinda de Londres, onde vivi uns dois ou três anos. Não conhecia ninguém. Simplesmente cheguei. Comprei um bilhete só de ida. Uma pessoa perguntou-me: “O que é que queres fazer por cá?”. Sabes, quando és nova toda a gente te quer mostrar a cidade e então eu disse que queria ver os New York Dolls. E acontece que esse tipo, o Dave, não só tinha sido o gajo do som deles na digressão pela Europa, como também vivia por cima do Club 82, onde os Dolls iriam tocar na semana seguinte. Quando vi David Johansen pela primeira vez ele estava a usar um vestido, sapatos de salto alto e peruca.

Depois, comecei a conhecer as pessoas da cena. Vi os Television no Max's, com a Patti Smith. Não muito depois disso, conheci o Richard e começámos uma relação. Foi quando os Television estavam a fazer uma residência no CBGB e Terry Ork, o empresário, disse “Podes ficar à porta?”. Estavam lá umas 20 pessoas. As bandas procuravam um sítio onde pudessem tocar regularmente, aprender a apresentarem-se em palco, à frente do público, aprender a dar um concerto. Faz sentido quando pensas nisso. É como os Beatles no The Cavern Club.

DG: Vi no The Village Voice que existia este lugar estranho. Fui lá porque pensei “Parece um sítio fixe para ir". O Bowery era muito vazio na altura. Não havia ali nada, excepto postos de gasolina e hotéis baratos e “deve ser esse o sítio” - o sítio com um toldo na fachada. Entrei e a primeira pessoa que encontrei foi, provavelmente, a Roberta. Nova Iorque tinha lugares profissionais, onde bandas com contratos com editoras tocavam, mas o CBGB parecia algo fora disso, diferente. E isso interessou-me. Eu trabalhava como assistente na época, mas levava sempre a minha câmara para todo lado. Não estava à espera de tirar fotos. Não era considerado cool e artístico tirar fotos a estrelas do rock, só que aquelas pessoas não eram estrelas do rock, eram algo diferente. Era uma cena.

Patti Smith at CBGB's
Patti Smith (1976). Foto por GODLIS
CBGB's
Da esquerda para a direita: Arthur Kane, Dee Dee Ramone e Richard Loyd (1977). Foto por Roberta Bayley

O que é que o ambiente do CBGB tinha que o tornava um lugar tão incrível para fotografar?
RB: Tirei fotos de todas as bandas de que gostava, mas não do resto. Não tenho muitas fotos dos Blondie, porque os concertos estavam sempre muito cheios. Por isso, tenho fotos boas ao vivo dos Ramones, porque, no início, não havia ninguém nas suas actuações. O palco ficava todo rodeado pelo público. Conseguias saber. Tinhas essa sensação de quais eram as bandas boas e quais eram as bandas assim não tão boas. E também gostávamos das pessoas das bandas assim não tão boas. Só não gostávamos das suas bandas.

DG: Eu era um grande fã do Robert Frank e do seu livro The Americans. Foi uma grande influência para mim. Houve uma foto que me ficou na cabeça, de um bando de rapazes sentados em volta de uma jukebox numa loja de doces nos anos 1950 e queria tirar uma foto assim, mas das pessoas que frequentavam o CBGB. Era um grande tema, seja a forma como as pessoas pareciam ou se vestiam, o visual do espaço, todas as noites havia alguma coisa especial. Estavas a mijar na casa-de-banho dos homens e pensavas “Será que deveria tirar uma foto disto?”. Era algo muito fácil e natural sob o disfarce de se ser esquisito e estranho, sabes? E quando superavas esse sentimento, já não era assim tão estranho, era a coisa mais natural, por isso é que toda a gente adorava. Ouvir os Ramones não parecia algo louco. Eles soavam exactamente ao que querias ouvir e não ias ouvir aquilo em mais nenhum sítio.

Virginia at CBGB's
Virginia Mason na casa-de-banho do CBGB (1976). Foto por Roberta Bayley
Talking Heads at CBGB's
Talking Heads (1977). Foto por GODLIS

Quando tiraram estas fotos, imaginavam que, tantos anos depois, ainda estariam a falar delas?
RB: Não. Quer dizer, houve uma grande calmaria entre o meio dos anos 80 e meio dos 90, quando apenas aparecia um artigo aqui e ali e a coisa era quase ignorada. Foi quando fiz a minha primeira exposição numa galeria. Nunca tinha vendido uma impressão a ninguém antes. Quando os Nirvana rebentaram? No começo dos 90? Isso também ajudou, porque eles faziam referência a essas bandas. Mas não, na época, não achei que ainda estaria hoje a falar sobre isso e, certamente, não achava que faria dinheiro com isso. Ou que teria exposições em museus ou algo do género. E, mesmo assim, tratando-se de arte e vendas, ainda é uma batalha contra a corrente – fotografia de rock.

DG: Não. Nunca achei que publicaria um livro. Mas, quando os anos 1980 chegaram e os Sex Pistols implodiram, as mortes de Sid Vicious e Nancy afundaram o punk rock e transformaram-no na New Wave e ninguém queria fazer um livro com essas fotos. Depois, as pessoas começaram a ligar-me tipo: “Essa cena nos anos 70, achamos que os Nirvana foram influenciados por ela”. E eu a tentar convencer as pessoas de que era uma cena interessante! Isso tornou-se história, acho eu. E, ao mesmo tempo, uma coisa que nunca foi claramente definida, que era exactamente o que aconteceu no CBGB, foi quando Please Kill Me... The Story of CBGB's saiu. E o livro esclareceu que essa coisa em Nova Iorque tinha acontecido antes de acontecer em Inglaterra e que as duas cenas eram importantes.

Acho que toda a gente queria que aquilo durasse muito tempo. Queriam que a sua música durasse muito tempo, ou seja lá o que eles estavam a fazer. Na cabeça das pessoas, o que passa como nostalgia era, simplesmente, o que estava a acontecer ali. Foi como se um raio tivesse caído naquele lugar. Havia tantas ideias e coisas interessantes a acontecerem ali todas as noites. Quando estava a trabalhar no meu livro, tudo o que tive de fazer foi meter os discos a tocar – Television, Richard Hell – e tudo voltava à minha mente.

Blondie at CBGB's
Blondie (1977). Foto por GODLIS
Richard Hell and Elvis Costello
Richard Hell, Elvis Costello e Robert Quine nos bastidores (1978). Foto por Roberta Bayley
No Wave Punks
No Wave Punks, da esquerda para a direita: Harold Paris, Kristian Hoffman, Diego Cortez, Anya Philips, Lydia Lunch, James Chance, Jim Sclavunos, Bradly Field, Liz Seidman (1978). Foto por GODLIS
Hilly Kristal
Hilly Kristal, o dono do CBGB (1977). Foto por GODLIS
CBGB's
CBGB (1977). Foto por GODLIS

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