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Opinião

Marcelo. Populista "fofinho", "emplastro 2.0" ou um presidente do caraças?

Por diferentes razões, Cristina Ferreira, Joana Marques Vidal e Rita Redshoes, são para aqui chamadas.

Por Carlos Reis
16 Janeiro 2019, 4:36pm

Não obstante o seu excesso (ecléctico) de intervenção na sociedade, Marcelo é o Presidente da República que mais acentuou o cariz humano da "cadeira" de Belém no pós-25 de Abril. (Foto por Sérgio Felizardo)

Portugal, Janeiro de 2019. Depois do esforço de Passos Coelho e de António Costa para endireitar as contas públicas, o País tenta entrar nos eixos após ter sido alegadamente enganado por um político que, pelos vistos, nem os livros com o seu nome escreveu. Em ambos os aspectos, nada de novo. O que não falta por aí são enredos reais cujos protagonistas são políticos trapaceiros e escritores fantasmas a darem vida literária a quem lhes paga. Mas, para quem está na segunda ou terceira linha em termos de importância europeia, ter tido supostamente um primeiro-ministro envolvido em esquemas de milhões de euros é uma vergonha difícil de apagar.

Neste contexto, é lamentável a tentativa do actual governo em branquear o historial da corrupção lusa. Quando temos o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, a sugerir aos autores de um estudo da OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico) para omitir dados evidentes aos olhos do cidadão minimamente informado - que temos casos de média e grande corrupção -, atingimos o patamar do surreal. Um dia, é de esperar o aparecimento de políticos a pedirem à Porto Editora para excluir do dicionário, entre outras, as palavras "burla", "vigarista" e "suborno". Tão querida (e pouco subtil) é a censura do lápis "rosa"...


Vê: "O documentário político que foi banido pelo governo indiano"


Estes são exemplos que dão cabo da credibilidade dos representantes do povo e que, naturalmente, ajudam a emergir a figura afável de Marcelo Rebelo de Sousa. Todavia, em consequência do excesso (ecléctico) de intervenção na sociedade por parte do Presidente da República, as sondagens dos últimos oito meses indicam que a simpatia dos portugueses para com o ex-comentador televisivo está em queda acentuada.

Sr. Presidente, pode ser um nadinha recatado?

No final de 2017, coloquei o mais alto magistrado da Nação no pedestal. Devido à forma como meteu o Executivo de Costa na ordem após a tragédia dos incêndios e, acima de tudo, por ter confortado quem mais sofreu com as calamidades que fizeram desaparecer mais de cem vidas (já agora, pela importância que teve no Ministério Público, considero Joana Marques Vidal a Figura Nacional do ano passado).

Presentemente, admito estar enfastiado por vê-lo em tudo o que é notícia. Seja por ser um dos primeiros a chegar a um acidente de um eléctrico numa rua lisboeta, seja a comentar quase tudo no quotidiano político ou a telefonar para um programa da manhã de um canal generalista - ver vídeo acima.

No último facto, Cristina Ferreira mostra ao que veio ao ser contratada pela SIC: arrasar a concorrência, misturando temas triviais, que acicatem a curiosidade ou o humor do telespectador, com momentos de choramingueira matinal - a escola Oprah Winfrey. Na estreia, convidou o líder do Benfica, Luís Filipe Vieira, para uma entrevista com registo íntimo de alguém que não tem tido vida fácil no que respeita à justiça (a solo ou com o clube). Por este andar e procurando capitalizar as audiências em redor de conversas exclusivas, desconfio que o lado "reabilitador" d'O Programa da Cristina já tenha na manga os nomes de José Sócrates e de Manuel Pinho. Bem, ao menos não consta nenhum nazi no menu...

Focando novamente os holofotes num "bicho carpinteiro" chamado Marcelo, há situações em que tenho receio que apareça do nada. No sofá quando estou a escolher um filme, no supermercado à procura do desodorizante, ou na cozinha enquanto preparo uma refeição sem glúten. O cúmulo (mas crível de acontecer) seria o professor entrar no meio de um sonho feérico a dar uns bitaites. Tivesse eu a pretensão de seguir as pisadas da Rita Redshoes, talvez não enjeitasse tal infiltração (em 2015, a cantora editou o livro Sonhos de Uma Rapariga Quase Normal, onde revela ter sonhado com várias figuras públicas). Com tanto protagonismo, em jeito de piada, uma agência de publicidade criou o site "TeleMarcelo". Se és dos que deseja um beijinho dele, então a linha foi feita a pensar em ti.

Apesar de alguns dossiers complicados (mormente o aval dado para o afastamento de Joana Marques Vidal da Procuradoria, ou a dúvida que o Sexta às 9, da RTP, deixou sobre a possibilidade de o ex-Chefe da Casa Militar estar a par da devolução das armas no Processo de Tancos), Marcelo Rebelo de Sousa é quem mais acentuou o cariz humano da "cadeira" de Belém no pós-25 de Abril. Ademais, ainda antes de terminar o seu primeiro mandato, já é melhor que os cinzentões Cavaco e Sampaio (os presidentes Soares e Eanes pertencem a uma época onde a democracia local ainda titubeava bastante).

Em paralelo, de maneira oposta a certos (e perigosos) chefes de Estado, Marcelo é um populista "fofinho" dado a selfies que, por estar em todo o lado - como se diz sobre Deus ou lembrando o famoso indivíduo que coloca a face atrás de um repórter ou do entrevistado -, transformou-se no "emplastro 2.0". Só lhe peço é que não apareça quando eu estiver no "roça roça" com uma moçoila rock & roll...

Nota final - Como era expectável, Rui Rio tem a sua liderança no PSD posta à prova por Luís Montenegro. Com as legislativas agendadas para este ano, é normal Marcelo preocupar-se com a crise aberta nos sociais-democratas. É que uma hipotética maioria absoluta do PS, retiraria muito do relevo político do Presidente da República.

Por incrível que pareça, Manuela Ferreira Leite prefere que o Partido tenha um mau resultado do que seja conotado de direita e Santana Lopes, que descreve a governação socialista como "corta, cativa, come e cala" (dito no Expresso da Meia-Noite da SIC Notícias, no passado sábado, 12 de Janeiro), mostra que ainda mexe ao ter 4% numa sondagem com a sua Aliança. Tudo somado, estamos perante a versão "poucachinho" do universo "laranja".


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